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, Sociologia Criminal UNIDADE 1 - A origem da sociologia criminal Introdução A criminologia positiva inaugurou um importante traço do pensamento criminológico: o estudo empírico dos aspectos do crime. Nesse contexto, surgem campos de análise diferentes, dentre os quais é possível citar a sociologia e a antropologia criminal. A antropologia criminal estuda o crime com base na personalidade do delinquente ou dos fatores biológicos, enquanto a sociologia criminal investiga os crimes sob a ótica dos fenômenos exclusivamente sociais. O estudo das principais diferenças e semelhanças entre estes dois ramos de investigação é indispensável para conhecer o surgimento e evolução da sociologia criminal e identificar as principais características dela. Vamos lá? Antropologia e sociologia criminal: noções gerais A história da criminologia traz em seu seio as bases da estrutura teórica da sociologia e da antropologia criminal. Apesar de serem campos de estudos completamente diferentes, muitos doutrinadores ainda se confundem com estes conceitos. Por esta razão, passaremos a analisar, sinteticamente, os dois ramos do estudo da criminologia. Antes de tudo, importa traçar um panorama geral sobre a criminologia, ao passo que foi a partir do surgimento desta ciência que os doutrinadores passaram a estudar os motivos da prática do crime e as classificações dos criminosos. Em sua etimologia, a palavra “criminologia” é originada do latim, crimino, sujo sentido é “crime”, e do grego, logos, que significa “estudo”, formando o termo cujo significado é “estudo do crime”. O termo “criminologia” foi usado pela primeira vez por Paul Topinard, em 1883, se popularizando internacionalmente em 1885, por Raffaele Garófalo, doutrinador que publicou o livro Criminologia no mesmo ano (PENTEADO FILHO, 2020, p. 16). Alguns doutrinadores, semelhantemente ao que se vê na etimologia da palavra, defendem que a criminologia deve ser considerada como a ciência que estuda os crimes e os criminosos. Contudo, o campo de atuação da criminologia é amplo: abarca também as circunstâncias sociais, a vítima, o criminoso, o prognóstico delitivo, dentre outros (PENTEADO FILHO, 2020, p. 16). A criminologia pode ser conceituada como a ciência empírica e interdisciplinar, que tem por objeto analisar o crime, a personalidade do autor do comportamento delitivo e da vítima, e o controle social das condutas criminosas (PENTEADO FILHO, 2020, p. 16). A criminologia é uma das ciências do “ser”, portanto, empírica, haja vista que seu objeto está, claramente, no mundo real, não apenas no dos valores, diferentemente das ciências do “dever- ser”, que podem ser, por exemplo, normativas e valorativas (PENTEADO FILHO, 2020, p. 16). Em razão da necessidade do estudo do objeto da criminologia, que é uma ciência que analisa os fatos ocorridos e o status quo social, tornou-se necessário traçar alguns parâmetros para investigar os aspectos do crime. Nesse contexto, a criminologia positivista passou a investigar as causas da criminalidade, fato que lhe conferiu a qualidade de ter iniciado o paradigma etiológico, ou seja, o estudo das causas de um fenômeno, pois foi imprescindível que os motivos de as pessoas cometerem crimes passassem a ser a pauta dos seus estudos (GONZAGA, 2018, p. 50). Assim, surgem campos de análise diferentes, dos quais decorrem dois principais ramos de investigação autônomos: a sociologia e a antropologia criminal, que são indispensáveis para a compreensão dos fatores criminológicos. Se os estudos dos fatores do crime forem feitos em função da personalidade do delinquente ou dos fatores biológicos, teremos caracterizado um estudo da antropologia criminal. Por sua vez, se analisarmos os crimes sob a ótica dos fenômenos exclusivamente sociais, teremos outro ramo de investigação: a sociologia criminal. Para muitos, o conjunto desses estudos particulares do delito, sob as óticas explicadas, compõe a criminologia. Antropologia e sociologia criminal: interpretação e aprofundamento A criminologia positivista deu origem ao pensamento criminológico moderno, ao passo que ela embasou a investigação, principalmente empírica, dos motivos do crime. O intuito desta corrente, que fundamentou a criminologia como um todo, é a busca pelas causas da criminalidade, abstraindo-se da análise puramente legalista feita pelas antigas teorias. Sinteticamente, pode-se afirmar que a escola positiva (criminologia positivista) teve três fases: 1. A antropológica, com Lombroso como o principal teórico. 2. A sociológica, com Ferri como principal teórico. 3. E a jurídica, com Garófalo como principal teórico (PENTEADO FILHO, 2020, p. 33). A sociologia criminal, em suas bases, confundiu-se com certos preceitos da antropologia criminal, na medida em que buscava a gênese delituosa nos fatores biológicos, em certas anomalias cranianas e na “disjunção” evolutiva (PENTEADO FILHO, 2020, p. 78). Exatamente por isso, traçar uma comparação entre a antropologia criminal e a sociologia criminal é indispensável para o aprofundamento nesse último ramo de análise criminológica. Com o intuito de identificar as bases (motivos) e aspectos dos crimes, Cesare Lombroso, considerado por muitos como o “pai da criminologia”, em sua obra O homem delinquente, publicado em 1876, afirmou que certos fatores biológicos deveriam ser levados em consideração para aferir o surgimento do crime e do criminoso (GONZAGA, 2018, p. 51). Lombroso, também considerado o pai da antropologia criminal, levou em conta algumas ideias e teorias dos fisionomistas para traçar um perfil dos criminosos (PENTEADO FILHO, 2020, p. 34), considerando os aspectos físicos e biológicos para delimitar o perfil do criminoso. Traços como fronte fugidia, zigomas salientes, lábios grossos, mãos grandes, orelhas grandes, insensibilidade à dor, vaidade, crueldade e tendência à tatuagem denotam a pessoa do criminoso na visão de Lombroso (GONZAGA, 2018, p. 51). Evidentemente, a teoria de Lombroso possui inúmeras “falhas” que devem ser levadas em consideração. Contudo, a relevância deste doutrinador para a base do pensamento criminológico é inegável, razão pela qual urge frisar que toda a doutrina da criminologia deve à teoria de Lombroso a investigação empírica do crime. Em breve síntese, a criminologia antropológica, de modo semelhante à teoria de Lombroso, é um ramo de investigação da criminologia, cujo objeto é a criação de perfil de criminoso, considerando os liames existentes entre a natureza de um crime e a personalidade ou aparência física do criminoso. O próprio Lombroso, no fim dos seus dias como teórico, estabeleceu o pensamento de que o crime não só o crime surge das degenerações, mas também de certas transformações sociais que afetam os indivíduos, desajustando-os (PENTEADO FILHO, 2020, p. 78). Mesmo com a contribuição dos teóricos como Lombroso, foi Ferri que mais se destacou no campo da sociologia criminal. Atualmente, este ramo de investigação se preocupa com os fatores sociais e as suas relações com os crimes, analisando as chamadas teorias macrossociológicas, sob enfoques consensuais ou de conflito (PENTEADO FILHO, 2020, p. 78). Dessa forma, percebe-se que, apesar da íntima relação de origem existente entre a antropologia criminal e a sociologia criminal, fica evidente as grandes diferenças entre estes dois ramos de investigação. Antropologia e sociologia criminal: aplicação prática Nos moldes do que já foi discutido, é possível ressaltar que existem na criminologia dois principais ramos de investigação autônomos, a sociologia criminal e a antropologia criminal, que são indispensáveis para a compreensão dos fatores criminológicos. Se o crime for analisado sob a ótica da personalidade do delinquente ou dos fatores biológicos, teremos caracterizado um estudo da antropologia criminal. Se analisarmosos crimes sob a ótica dos fenômenos exclusivamente sociais, teremos outro ramo de investigação, a sociologia criminal. Levando em conta o que já foi visto, passaremos a analisar os seguintes exemplos: 1. Surgiu no Brasil uma nova teoria macrossociológica, com o estudo das influências políticas e ideológicas e a sua relação com o aumento da prática de certos crimes como porte ilegal de arma, agressão, tentativa de homicídio, dentre outros. 2. Novos estudos estão investigando a existência de um gene denominado XVR no corpo de alguns homens; ele ampliaria a possibilidade da prática de crimes violentos e da construção de um transtorno psicopático. 3. Após análises teóricas da criminologia, nasceu uma nova teoria para explicar o aumento da criminalidade em alguns países. De acordo com esta corrente, existe correlação entre o “perfil criminoso” traçado pela mídia e a imputação da característica de “inimigo do Estado” sobre certos grupos sociais. Por isso, estes grupos, colocados à margem da sociedade, sem oportunidades, passaram a cometer crimes com maior frequência. No primeiro caso, identifica-se o estudo sob a ótica da sociologia criminal. Esta afirmação decorre do fato do objeto de análise da nova teoria, na medida em que se debruçou sobre as influências políticas e ideológicas (aspectos sociais) para o aumento da criminalidade. No segundo caso, por sua vez, facilmente se identifica o estudo sob a ótica da antropologia criminal, haja vista que fatores biológicos, mais especificamente genéticos, estão sendo relacionados à prática de crimes e à construção de perfis psicopáticos. Contudo, esta teoria se afasta da concepção original criado por Lombroso, de que seriam fatores físicos (aparentes) que identificariam um potencial criminoso. As análises mais atuais da antropologia criminal, também denominada de biologia criminal, investigam outros fatores biológicos e a relação destes com o aumento da criminalidade. Por fim, analisando o terceiro exemplo, percebe-se claramente o estudo com enfoque na sociologia criminal. Investiga-se o perfil criminal a partir de um conflito existente entre o “quarto poder” social (a mídia) e alguns grupos sociais marginalizados. Por essa razão, percebe-se mais claramente que a sociologia criminal não analisa apenas os conflitos sociais existentes entre grupos sociais, mas também entre poderes, oficiais ou não, e a sociedade. Da mesma forma, este ramo da criminologia também analisa a existência das chamadas “teorias de consenso”, nas quais não há, necessariamente, a existência de conflitos sociais. Videoaula: Antropologia criminal e sociologia criminal Nesta videoaula, trataremos mais profundamente do conceito de antropologia criminal e de sociologia criminal, identificando os pontos comuns de origem e de “separação” destes dois ramos. Ademais, estabeleceremos as principais semelhanças e diferenças entre a antropologia criminal e a sociologia criminal, com enfoque em alguns exemplos práticos sobre esses ramos. Saiba mais A criminologia possui em seu seio dois grandes ramos de investigação empírica da criminalidade, a antropologia criminal e a sociologia criminal. Entender as principais diferenças e semelhanças entre esses ramos é indispensável. Os links a seguir auxiliarão a maior compreensão do tema: • O vídeo Pensar o Crime ou o Criminoso? possibilita o aprofundamento no tema antropologia criminal. • O vídeo Sociologia do Crime - Coringa (2019) possibilita o aprofundamento no tema sociologia criminal a partir da análise do filme Coringa. • O vídeo Introdução à sociologia criminal possibilita o aprofundamento no tema sociologia criminal. • • Introdução • • A história da criminologia, desde a sua concepção até o seu amadurecimento científico, é um dos principais pontos que devem ser abordados no estudo da sociologia criminal. Isto porque este ramo de investigação surgiu com o avanço científico da criminologia, mais especificamente com a utilização de métodos empíricos que investigam a relação entre as relações sociais e os fatores criminológicos, isto é, que circundam a prática criminal. • O estudo do surgimento e evolução da criminologia como ciência, bem como das escolas científicas da criminologia, é indispensável para conhecer o desenvolvimento da sociologia criminal e identificar suas principais características. • Vamos lá? • https://www.youtube.com/watch?v=HyIIJdPlbhs https://www.youtube.com/watch?v=qxi2z2ffOdw https://www.youtube.com/watch?v=3pnj4LTDmQI • História da criminologia: noções gerais • • A história da criminologia, em especial as teorias criadas e desenvolvidas pelas escolas criminológicas, foi de suma importância para o surgimento da sociologia criminal, que nada mais é do que o ramo empírico de análise da criminologia, cujo objeto é a investigação das circunstâncias dos crimes com enfoque nas relações sociais. • Por esta razão, traçar um breve histórico da criminologia e, mais profundamente, entender o funcionamento e principais características das escolas criminológicas é indispensável para a compreensão da sociologia criminal. • Para que se chegasse à maturidade teórica da criminologia contemporânea, esta ciência passou por longa evolução, marcada por atritos teóricos irreconciliáveis, principalmente no período conhecido como “disputas de escolas” (PENTEADO FILHO, 2020, p. 26). • No que tange à origem da ciência criminológica, parte da doutrina se inclina para afirmar que o fundador da criminologia moderna foi Cesare Lombroso, teórico que não se dizia, contudo, criminólogo, ao publicar, em 1876, de seu livro O homem delinquente (PENTEADO FILHO, 2020, p. 26). • Para outros doutrinadores, só se pode falar em criminologia a partir do antropólogo Paul Topinard que, em 1879, empregou pela primeira vez a palavra “criminologia”, enquanto alguns defendem a tese de que foi Rafael Garófalo, em 1885, a usar o termo como nome de um livro científico (PENTEADO FILHO, 2020, p. 26). • Independentemente do momento da formação da criminologia como ciência, desde os tempos da antiguidade se realizavam discussões sobre os crimes e criminosos, ou seja, antes do marco teórico para o início do estudo criminológico como ciência estruturada. • Exatamente por isso, é possível falar em criminologia pré-científica, ou seja, teorias que surgiram antes do advento das escolas criminológicas e do pensamento científico estruturado da criminologia. • A criminologia pré-científica pode ser dividida em algumas etapas: a) antiguidade; b) teólogos; c) filósofos e humanistas; d) penólogos; e) ocultismo; f) frenólogos; g) psiquiatras; e h) médicos e cientistas (PENTEADO FILHO, 2020, p. 29 e 30). • Destaque-se que, dentro da fase do ocultismo, ainda é possível reconhecer diferentes teorias: • a) astrologia, que consiste no estudo do destino do homem pelo zodíaco; • b) oftalmoscopia, que estudava o caráter do homem pelo tamanho dos olhos; • c) metoposcopia, com o exame do caráter pelas rugas do homem; • d) quiromancia, que tentava examinar o passado e futuro pelas linhas das mãos; • e) fisiognomonia, ou seja, o estudo do caráter das pessoas pelos traços da fisionomia; e • f) demonologia, que investigava as pessoas “possuídas pelo demônio” e que apresentavam em sua face a “marca do mal” (PENTEADO FILHO, 2020, p. 29 e 30). • A fase pré-científica pode ser reconhecida por dois enfoques muito evidentes. Em primeiro plano, os clássicos, influenciados pelo Iluminismo, com seus métodos dedutivos e lógico- formais, e, de outro lado, os empíricos, que investigavam a origem delitiva por meio de técnicas fracionadas (PENTEADO FILHO, 2020, p. 30). • Esses dois grandes ramos culminaram nos chamados clássicos e positivistas, que, seja na fase pré-científica, ou com o desenvolvimento das escolas científicas, deram origem ao que se entendeu por “luta de escolas” ou “disputas de escolas”(PENTEADO FILHO, 2020, p. 30). • A sociologia criminal surge com o desenvolvimento da criminologia como ciência, em especial com o avanço da utilização de métodos empíricos para o estudo dos fatores criminológicos e suas relações com os aspectos sociais. • História da criminologia: interpretação e aprofundamento • • Nos moldes do que foi discutido anteriormente, foi a partir do surgimento e desenvolvimento das escolas criminológicas que se deu o início do caráter científico da criminologia e a sua consequente estruturação como ciência. • Primeiramente, a escola clássica ou criminologia clássica foi a grande responsável por estabelecer uma sistematização sobre a problemática do crime, elegendo-o como o seu objeto de estudo, o que lhe permitiu ser chamada de ciência autônoma (GONZAGA, 2018, p. 47). • É relevante destacar que não existiu uma escola clássica propriamente dita, ao passo que ela foi denominada assim pelos positivistas, principalmente Ferri, em tom pejorativo (PENTEADO FILHO, 2020, p. 31). • A fase clássica partiu de duas teorias distintas: a) o jusnaturalismo, resultado da natureza eterna e imutável do ser humano; e b) o contratualismo, no qual o Estado surge a partir de um grande pacto entre os homens, estes que cedem parcela de sua liberdade e direitos em prol da segurança coletiva (PENTEADO FILHO, 2020, p. 31 e 32). • Assim, os fatores do crime eram estudados sob estas duas visões, o jusnaturalismo e o contratualismo, investigando como estas características poderiam afetar a prática criminal. • Os princípios fundamentais da Escola Clássica são: a) o crime é uma figura jurídica, sendo considerado não uma ação, mas sim uma infração; b) a punibilidade do agente deve ser embasada no livre-arbítrio; c) a pena deve ter caráter de retribuição pela culpa moral do delinquente; e d) utilização do método e raciocínio lógico-dedutivo (PENTEADO FILHO, 2020, p. 32). • A escola positiva, por sua vez, possuiu três fases: • a) a antropológica, com Lombroso como principal teórico; • b) a sociológica, com Ferri como principal teórico; e • c) a jurídica, com Garófalo como principal teórico (PENTEADO FILHO, 2020, p. 33). • A aclamação e consolidação da escola positiva ocorreu no final do século XIX, com a atuação destacada de Lombroso, Ferri e Garófalo, considerados como principais expoentes da escola positiva italiana (PENTEADO FILHO, 2020, p. 35). • Enrico Ferri, que foi genro e discípulo de Lombroso (considerado por muitos o pai da criminologia), foi o criador da chamada sociologia criminal (PENTEADO FILHO, 2020, p. 37). Ferri considerava que a criminalidade derivava de fenômenos antropológicos, físicos e culturais (PENTEADO FILHO, 2020, p. 37). • Como forma de sistematizar o estudo, em síntese, é possível afirmar que os principais postulados da escola positiva são: a) o direito penal é obra humana; b) a responsabilidade social é resultado do determinismo social; c) o delito é um fenômeno natural e social; d) a pena é um instrumento de defesa social; e) uso do método indutivo-experimental; e f) os objetos de estudo da ciência penal são o crime, o criminoso, a pena e o processo (PENTEADO FILHO, 2020, p. 38). • Destaque-se que, para muitos doutrinadores, existe a chamada escola científica, que foi um desdobramento da escola positiva, a partir de um aprofundamento dos métodos científicos já utilizados na escola positiva. Contudo, este posicionamento a respeito da existência e consolidação de uma escola científica não possui grande força no seio da doutrina criminológica. • Por fim, a criminologia crítica, também denominada como “marxista”, “nova criminologia” e até como “criminologia radical”, aborda os fatores do crime como criminalização, que se explicaria por processos seletivos de construção social do comportamento criminoso e de alguns grupos criminalizados. História da criminologia: aplicação prática Conforme já estudado, a “luta de escolas” ou “disputas de escolas” surgiram dos embates teóricos existentes principalmente entre os clássicos e positivistas, em especial na fase das escolas criminológicas. As escolas da criminologia são o grande marco da construção da criminologia como ciência, esta que agora possui objeto fixo de estudo e método bem definido de investigações e análises. A partir deste desenvolvimento foi possível que ocorresse o amadurecimento do pensamento criminológico. Quando se fala em história da criminologia, é possível reconhecer uma fase pré-científica, que possuiu inúmeros desdobramentos, e uma fase científica, com o surgimento e desenvolvimento das escolas. Diante do exposto, devemos pensar nos seguintes exemplos: 1. Surgiu no Brasil uma nova teoria da criminologia, segundo a qual, por meio do raciocínio lógico e do uso da dedução, foi estabelecida a premissa de que o ser humano é um delinquente nato, e que, a depender do estado de necessidade e da situação social, o crime ocorrerá inevitavelmente. 2. Nos Estados Unidos da América, surgiu uma teoria criminológica, por meio da qual, a partir da análise de dados estatísticos, investigação de campo e análise social, foi possível estabelecer um liame entre o estado de necessidade na situação social com a prática recorrente de crimes. 3. Reconheceu-se, no Japão, a existência de um novo vírus que ataca o sistema nervoso central do ser humano. Um dos sintomas da infecção pelo novo vírus reconhecido é o aumento da agressividade. Os criminológicos estão se debruçando sobre o estudo da relação entre esta nova doença e a maior prática de crimes. No primeiro exemplo, apesar de existir uma relação de estudo entre o estado de necessidade e a situação social com a prática de crimes, não é possível enquadrar o estudo no âmbito da sociologia criminal. Isso se explica em razão de o método sociológico possuir um caráter empírico, na medida em que surgiu com a escola positiva, cuja maior característica é o uso do método empírico para a análise dos fatores criminais. No exemplo, a teoria que surgiu no Brasil utiliza o método e raciocínio lógico-dedutivo, estabelecendo uma relação dedutiva entre o estado natural do homem (jusnaturalismo) e os fatores de cometimento do crime. O segundo exemplo, por sua vez, apresenta a teoria na qual se analisam dados estatísticos, se realiza investigação de campo e análise social. Ele pode ser enquadrado, dessa forma, no campo da escola positiva, mais especificamente na sociologia criminal. Por fim, o terceiro caso aborda o estudo de fatores biológicos externos que podem afetar o cometimento de crimes, isto é, um novo vírus reconhecido. Esta teoria se afasta um pouco da antropologia criminal pensada originalmente pela escola positiva, apesar de existir evidente estudo biológico do tema. Dessa forma, é mais prudente enquadrar o exemplo na escola científica, que consiste em um desdobramento natural (pelo aprofundamento) do estudo biológico da escola positiva. Videoaula: Evolução histórica da criminologia Nesta videoaula, trataremos, com profundidade, da evolução histórica da criminologia e de todos os seus impactos para o surgimento e desenvolvimento da sociologia criminal. Ademais, estudaremos as principais escolas do pensamento criminológico: a escola clássica e a escola positiva. Por fim, apresentaremos as principais características da escola científica e da escola crítica. Saiba mais A história do surgimento e amadurecimento da criminologia como ciência é indispensável para a construção da sociologia criminal. Os links a seguir auxiliarão a maior compreensão do tema: • O vídeo Surgimento da criminologia (Série Criminologia – EP 01) possibilita o aprofundamento no tema surgimento da criminologia. • O vídeo escolas Criminológicas – Introdução à Criminologia possibilita o aprofundamento no tema escolas criminológicas. https://www.youtube.com/watch?v=pRIfTgGf8Jw https://www.youtube.com/watch?v=B2Lr-kWrtEo• O vídeo Escolas positivistas de criminologia: Lombroso, Ferri e Garófalo (Série criminologia – EP 04) possibilita o aprofundamento no tema escola positiva. • • Introdução • • Compreender a origem e o desenvolvimento da sociologia criminal é indispensável para o melhor entendimento sobre o tema, haja vista que, a partir desta análise, é possível reconhecer as raízes deste campo de investigação. • Antes do marco doutrinário inicial desta forma de analisar o crime, já existiam teorias sociológicas para explicá-lo; por exemplo: as de Émile Durkheim, Karl Marx e Paulo Egídio. • O estudo destas correntes de pensamento é indispensável para conhecer o surgimento e evolução da sociologia criminal e identificar suas principais características. • Vamos lá? • • História da sociologia criminal: noções gerais https://www.youtube.com/watch?v=GeTHXw6rM-E https://www.youtube.com/watch?v=GeTHXw6rM-E • • Antes da doutrina de Ferri, que deu início à sociologia criminal da forma como conhecemos hoje, com a aplicação de métodos de estudos empíricos, já existiam teorias sociológicas para explicar o crime. • Conhecer o marco inicial da sociologia criminal e como se deu o seu desenvolvimento é de suma importância para a ampla compreensão do tema. A seguir, passaremos a delimitar o início da sociologia criminal e o que os autores clássicos teorizavam sobre o tema. • Dito isso, inicialmente, é importante estabelecer o marco zero para a sociologia criminal como campo de estudos estruturado. A escola positiva da criminologia possuiu três fases: a) a antropológica, com Lombroso como principal teórico; b) a sociológica, com Ferri como principal teórico; e c) a jurídica, com Garófalo como principal teórico (PENTEADO FILHO, 2020, p. 33). • Enrico Ferri, que foi genro e discípulo de Lombroso, pode ser considerado o “pai” da sociologia criminal (PENTEADO FILHO, 2020, 37 e 38), na medida em que foi ele o primeiro a estabelecer os passos para o pensamento do referido campo de análise. Para ele, a criminalidade se derivava de fenômenos antropológicos, físicos e culturais; não seria possível considerar o livre-arbítrio como base da imputabilidade (PENTEADO FILHO, 2020, 37 e 38). • Ele entendeu que a responsabilidade moral deveria ser substituída pela responsabilidade social e que a razão de punir é a defesa social (PENTEADO FILHO, 2020, 37 e 38). Por meio dos seus estudos, foi possível classificar os criminosos em: a) natos; b) loucos; c) habituais; d) de ocasião; e e) por paixão (PENTEADO FILHO, 2020, 37 e 38). • Contudo, antes do marco inicial para a sociologia criminal bem estruturada com métodos científicos para investigação, já existiam teóricos da sociologia que tentavam explicar a origem e os aspectos do crime. • Os primeiros sociólogos, conhecidos como clássicos da sociologia, em especial Marx, Durkheim e Weber, desenvolveram os principais fundamentos das teorias sociológicas do crime e da justiça (MACHADO, 2008, p. 96). • Os dois primeiros autores, Marx e Durkheim, se debruçaram sobre o fenômeno criminal propriamente dito, enquanto Max Weber focou a sua atenção na moderna burocracia das sociedades industriais, lançando as bases da atual sociologia do direito e da administração da justiça (MACHADO, 2008, p. 96). • Émile Durkheim tratou do crime de modo sistemático, estabelecendo que ele é normal em qualquer sociedade, e defendendo que “não há fenómeno que apresente de maneira mais irrefutável todos os sintomas da normalidade, dado que aparece como estreitamente ligado às condições de qualquer vida colectiva” (MACHADO, 2008, p. 104). • Durkheim foi um doutrinador importante para a sociologia, para o direito e para a criminologia, apresentando o impacto das forças sociais na conduta humana, nomeadamente na ocorrência do crime, o que foi bastante revolucionário para a sua época. História da sociologia criminal: interpretação e aprofundamento Dentre os clássicos da sociologia, sem dúvida, Karl Marx é um dos mais importantes, tanto para a sociologia clássica, quanto para a abordagem sociológica do crime. Por esta razão, traçaremos o cerne principal do estudo de Marx. O autor se delimita a explicar a ocorrência do crime na sociedade capitalista, defendendo que haverá a redução sistemática do crime ou, mesmo, o seu desaparecimento depois de instaurado o socialismo com a subsequente redução ou eliminação da desigualdade na distribuição da riqueza e consolidação da estabilidade econômica (MACHADO, 2008, p. 99). A partir da análise de Marx, que já apresentava um teor sociológico, mas não empírico, para explicar a ocorrência do crime, outros doutrinadores passaram a defender conceitos semelhantes para investigar as circunstâncias do crime. Durkheim é um dos nomes mais importantes destes “novos” doutrinadores. A abordagem de Durkheim se fundamenta no conceito de anomia. Este termo, em sua etimologia, significa a “ausência de normas” e a inexistência de referência a regras práticas de vida em sociedade (MACHADO, 2008, p. 104). A teoria da anomia, pensada por Émile Durkheim, aponta as tensões socialmente estruturadas que induzem à ocorrência do crime e à consequente adopção de soluções desviantes, procurando, assim, descobrir de que modo o sistema social produz o crime como resultado normal do seu próprio funcionamento (MACHADO, 2008, p. 104). O conceito de anomia assume grande importância na linha das teorias sociológicas funcionalistas, mais especificamente no trabalho de Robert Merton e de Talcott Parsons (MACHADO, 2008, p. 104). No Brasil, a teoria de Durkheim encontra forte relação com os estudos do doutrinador Paulo Egídio. Paulo Egídio foi considerado pelos doutrinadores da sua época como um dos mais importantes pensadores da época, se firmando como estudioso da “sociologia”, termo que, na sua concepção, englobava desde autores que hoje reconhecemos como “clássicos” dessa área do conhecimento até autores que atualmente não são considerados como parte da história da disciplina (SALLA; ALVAREZ, 2000, p. 102 e 103). Diferentemente do que a maior parte dos autores faziam na época de Paulo Egídio, isto é, se dedicavam a divulgar as ideias de crime de Lombroso (para muitos o pai da criminologia), o doutrinador brasileiro se firmou ao analisar Émile Durkheim, que na época era pouco visitado pelos estudiosos brasileiros (SALLA; ALVAREZ, 2000, p. 103). Paulo Egídio se preocupou com um dos principais pontos de discussão de Durkheim: o problema do caráter normal ou patológico do crime (SALLA; ALVAREZ, 2000, p. 103). Para tanto, Egídio centrou as suas pesquisas em três etapas (SALLA; ALVAREZ, 2000, p. 103 e 104): 1. Estudar a teoria do método objetivo em Durkheim e como ele o aplica ao conceito de crime. 2. Retificar os argumentos do sociólogo francês, ao criticar as conclusões a que este chegou sobre o caráter normal do crime. 3. Discutir se a relação entre o progresso e o aumento da criminalidade, também defendida por Durkheim, pode ser confirmada pela análise de dados estatísticos referentes a diversos países, incluído o Brasil. Apesar da sua evidente relevância para a construção da sociologia criminal brasileira, Paulo Egídio foi por muitos “esquecido”, na medida em que, apesar das suas contribuições, muitas vezes ele é sequer citado. História da sociologia criminal: aplicação prática Conforme já abordado, para Ferri, a criminalidade derivava de fenômenos antropológicos, físicos e culturais, não sendo possível considerar o livre-arbítrio como base da imputabilidade. As suas teorias se afastam dos “clássicos” da sociologia que analisaram o crime, na medida em que os seus estudos se utilizaram o método empírico, diferentemente da abordagem da escola clássica, que lançava mão do método dedutivo. Nesse diapasão, na prática, percebe-se que, apesar de ser considerado um “clássico” que tratou da ideia docrime, já era possível estabelecer em Paulo Egídio as características do estudo da escola positiva. Como dito, Paulo Egídio, na última etapa das suas pesquisas sobre os fatores do crime, se preocupou em discutir se a relação entre o progresso e o aumento da criminalidade, também defendida por Durkheim, pode ser confirmada pela análise de dados estatísticos referentes a diversos países, incluído o Brasil (SALLA; ALVAREZ, 2000, p. 103 e 104). Importa, dessa forma, relembrar as características da escola positiva da criminologia: a) o direito penal é obra humana; b) a responsabilidade social é resultado do determinismo social; c) o delito é um fenômeno natural e social; d) a pena é um instrumento de defesa social; e) uso do método indutivo-experimental; e f) os objetos de estudo da ciência penal são o crime, o criminoso, a pena e o processo (PENTEADO FILHO, 2020, p. 38). Paulo Egídio, para confrontar a teoria de Durkheim, aplicou em seus estudos os diversos métodos da escola positiva, inclusive o método indutivo-experimental, ao tentar confirmar a tese de Émile Durkheim pela análise de dados estatísticos referentes a diversos países, incluído o Brasil. Para aprofundar os conhecimentos, imagine os seguintes exemplos: 1. Na sociedade fictícia do país Relher, chegou-se a um governo totalmente anárquico, com a derrubada de todas as regras impostas e, consequentemente, de todas as leis estabelecidas no país. Por isso, se percebeu uma manutenção dos índices criminais, mesmo com a ausência total de normas. 2. A sociedade fictícia do país Relher está em constante progresso, em razão do aumento do produto interno bruto do Estado. Contudo, percebeu-se um aumento também nos índices criminais. 3. Na sociedade fictícia do país Relher, o maior partido socialista chegou ao poder, estabelecendo um governo totalmente voltado para os valores da igualdade da melhor doutrina socialista. Percebeu-se, depois deste fato, uma redução dos índices criminais. Ao ver o primeiro exemplo sob a ótica da tese de Émile Durkheim, percebe-se que o crime cumpre uma função social, ou seja, são praticados normalmente em uma sociedade, independentemente da existência ou total ausência de normas. Da mesma forma, considerando o segundo exemplo e analisando-o sob a ótica de Durkheim, o progresso de uma sociedade resulta no inevitável aumento da criminalidade, o que explicaria a ocorrência. Por fim, o exemplo três pode ser explicado pela tese sobre o crime de Karl Marx, ao defender que haverá redução sistemática do crime ou, mesmo, o seu desaparecimento depois de instaurado o socialismo com a subsequente redução ou eliminação da desigualdade na distribuição da riqueza e a consolidação da estabilidade económica. Videoaula: Concepções sobre o crime dos clássicos da sociologia Nesta videoaula, abordaremos as concepções sobre o crime dos clássicos da sociologia, dentre os quais pode-se citar Karl Marx. Além disso, vamos nos aprofundar na sociologia criminal em Émile Durkheim, com ênfase no conceito de anomia. Por fim, trataremos da doutrina de Paulo Egídio e a sociologia criminal em São Paulo. Saiba mais Para a melhor compreensão sobre o tema, torna-se necessário o acesso a outras fontes de conhecimento. Os links a seguir auxiliarão o aprofundamento do seu estudo: • O artigo Paulo Egídio e a sociologia criminal em São Paulo possibilita o aprofundamento na doutrina de Paulo Egídio. • O artigo O crime e a pena no pensamento de Émile Durkheim possibilita o aprofundamento na doutrina de Émile Durkheim. • O artigo O Pensamento de Karl Marx e a Criminologia Crítica: Por uma Criminologia do Século XXI possibilita o aprofundamento na doutrina de Karl Marx. • • Introdução • • A escola sociológica alemã teve como precursores Franz von Lizst, Adolphe Prins e Von Hammel, criadores da União Internacional de Direito Penal, em 1888. Apesar da relevância https://nev.prp.usp.br/publicacao/paulo-egdio-e-a-sociologia-criminal-em-so-paulo/ http://www.revistaintellectus.com.br/artigos/14.150.pdf https://www.emerj.tjrj.jus.br/revistaemerj_online/edicoes/revista67/revista67_356.pdf https://www.emerj.tjrj.jus.br/revistaemerj_online/edicoes/revista67/revista67_356.pdf de Prins e Hammel, é impossível retirar de Franz von Lizst o destaque na moderna escola alemã, ao passo que ele foi o responsável pelo surgimento dela e desenvolvimento dos seus principais postulados. • O estudo da escola sociológica alemã, de seus principais postulados e das contribuições de Franz von Lizst para a sociologia criminal é indispensável para conhecer o surgimento e evolução da sociologia criminal e identificar suas principais características. • Vamos lá? • Escola sociológica alemã: noções gerais • • Dentro das “novas” escolas da criminologia (isto é, as que sucederam a clássica e a positiva), merece realce a escola de política criminal, também denominada de moderna escola alemã e de escola sociológica alemã, que traçaram importantes avanços na doutrina da sociologia criminal. • A escola sociológica alemã tem como seus principais expoentes Franz von Lizst, Adolphe Prins e Von Hammel, que foram criadores, além de teorias extremamente relevantes para a sociologia criminal, da União Internacional de Direito Penal, em 1888 (PENTEADO FILHO, 2020, p. 39). • Contrariando as doutrinas vigentes, que exaltavam o purismo da ciência penal, corporificado no excessivo apego à razão abstrata, a escola sociológica alemã pronunciava-se a favor da investigação sociológica e do uso dos seus conhecimentos para o enfrentamento da criminalidade (VIANA, 2018, p. 98). • Diferentemente da doutrina de Ferri, que evidentemente serviu como base para os estudos desta nova escola, na medida em que teorizava a criminalidade como derivada de fenômenos antropológicos, físicos e culturais e não considerava o livre-arbítrio como base da imputabilidade (PENTEADO FILHO, 2020, 37 e 38), o foco maior da escola sociológica alemã foi a busca do enfrentamento desta criminalidade, não apenas de sua explicação. • A moderna escola alemã nega a determinação do positivismo italiano, bem como desenvolve um olhar sociológico do delito, ao mesmo tempo em que mantém o seu estudo dogmático (VIANA, 2018, p. 98). • Em um primeiro momento, é possível reconhecer que a escola sociológica alemã conserva a diferença existente entre a imputabilidade e a inimputabilidade, bem como substitui o critério do livre arbítrio, pensado pelos clássicos da sociologia criminal, pelo critério da normalidade (VIANA, 2018, p. 98). • Ademais, a moderna escola alemã mantém a pena vinculada à culpabilidade; e, no contexto da medida de segurança, desenvolve a noção de periculosidade do agente, também denominada de estado perigoso (VIANA, 2018, p. 98). • Esta “nova” escola da sociologia criminal, em síntese, pode ser descrita pela sua postura eclética, como atitude de apartamento tanto da metafísica dos clássicos, quanto dos extremismos unilaterais do positivismo criminológico, especialmente de Lombroso, autor que se centrou mais na antropologia criminal (VIANA, 2018, p. 98 e 99). • O caráter sociológico do pensamento alemão se deve especialmente a Franz von Liszt, um dos maiores nomes da moderna escola alemã, cuja aula inaugural em Marburgo, denominada A ideia de fim do Direito Penal, ministrada em 1882 (e mais tarde chamada de Programa de Marburgo), também dá nome à escola (VIANA, 2018, p. 99). • Percebe-se claramente que, apesar de sua postura eclética, que toma como fonte os clássicos e os positivistas da antropologia criminal, a escola sociológica alemã é uma das importantes correntes da sociologia criminal moderna. • O caráter sociológico do pensamento de Franz von Liszt enquadrou a escola dentro da sociologia criminal, na medida em que tenta explicar o crime partindo de concepções sociológicas vigentes nas sociedades. Escola sociológicaalemã: interpretação e aprofundamento Conforme já mencionado, o doutrinador Franz von Liszt foi um dos grandes nomes da escola sociológica alemã, sendo possível afirmar que o caráter sociológico da escola se deve aos seus ensinamentos. A aula inaugural em Marburgo, denominada de A ideia de fim do Direito Penal, ministrada em 1882 por Franz von Liszt (mais tarde, ela foi chamada de Programa de Marburgo), foi um divisor de águas para o surgimento e desenvolvimento da moderna escola alemã. Importando a “ideia de fim” de Rudolf von Ihering, outro grande nome do direito penal e da criminologia alemã, Franz von Liszt abre um novo e importante caminho para a ciência penal da Alemanha (VIANA, 2018, p. 99). O pensamento de Liszt se propagou por meio de importantes publicações e iniciativas, tais como a publicação do seu Tratado, em 1880; a fundação da Zeitschrift für die gesamte Strafrechtswissenschaft; e a criação da União Internacional de Direito Penal, que possuía o intuito, nos moldes do artigo 1º do seu estatuto, de ressaltar a necessidade de investigações sociológicas e antropológicas, com o aprofundamento na investigação científica do crime, suas causas e meios para combatê-lo (VIANA, 2018, p. 99). Foi na doutrina de Liszt que ocorreram os primeiros passos da escola sociológica alemã como corrente de pensamento, sendo possível traçar, como marco inicial, a publicação da sua primeira obra com caráter sociológico criminal. Apesar de ser influenciado pela doutrina sociológica de Ferri, Liszt não admite a possibilidade de um tipo de delinquente, como pretendido por Lombroso e aceito por Ferri (VIANA, 2018, p. 100). Na escola sociológica alemã, mais especificamente na doutrina de Liszt, ocorre a elevação do fator social ao patamar de causa determinante da criminalidade, ao passo que, segundo ele, a sociedade não só desenvolve como produz a criminalidade (VIANA, 2018, p. 100). Portanto, como outros autores do positivismo criminal, a preocupação maior da escola sociológica alemã é a explicação da origem do crime e os fatores que levam um agente a transgredir. Liszt classifica os crimes em: 1. Delitos de ocasião: nos quais o agente se submete a impulsos exteriores que dão causa ao crime, sendo arrebatado por uma excitação repentina e apaixonada, ou sob a influência de uma opressiva necessidade. 2. Delitos crônicos ou por natureza: nos quais o agente é predisposto à delinquência, ao passo que comete crimes de ocasião externa fútil (VIANA, 2018, p. 100). Com o intuito de sistematizar o aprendizado, urge destacar os principais postulados da escola sociológica alemã: 1. O método indutivo-experimental para a criminologia. 2. A distinção entre imputáveis e inimputáveis, com a aplicação de pena para os imputáveis e medida de segurança para os inimputáveis, considerado por eles como “perigosos”. 3. O crime como fenômeno humano-social e como fato jurídico. 4. A função finalística da pena, como prevenção especial. 5. A eliminação ou substituição das penas privativas de liberdade de curta duração (PENTEADO FILHO, 2020, p. 39). Percebe-se que, apesar de se afastar das obras de Lombroso e também da concepção original de Ferri, desenvolvendo a sua teoria, a escola sociológica alemã possui grande importância para a sociologia criminal, sendo indispensável o seu estudo. Escola sociológica alemã: aplicação prática Em primeiro plano, importa destacar que existem diferenças consideráveis entre a escola positivista e a escola sociológica alemã, sendo esta última considerada um desdobramento daquela, com ênfase na sociologia criminal. Nesse diapasão, urge relembrar os principais postulados da escola positiva: a) o direito penal é obra humana; b) a responsabilidade social é resultado do determinismo social; c) o delito é um fenômeno natural e social; d) a pena é um instrumento de defesa social; e) uso do método indutivo- experimental; e f) os objetos de estudo da ciência penal são o crime, o criminoso, a pena e o processo (PENTEADO FILHO, 2020, p. 38). Percebe-se a existência de grandes semelhanças entre a escola positiva e a escola sociológica alemã; por exemplo: o uso do método indutivo-experimental, que revolucionou a criminologia como um todo. Contudo, por ser um desdobramento da escola positiva, apesar da existência de semelhanças entre as duas, reconhecem-se importantes contribuições particulares da moderna escola alemã; por exemplo: a distinção entre imputáveis e inimputáveis, com a aplicação de pena para primeiros e medida de segurança para os segundos, considerados por eles como “perigosos”. Ademais, nos moldes do que já foi destacado, Franz von Liszt, o maior doutrinador da escola sociológica alemã, classifica os crimes em: a) delitos de ocasião, nos quais o agente se submete a impulsos exteriores que dão causa ao crime; e b) delitos crônicos ou por natureza, nos quais o agente é predisposto à delinquência. Nesse contexto, analisaremos os seguintes exemplos: 1. Pedro, maior de idade e capaz, submetido a um forte estresse emocional, entrou em uma briga de trânsito com José. Ocorre que Pedro atacou ferozmente José, levando-o ao hospital e, posteriormente, ao óbito. 2. Cláudio, psicopata já diagnosticado, praticou o crime de homicídio com extrema crueldade. Não satisfeito, ele passou a matar outras pessoas adotando o mesmo padrão, chegando ao total de quinze mortes. 3. Protásio, maior e capaz, se envolveu com o crime desde a adolescência, praticando roubos sequencialmente e com grande crueldade. No primeiro caso, percebe-se a prática de um delito de ocasião, haja vista que, submetido principalmente a impulsos exteriores, Pedro praticou um crime, razão pela qual não é possível imputar-lhe a prática de delitos crônicos, também porque não há a predisposição à delinquência. No segundo exemplo, é possível reconhecer facilmente a prática de delitos por natureza, na medida em que o psicopata é um agente predisposto à violência, não sendo possível, no sistema jurídico brasileiro, considerá-lo inimputável. Por fim, no terceiro exemplo, se considerarmos apenas o enquadramento da moderna escola alemã, é clara a classificação dos crimes de Protásio como delitos crônicos. Não existe nenhum impulso externo constante capaz de possibilitar a prática recorrente dos crimes. Na atualidade da sociologia criminal, é possível lançar mão de outras teorias sociológicas para explicar os crimes de Protásio, contudo, este não é o objeto desta aula. Videoaula: Origem e desenvolvimento da escola sociológica alemã Nesta videoaula, aprofundaremos nosso estudo da origem e do desenvolvimento da escola sociológica alemã, em especial da doutrina de Franz von Liszt, considerado o mais importante estudioso desta escola criminológica. Além disso, abordaremos os principais postulados da escola sociológica alemã, comparando-os com os da escola positiva. Nesse contexto, entenderemos quais são as teorias para a origem do crime e da formação do agente. Saiba mais Para a melhor compreensão sobre o tema, torna-se necessário o acesso a outras fontes de conhecimento. Os links a seguir auxiliarão o aprofundamento do seu estudo: • O artigo Lições de Franz Von Liszt possibilita o aprofundamento na doutrina desse estudioso. • O artigo Ensinar criminologia: entre von Liszt e Baratta possibilita uma comparação entre esses dois teóricos. https://canalcienciascriminais.com.br/licoes-de-franz-von-liszt/ https://www.indexlaw.org/index.php/rdb/article/download/6818/5123 • O artigo Franz von Liszt e a Política Criminal possibilita o aprofundamento na política criminal alemã. • • A origem da sociologia criminal • • Quando se fala em origem da criminologia e no seu desenvolvimento, muitos confundem a concepção da antropologia criminal e a da sociologia criminal. Alguns autores emblemáticos da antropologia criminal, e da criminologia como um todo (porexemplo, Lombroso), estabeleceram concepções e estudos nestas duas áreas. • A antropologia criminal, campo de análise da criminologia que surgiu na escola positiva, estuda o crime com base na personalidade do delinquente ou dos fatores biológicos. Na concepção original de Lombroso, esta análise poderia ser feita com base na investigação fenotípica das pessoas. • A sociologia criminal, por sua vez, é o campo de análise da criminologia que também surgiu na escola positiva e investiga os crimes sob a ótica dos fenômenos exclusivamente sociais, com o uso de métodos empíricos. • A criminologia pré-científica pode ser dividida em algumas etapas: a) antiguidade; b) teólogos; c) filósofos e humanistas; d) penólogos; e) ocultismo; f) frenólogos; g) psiquiatras; e h) médicos e cientistas (PENTEADO FILHO, 2020, p. 29 e 30). • Os princípios fundamentais da escola clássica são: a) o crime é uma figura jurídica, sendo considerado não uma ação, mas sim uma infração; b) a punibilidade do agente deve ser https://sites.usp.br/cienciascriminais/franz-von-liszt-e-a-politica-criminal/ embasada no livre-arbítrio; c) a pena deve ter caráter de retribuição pela culpa moral do delinquente; e d) utilização do método e raciocínio lógico-dedutivo (PENTEADO FILHO, 2020, p. 32). • A escola positiva, por sua vez, possui como principais postulados: a) o direito penal é obra humana; b) a responsabilidade social é resultado do determinismo social; c) o delito é um fenômeno natural e social; d) a pena é um instrumento de defesa social; e) uso do método indutivo-experimental; e f) os objetos de estudo da ciência penal são o crime, o criminoso, a pena e o processo (PENTEADO FILHO, 2020, p. 38). • A escola científica, desconsiderada por muitos doutrinadores, pode ser tratada como um desdobramento da escola positiva, a partir de um aprofundamento os métodos científicos já utilizados nela. • A criminologia crítica aborda os fatores do crime como criminalização, que se explicaria por processos seletivos de construção social do comportamento criminoso e de alguns grupos criminalizados. • Outro grande doutrinador da sociologia que contribuiu para a construção da criminologia foi Émile Durkheim. A sua obra foi centrada na ideia de anomia, defendendo quanto ao crime, dentre outras coisas, que “não há fenómeno que apresente de maneira mais irrefutável todos os sintomas da normalidade, dado que aparece como estreitamente ligado às condições de qualquer vida colectiva” (MACHADO, 2008, p. 104). • Paulo Egídio, muitas vezes sequer citado pelos doutrinadores da criminologia, foi um importante estudioso brasileiro na área, sendo o responsável por fortalecer a sociologia criminal em São Paulo. Ele foi indispensável por, de forma quase inédita no Brasil, apresentar críticas à obra de Émile Durkheim. • Por fim, a escola sociológica alemã foi uma importante escola da criminologia, elevando o pensamento da escola positiva e sendo um desdobramento desta, mais especificamente da sociologia criminal. • • Videoaula: Revisão da unidade • Nesta videoaula, revisaremos a história da sociologia criminal, estabelecendo as principais diferenças e as origens deste campo de análise da criminologia e a antropologia criminal. Estudaremos mais sobre as escolas da criminologia, em especial a escola clássica, a escola positiva e a escola sociológica alemã, também denominada de moderna escola alemã. • • Estudo de caso • • Imagine que você é professor universitário e ministra a aula de criminologia na universidade em que trabalha. Um dos alunos da sua turma o procurou para sanar algumas dúvidas. • Segundo ele, é impossível saber “decorar” e diferenciar tantas escolas da criminologia, razão pela qual não estava conseguindo aprender a matéria. Ao procurar o conteúdo no livro, o aluno se deparou com extensa teoria sobre o assunto, mas não a entendeu muito bem. • Por isso, ele o procurou para saber as principais diferenças entre a escola positiva e a escola clássica, que, segundo ele, são as mais importantes da criminologia. • Além disso, ele perguntou se a sociologia criminal é a mesma coisa que a escola sociológica alemã. • _______ • Reflita • Frente ao exposto, você, enquanto professor universitário, precisa responder: quais são as principais características da escola clássica? Quais são as principais características da escola positiva? Quais são as diferenças entre estas escolas? A sociologia criminal é a mesma coisa que a escola sociológica alemã? • • Videoaula: Resolução do estudo de caso • Na situação em tela, você é professor universitário e ministra a aula de criminologia na universidade em que trabalha. Um dos alunos da sua turma o procurou para sanar algumas dúvidas. • Em primeiro plano, importa destacar que não existiu uma escola clássica propriamente dita, ao passo que ela foi denominada assim pelos positivistas, principalmente por Ferri, pai da sociologia criminal, em tom pejorativo. • Os princípios fundamentais da escola clássica são: a) o crime é uma figura jurídica, sendo considerado não uma ação, mas sim uma infração; b) a punibilidade do agente deve ser embasada no livre-arbítrio; c) a pena deve ter caráter de retribuição pela culpa moral do delinquente; e d) utilização do método e raciocínio lógico-dedutivo. • A escola positiva, por sua vez, foi marcada pela utilização de métodos científicos e empíricos para o estudo do crime. Assim, foi possível se afastar do uso do método e raciocínio lógico- dedutivo, que era comumente utilizado pela escola clássica. • A escola positiva possuiu três fases: a) a antropológica, com Lombroso como principal teórico; b) a sociológica, com Ferri como principal teórico; e c) a jurídica, com Garófalo como principal teórico. Foi com Ferri que se deu a origem da sociologia criminal, na medida em que se passou a lançar mão do método empírico para estudar os fatores sociais ligados à criminalidade. • Assim, é impossível falar que a sociologia criminal é o mesmo que a escola sociológica alemã. • Os principais postulados da escola positiva são: a) o direito penal é obra humana; b) a responsabilidade social é resultado do determinismo social; c) o delito é um fenômeno natural e social; d) a pena é um instrumento de defesa social; e) uso do método indutivo- experimental; e f) os objetos de estudo da ciência penal são o crime, o criminoso, a pena e o processo. • Por fim, a escola sociológica alemã pronunciava-se a favor da investigação sociológica e do uso dos seus conhecimentos para o enfrentamento da criminalidade. Contudo, apesar de utilizar a doutrina de Ferri como referência, a moderna escola alemã elevou o estudo da investigação social da criminalidade, sendo considerada um desdobramento da escola positiva no contexto da sociologia criminal. • Resumo Visual • • • Entender a história da sociologia criminal é um divisor de águas para o estudioso da criminologia. As características desse campo de análise da criminologia surgiram, em grande parte, com a evolução e maturação histórica do estudo do crime. A figura a seguir visa a resumir os principais aspectos da história da sociologia criminal vistos nesta Unidade. • • A antropologia criminal, campo de análise da criminologia, que surgiu na escola positiva, estuda o crime com base na personalidade do delinquente ou dos fatores biológicos. • • A sociologia criminal é o campo de análise da criminologia que investiga os crimes sob a ótica dos fenômenos exclusivamente sociais, com o uso de métodos empíricos. • • A escola clássica usava, majoritariamente, o método lógico-indutivo para analisar o crime. • • A escola positiva, por sua vez, passou a usar o método indutivo-experimental para estudar o crime. • • A escola positiva possuiu três fases: a) a antropológica, com Lombroso como principal teórico; b) a sociológica, com Ferri como principalteórico; e c) a jurídica, com Garófalo como principal teórico. • Resumo visual do conteúdo estudado na Unidade 1. Fonte: elaborada pelo autor. • A escola sociológica alemã surge como um desdobramento da sociologia criminal da escola positiva, na medida em que elevou o estudo sobre as influências sociais na prática criminal. • UNIDADE 2 - Modelos sociológicos de consenso e conflito • Introdução A exclusão social, ou a simples desigualdade entre grupos, é um relevante fator social que explica parte da prática criminal. Esta exclusão gera como consequência o crime, ao passo que a falta de oportunidades para alguns grupos sociais resulta no cometimento de crimes. Da mesma forma, a prática de crimes também resulta, em razão do sistema punitivo vigente, em outro processo de marginalização de grupos sociais, o que também culmina no aumento da criminalidade. Estudar como esse processo de estigmatização pode gerar o aumento da criminalidade e a formação dos grupos criminosos é indispensável para compreender, identificar e diferenciar os modelos sociológicos de consenso e os modelos sociológicos de conflito. Vamos lá? Noções gerais A sociologia criminal é, na atualidade, um dos principais campos de análise da criminologia, haja vista que, por meio dela, pode-se explicar e investigar as causas de um crime, bem como as suas circunstâncias. É cabível reconhecer na doutrina de Enrico Ferri o início da sociologia criminal (ainda que não do pensamento sociológico do crime), ao passo que, em seus estudos, foi possível a aplicação de métodos científicos (empíricos, por exemplo), na interpretação do crime sob a ótica social. Para Ferri, conforme já tratado, a criminalidade se derivava de fenômenos antropológicos, físicos e culturais, não sendo possível considerar o livre-arbítrio como base da imputabilidade (PENTEADO FILHO, 2020, 37 e 38). Ele entendeu que a responsabilidade moral deveria ser substituída pela responsabilidade social e que a razão de punir é a defesa social (PENTEADO FILHO, 2020, 37 e 38). O crime, na atualidade, é consequência e, ao mesmo tempo, causa da exclusão social de determinados grupos. Isto ocorre porque, nos moldes das atuais teorias do consenso e do conflito, ou seja, das teorias macrossociais, é possível reconhecer que a exclusão de grupos sociais gera o inevitável aumento da criminalidade. Da mesma forma, com o cometimento do crime, tratando sob a visão dos atuais sistemas punitivos, em especial o brasileiro, o indivíduo já excluído passa por um segundo processo de exclusão, principalmente quando consideramos as penas privativas de liberdade. Os transgressores, dessa forma, antes e depois da pena, passam a compor verdadeiras organizações sociais paralelas, identificadas comumente como “organizações criminais”. A autora Alba Zaluar, que publicou obras de extrema relevância entre os anos de 1983 e 1990, foi uma das primeiras doutrinadoras a pesquisar e defender a chamada “organização social do crime”, abordando as identidades dos tipos criminosos, as suas organizações, a entrada de mulheres e jovens nas atividades ilegais (sobretudo no tráfico de drogas), as mudanças na “subcultura criminosa” considerando as novas referências ao mundo do trabalho, etc. (SALLA; TEIXEIRA, 2020, p. 153). Zaluar, em um importante balanço bibliográfico sobre crime e violência nas ciências sociais no Brasil, sem se referir de forma explícita ao tráfico de drogas, identificava este crime como expressão do crime organizado que assumia proporções em escala mundial, com estruturas complexas, e mobilizava grandes quantidades de dinheiro (SALLA; TEIXEIRA, 2020, p. 153). A organização social dos grupos criminosos marginalizados gera a consequente formação de inúmeros outros grupos criminosos. Além disso, se considerarmos a “organização social central”, ou seja, a organização social oficial de um Estado, percebe-se claramente que há a exclusão e marginalização de grupos sociais que, inevitavelmente, passarão a cometer crimes. É impossível estudar a prática criminal e a existência das organizações sociais paralelas sem entender e investigar o crime sob a ótica das organizações sociais centrais dos Estados. Interpretação e aprofundamento Conforme já destacado, o crime, na atualidade, é consequência e, ao mesmo tempo, causa da exclusão social de determinados grupos. Se analisarmos friamente as sociedades vigentes, é possível depreender que o processo de exclusão e marginalização de determinados grupos gera como consequência a criminalidade. Da mesma forma, a penalização dos indivíduos que cometem crimes, nos sistemas penais vigentes, é uma forma de acentuar ainda mais a exclusão. Por esse motivo, é possível conceber que estes grupos excluídos passaram a integrar verdadeiras organizações sociais paralelas, também reconhecidas como organizações criminais. Na sociologia criminal brasileira, é preciso destacar que não houve uma preocupação em usar de forma precisa os conceitos como: organização criminosa, crime organizado, organização social do crime, crime negócio (SALLA; TEIXEIRA, 2020, p. 155). Essas expressões são, na prática, comumente utilizadas para se referir ao tráfico de drogas, sobretudo à parte dos grupos e atividades que operam no varejo desse comércio, e, consequentemente, reconfiguram as formas de vida e sociabilidades no espaço urbano (SALLA; TEIXEIRA, 2020, p. 155). Da mesma forma, também se percebe a realização e reconhecimento destas organizações sociais nos sistemas carcerários brasileiros. Contudo, mesmo diante da carência de investigações sob o prisma da formação da organização social, existem fortes teorias que tratam do processo de rotulação e estigmatização dos grupos sociais. Nesse contexto de rotulação e exclusão de determinados grupos, importa citar uma importante teoria macrossocial do consenso: a teoria do etiquetamento ou teoria da rotulação social. A teoria do labelling approach (“abordagem do etiquetamento”, em inglês), também conhecida como teoria do etiquetamento, uma das mais importantes teorias de conflito, surgiu nos anos 1960, nos Estados Unidos, tendo como principais expoentes Erving Goffman e Howard Becker (PENTEADO FILHO, 2020, p. 90). Segundo essa teoria, a criminalidade não é uma qualidade da conduta humana, não é inerente ao ser humano, mas sim a consequência de um processo em que se atribui tal “qualidade”, ou seja, ocorre uma estigmatização social (PENTEADO FILHO, 2020, p. 90). O criminoso, dessa forma, se diferencia do homem comum em razão do estigma que sofre e do rótulo que recebe, isto é, o indivíduo excluído e marginalizado vai, com maior facilidade, participar da prática criminal (PENTEADO FILHO, 2020, p. 90). Por essa razão, o tema central desse enfoque é o processo de interação em que o indivíduo é chamado de criminoso (PENTEADO FILHO, 2020, p. 90). Destaque-se que, em razão do aumento dos processos informacionais e desenvolvimento do meio ambiente digital, temos na atualidade um novo processo de exclusão social, que culmina em um maior cometimento de crimes. A desigualdade tecnológica é, nos dias atuais, um forte vetor do aumento da criminalidade. Isto porque a habilidade tecnológica é uma ferramenta indispensável para o alcance de oportunidades de aquisição de renda. Por isso, o indivíduo sem essa habilidade está passando, cada vez mais, por um processo de exclusão social. Nesses casos, apesar de ser a ultima ratio, o ingresso na criminalidade é encarada por alguns indivíduos como a única fonte possível de sustento. Aplicação prática Nos moldes do que já foi estudado, o crime, na atualidade, é consequência e, ao mesmo tempo, causa da exclusão social de determinados grupos. As organizações sociais da criminalidade surgem como consequência deste processo de estigmatização individual, ao passo que, muitas vezes, a participação nestasorganizações é a única forma de aquisição de renda. Esta exclusão pode acontecer de inúmeras formas (como a digital e a tecnológica), sendo um forte vetor do aumento da desigualdade social e, consequentemente, da maior prática criminal. Nesse sentido, analisaremos os exemplos que seguem: 1. Maria, mulher, capaz e mãe solteira, sem conseguir nenhum emprego, não possui renda para manter a sua vida e a da sua filha pequena. Por essa razão, procurou o grupo organizado para o tráfico de drogas da sua comunidade, com o intuito de conseguir “trabalho”. Foi então que Maria passou a praticar crimes. 2. Na comunidade fictícia denominada Postus da Pátria, há grande miserabilidade. Isto ocorre, pois os poderes estatais, com o apoio de grande parte da população, “isolaram” grupos sociais já excluídos, como forma de “maquiar” a cidade e reduzir a criminalidade. Ocorre que estes grupos isolados da comunidade Postus passaram a cometer crimes de forma organizada em outras localidades. 3. Fábio, programador, passou a praticar crimes on-line. Ocorre, que, após cometer um descuido, Fábio foi “pego em flagrante”, sendo preso logo depois. No sistema penitenciário, Fábio passou a integrar um grupo criminoso, com medo das ameaças que estava sofrendo de membros de outros grupos. No primeiro exemplo, fica claro o processo de marginalização de determinados indivíduos, que, por não conseguirem, de nenhuma forma, trabalho para se manterem, passam a participar ativamente da prática criminosa. Maria, por não conseguir se manter, em razão do processo de marginalização sofrido, que a repeliu do sistema social central, passou a integrar uma organização social paralela, isto é, uma organização criminosa. Da mesma forma, percebe-se que, nos moldes do segundo exemplo, a exclusão de grupos sociais pode causar um efeito drástico para a sociedade, isto é, o aumento da criminalidade. Estes grupos excluídos passam a compor ou formam organizações sociais paralelas, comumente denominadas de organizações criminais. Ademais, percebe-se facilmente a comprovação da chamada teoria do labelling approach, ou teoria do etiquetamento, na medida em que o grupo rotulado e marginalizado passou, em razão da falta de oportunidades, a cometer mais crimes. Por fim, percebe-se, no terceiro exemplo, outro processo de composição de uma organização social paralela (organização criminal). Fábio, que já cometia crimes, em razão da pena imposta pelo sistema jurídico-penal vigente, foi obrigado a participar de uma organização criminosa. No sistema penitenciário brasileiro, é possível reconhecer a existência de inúmeras organizações sociais paralelas, cada uma com estruturação própria, normas particulares e lideranças próprias. Videoaula: Crime, sistema punitivo vigente e organização social Nesta videoaula, trataremos mais da relação entre o crime, o sistema punitivo vigente e a organização social como principal causadora do aumento da prática criminal. Entenderemos como o processo de rotulação social, de estigmatização e de exclusão de alguns grupos sociais pode resultar no aumento da criminalidade. Por fim, estudaremos como a desigualdade social e tecnológica podem ser considerados fatores da criminalidade. Saiba mais Para a melhor compreensão sobre o tema, torna-se necessário o acesso a outras fontes de conhecimento. Os links a seguir auxiliarão o aprofundamento do seu estudo: • O artigo O crime organizado entre a criminologia e a sociologia possibilita o aprofundamento no tema da formação dos grupos criminosos. • O artigo Controle social estatal e organização do crime em São Paulo possibilita o aprofundamento no tema da formação da organização criminal em São Paulo. • O artigo Teoria da rotulação: O aumento da criminalidade e a não ressocialização dos apenados à luz da teoria do Labelling Approach possibilita o aprofundamento no tema teoria da rotulação. https://www.scielo.br/j/ts/a/K7HHBqvBchTkKdwLVjybDwb/?lang=pt&format=pdf https://revistas.ufrj.br/index.php/dilemas/article/view/7246 https://jus.com.br/artigos/82004/teoria-da-rotulacao-o-aumento-da-criminalidade-e-a-nao-ressocializacao-dos-apenados-a-luz-da-teoria-do-labelling-approach https://jus.com.br/artigos/82004/teoria-da-rotulacao-o-aumento-da-criminalidade-e-a-nao-ressocializacao-dos-apenados-a-luz-da-teoria-do-labelling-approach • Introdução • • A rotulação de determinados grupos como criminosos gera uma carga jurídica muito forte, na medida em que estes grupos etiquetados deixam de ter acesso à segurança jurídica em igualdade de condições com outros grupos. • O direito penal do inimigo surge nesse contexto, por pregar o “endurecimento” do sistema punitivo e por desconsiderar os direitos e garantias individuais no processo de criminalização do “inimigo” do Estado. • Estudar como esse processo de estigmatização pode gerar o aumento da criminalidade e a formação dos grupos criminosos, e como a mídia é um relevante vetor para a construção da estereotipação do criminoso, é indispensável para compreender, identificar e diferenciar os modelos sociológicos de consenso e os modelos sociológicos de conflito. • Vamos lá? Noções gerais As sociedades atuais sempre convergem para a construção de um inimigo estatal, que pode ser externo ou interno. A prática criminal resulta em uma construção de uma estereotipação do criminoso, para tentar “rotular” ou “etiquetar” determinados grupos como tal. Importa lembrar que a teoria do labelling approach, também conhecida como teoria do etiquetamento, define que a criminalidade não é uma qualidade da conduta humana, não é inerente ao ser humano, mas sim a consequência de um processo em que se atribui tal “qualidade”; ou seja, ocorre uma estigmatização social (PENTEADO FILHO, 2020, p. 90). Assim, um indivíduo ou grupo criminal estigmatizado passará a ter que cometer crimes. Nesse contexto, urge destacar o direito penal do inimigo, que, conforme a doutrina de Gunther Jakobs (considerado o seu criador), se preocupa com a preservação do Estado e propõe tratamento gravoso aos criminosos que violam bens jurídicos mais importantes, como a vida, a liberdade e a dignidade sexual (PENTEADO FILHO, 2020, p. 122). Contudo, da mesma forma que se prega um aumento da punibilidade de alguns grupos, o direito penal do inimigo gera como consequência a criação de um “padrão de criminoso” e a rotulação de determinados grupos como criminosos. Destaque-se que, com viés extremamente punitivo e sem observância das garantias processuais, o direito penal do inimigo almeja punir aquele que viola as expectativas sociais e põe em risco toda a coletividade (GONZAGA, 2018, p. 121 e 122). Contudo, nem sempre esse “inimigo” criado é realmente a pessoa que comete crime ou, em situações de igualdade de condições sociais, cometeria crimes. No direito penal do inimigo, o “inimigo” é aquele que não respeita o Estado de Direito, praticando condutas criminosas que ameaçam todos os direitos sociais (GONZAGA, 2018, p. 121 e 122). Esse inimigo, por desrespeitar as leis e a constituição social, não deve ser tratado de forma igual às “outras pessoas”, que não atingem os bens citados. Todavia, este processo de estigmatização extrema pode causar um efeito rebote. A marginalização de determinados grupos, com as consequentes rotulações dos seus indivíduos como “criminosos”, cria verdadeiros ordenamentos jurídicos paralelos e organizações sociais autônomas, reconhecidas por muitos como organizações criminosas. Essas organizações criminosas criam códigos e normas próprios, ou seja, sistemas jurídicos autônomos, paralelos ao vigente (o estatal). Isso resulta no aumento da criminalidade, ao passo que, no próprio seio da organização paralela criada, existe a prática constante de crimes violentos. É relevante realçar, por fim, que essa rotulação criminal se dá, principalmente, pela forte cultura de padronização social,sendo a população de classes menos abastadas preconcebidas como originárias do crime e da violência, ideia defendida por muitos no momento de propor ações para a redução da violência. Interpretação e aprofundamento Na sociedade brasileira, existe uma visão padronizada das características de um delinquente, mesmo que sem consciência ou sem um completo conhecimento sobre a criminalidade do país. Assim, pode-se falar de uma indução dessa ideia por alguém sem total entendimento sobre o assunto, o que gera um pensamento preconceituoso e sem fundamento. As características de um transgressor, para a sociedade brasileira dominante, se resumem a uma determinada classe, de uma determinada etnia, de uma determinada localidade e, principalmente, de um determinado gênero; em geral, o criminoso é estereotipado como homem, negro, morador de favela e pobre. Sobre isso, Darcy Ribeiro (1995) afirma que “apesar da associação da pobreza com a negritude, as diferenças profundas que separam e opõem os brasileiros em extratos flagrantemente contrastantes são os de natureza social” (RIBEIRO, 1995). Isso evidencia que, além dos tantos preconceitos sociais existentes, o prejulgamento social é um dos que mais segrega. Segundo Lemert, de uma pessoa estereotipada como transgressora só se espera a transgressão, reduzindo assim as chances de este indivíduo agir contra este rótulo e criando uma predisposição ao desvio, formado, muitas vezes, por carreiras criminosas (LEMERT, 1951). Segundo esse pensamento, a estereotipação criminal pode ser de grande prejuízo ao bom convívio social, pois forma uma parcela da sociedade propensa à transgressão. Segundo Budó (2008), junto ao sistema penal, os meios de comunicação de massa exercem um importante papel de controle social. De acordo com ela, existe uma relação entre o punitivismo penal e a espetacularização da mídia, fazendo com que as opiniões dos meios comunicativos sejam de extrema importância para o direito penal (BUDÓ, 2008). Ademais, pode-se falar que a mídia é forte influenciadora de pensamentos, razão pela qual deve existir grande responsabilidade por parte dos integrantes do “quarto poder”. Com isso, se as mídias sociais utilizarem conceitos infundados, podem se tornar grandes malfeitoras sociais, pois podem incutir na sua audiência ideologias tendenciosas, como a rotulação de certos indivíduos como criminosos. Nesse contexto, destaque-se que a realidade social surge da interação entre os membros de uma comunidade, sendo os atos desviantes só concebidos como errados se a sociedade assim entender. Desse modo, a população tende a julgar os atos transgressores, assim como rotular os indivíduos que praticam essas ações. Existe também o fato de que, mesmo com tantos meios repressores, o sistema penal não possui competência para agir contra todos os casos, dando preferência aos de indivíduos estereotipados. Com isso, gera-se um sistema carcerário com predominância de uma classe social específica (BUDÓ, 2008). A mídia, ao mesmo tempo que é forte influenciadora de pensamentos, é uma construção social, razão pela qual os valores dominantes, em geral, podem ser divulgados e incorporados por ela. Assim, se existe uma padronização da estereotipação (rotulação) do criminoso, a mídia incorpora esse padrão em seus canais de divulgação, o que aumenta ainda mais a concepção da existência de um grupo rotulado como criminoso e, consequentemente, o aumento da criminalidade. Aplicação prática Nos moldes do que já foi destacado, o direito penal do inimigo se preocupa com a preservação do Estado e propõe tratamento gravoso aos criminosos que violam bens jurídicos mais importantes, como a vida, liberdade, dignidade sexual. Contudo, esta mesma teoria cria uma “padronização” da figura do inimigo estatal, o que resulta em um processo de rotulação em massa, imputando a determinados grupos de indivíduos a “etiqueta” de criminosos. Para uma noção mais precisa da visão de Jakobs, criador do direito penal do inimigo, devemos imaginar o caso do terrorista que não respeita os direitos de outra nação e que mata, ou tenta matar, milhares de inocentes. Considerando a referida teoria, não há como aplicar as normas jurídico-penais vigentes de um Estado, ao passo que o “inimigo” deverá ser tratado de maneira mais dura, sem a consideração dos seus direitos e garantias fundamentais. Contudo, em alguns Estados, como no Brasil, por exemplo, o “inimigo” é estigmatizado de forma errada, o que causa um efeito rebote ao pretendido, ou seja, o aumento da criminalidade, em especial crimes com alto grau de crueldade. Os Estados Unidos da América, por exemplo, aplicam claramente a ideia de direito penal do inimigo para os terroristas que ameaçam diariamente a paz social dos seus cidadãos (GONZAGA, 2018, p. 121 e 122). Lá foi cunhado o chamado Ato Patriótico, que permite, dentre outras coisas, a interceptação de e- mail e telefones sem nenhuma autorização judicial, bastando que haja indícios de que o indivíduo esteja conspirando para fazer algum ataque àquele país (GONZAGA, 2018, p. 121 e 122), em evidente desrespeito aos direitos fundamentais. Quando levamos em conta a realidade brasileira, percebe-se que há, extraoficialmente, a aplicação do direito penal do inimigo nos atos policiais e nos aclames de parte da sociedade vigente. O indivíduo estereotipado, rotulado ou etiquetado como criminoso, no Brasil, é majoritariamente o homem, negro, morador de favela e pobre. Assim, práticas policiais mais duras e abusivas comumente atingem esse padrão de indivíduo, mesmo que a pessoa nunca tenha cometido um crime. A criminalidade surge como consequência do processo de estigmatização destes grupos; esse processo conta, muitas vezes, com o apoio da mídia, em especial dos denominados “programas policiais”. Para a compreensão do tema, imagine o seguinte exemplo: • Pedro, negro, morador de favela e pobre, nunca cometeu um crime, mas foi preso por suspeita de tráfico de drogas. Os programas policiais da sua cidade retrataram a prisão de Pedro de forma midiática e chamativa, de modo a constranger o suposto criminoso. Ocorre que, tempos depois, Pedro foi completamente inocentado e solto, ao passo que não existia nenhum indício do cometimento do crime. Percebe-se que a mídia atuou como vetor de estigmatização social, com o desenvolvimento de um “padrão” de inimigo do Estado já criado há tempos. Videoaula: Direito penal do inimigo como definidor dos grupos criminosos Nesta videoaula, abordaremos mais sobre o direito penal do inimigo como definidor dos grupos criminosos, com a construção de um padrão criminal estereotipado. Além disso, entenderemos a influência da mídia na construção da criminalidade, em especial no fortalecimento do “padrão” de criminoso criado pelas sociedades. Por fim, trataremos da construção de verdadeiros grupos criminosos com normas “paralelas”, que criam sistemas jurídicos autônomos. Saiba mais Para a melhor compreensão sobre o tema, torna-se necessário o acesso a outras fontes de conhecimento. Os materiais sugeridos a seguir auxiliarão o aprofundamento do seu estudo: • O artigo Brasil decide futuro com base no Direito Penal do Inimigo possibilita o aprofundamento no tema direito penal do inimigo. • O artigo O pluralismo jurídico sob a ótica da justiça restaurativa possibilita o aprofundamento no tema criminalidade e pluralismo jurídico. • O artigo O papel da mídia na construção estereotipada da figura do “criminoso” no Brasil possibilita o aprofundamento no tema influência da mídia na estereotipação do criminoso. https://www.conjur.com.br/2015-jan-05/brasil-decide-futuro-base-direito-penal-inimigo https://online.unisc.br/acadnet/anais/index.php/snpp/article/download/16954/4165 https://canalcienciascriminais.jusbrasil.com.br/artigos/297545792/o-papel-da-midia-na-construcao-estereotipada-da-figura-do-criminoso-no-brasilhttps://canalcienciascriminais.jusbrasil.com.br/artigos/297545792/o-papel-da-midia-na-construcao-estereotipada-da-figura-do-criminoso-no-brasil • Introdução • • A sociologia criminal moderna passou a adotar uma visão bipartida do estudo do crime, analisando-o sob a ótica das teorias macrossociológicas, mais especificamente sob enfoques de consenso ou de conflito. • Estudar o crime na perspectiva do consenso social existente é indispensável para a total compreensão da sociologia criminal. • Por esta razão, investigaremos nesta aula a origem das teorias do consenso, seus principais aspectos, bem como os papéis da vítima, dos criminosos, do Estado e da sociedade nas concepções destas teorias. • Este exame é indispensável para compreender, identificar e diferenciar os modelos sociológicos de consenso e os modelos sociológicos de conflito. • Vamos lá? Noções gerais Entender a origem e as características das atuais classificações das teorias da sociologia criminal é indispensável para a compreensão do referido campo de análise da criminologia. Nesse diapasão, pode-se mencionar a existência de duas classificações doutrinárias: as teorias do consenso e as do conflito. Conforme já destacado, é possível reconhecer na doutrina de Enrico Ferri o início da sociologia criminal, ainda que não se trate aqui do início do pensamento sociológico do crime (existiram importantes contribuições sobre o tema no período pré-científico). Nos estudos de Ferri, contudo, que se situam na chamada escola positiva, a sociologia criminal surge como um estudo científico e sistematizado da interpretação do crime sob a ótica social, com a aplicação de métodos científicos, por exemplo, os empíricos. Para Ferri, conforme já tratado, a criminalidade derivava de fenômenos antropológicos, físicos e culturais; não seria possível considerar o livre-arbítrio como base da imputabilidade (PENTEADO FILHO, 2020, 37 e 38). Ele entendeu que a responsabilidade moral deveria ser substituída pela responsabilidade social e que a razão de punir é a defesa social (PENTEADO FILHO, 2020, p. 37 e 38). Todavia, apesar da relevante contribuição, a investigação do crime sob a ótica da sociedade ainda era muito incipiente. Por exemplo, Ferri explicava o delito não só a partir de uma visão sociológica, mas também por meio de uma análise antropológica. Na verdade, a sociologia criminal como um todo, em seu início e postulados, confundiu-se com certos preceitos da antropologia criminal, na medida em que buscava a origem delituosa nos fatores biológicos, em certas anomalias cranianas e na “disjunção” evolutiva (PENTEADO FILHO, 2020, p. 78). Assim como Ferri, o próprio Lombroso, o seu orientador, no fim de seus dias, formulou o pensamento no sentido de que não só o crime surgia das degenerações, mas também certas transformações sociais afetavam os indivíduos, desajustando-os (PENTEADO FILHO, 2020, p. 78). Percebe-se claramente que a sociologia criminal, em sua origem, possuía base antropológica muito forte, fato que foi se desconstruindo ao longo do tempo. Na atualidade, os estudiosos da sociologia criminal tentam explicar o crime, majoritariamente, sob a ótica das relações sociais. A moderna sociologia, afastando-se da forte influência dos critérios antropológicos (especialmente os biológicos), passou a adotar uma divisão bipartida da investigação do crime, analisando as chamadas teorias macrossociológicas, sob enfoques de consenso ou de conflito (PENTEADO FILHO, 2020, p. 78). No que tange à origem das teorias de consenso, merece realce que esta forma de pensar a sociologia criminal foi concebida na chamada escola de Chicago. A chamada “primeira escola de Chicago” vigorou nos anos de 1920 e 1930 e trouxe contribuições importantes à criminologia, destacando-se as teorias da ecologia humana, de Robert Park, e das zonas concêntricas, de Ernest Burgess (MACHADO, 2008, p. 129). Dessa forma, o surgimento da escola de Chicago estabeleceu uma nova forma de pensar a sociologia criminal, a partir de teorias de consenso. Interpretação e aprofundamento Como se viu, a moderna sociologia passou a adotar uma divisão bipartida da investigação do crime, analisando as chamadas teorias macrossociológicas, sob enfoques de consenso ou de conflito. A denominação “consenso” foi escolhida porque denota uma convergência de vontades, como um pensamento sistematizado, de forma que todas as pessoas, ou pelo menos a maior parte, pregam o mesmo pensamento. Por essa razão, há uma interação social entre todos os seus componentes, mas sem o poder estatal para usar aa força e impor o seu modo de pensar (GONZAGA, 2018, p. 148 e 149). Dessa interação “natural” e não imposta, surgem modelos próprios de pensamento, todos eles baseados no consenso entre os seus integrantes (GONZAGA, 2018, p. 148 e 149). Por exemplo, existe a subcultura delinquente, na qual os associados de uma organização criminosa pugnam pelos mesmos valores entre si, apesar de destoantes daquilo que se prega na cultura tradicional (GONZAGA, 2018, p. 148 e 149). Contudo, não existe a imposição da força estatal, nem divergência de pensamentos entre os seus integrantes, mas a simples organização social ordinária que culmina ou não na prática criminal. Enquanto as teorias do conflito poderiam explicar as organizações criminosas como o resultado dos conflitos e exclusão de grupos sociais, as teorias do consenso se preocupam em estudar os aspectos sociais sob a ótica da “naturalidade”. Considerando a perspectiva macrossociológica da moderna sociologia criminal, as teorias criminológicas contemporâneas não se limitam à análise do delito segundo uma visão do indivíduo ou de pequenos grupos, mas sim da sociedade como um todo (PENTEADO FILHO, 2020, p. 78). Quando consideramos esta perspectiva macrossociológica, conclui-se que o pensamento criminológico moderno é influenciado por duas visões: a) uma de cunho funcionalista, denominada teoria de integração, mais conhecida por teorias de consenso; e b) uma de cunho argumentativo, chamada de teorias de conflito (PENTEADO FILHO, 2020, p. 78). São exemplos das teorias de consenso, conforme será estudado nas nossas próximas aulas, a escola de Chicago, a teoria de associação diferencial, a teoria da anomia e a teoria da subcultura delinquente (PENTEADO FILHO, 2020, p. 78 e 79). As teorias de consenso concebem que os objetivos da sociedade são atingidos quando há o funcionamento perfeito de suas instituições, com os indivíduos convivendo e compartilhando as metas sociais comuns, em concordância com as regras de convívio (PENTEADO FILHO, 2020, p. 79). Exatamente por isso se fala em “naturalidade” das organizações sociais, ao passo que as teorias do consenso estudam o crime sob a ótica do funcionamento perfeito de suas instituições; o crime seria um resultado destas relações. Os sistemas sociais dependerão, inevitavelmente, da voluntariedade de pessoas e instituições, que dividirão os mesmos valores. As teorias do consenso partem do seguinte postulado: toda sociedade é composta de elementos perenes, integrados, funcionais, estáveis, que se baseiam no consenso entre seus integrantes (PENTEADO FILHO, 2020, p. 79). Aplicação prática Nos moldes do que já foi visto, quando consideramos a perspectiva macrossociológica da moderna sociologia criminal, o pensamento criminológico pode ser concebido por duas visões: a) uma de cunho funcionalista, denominada teoria de integração, mais conhecida por teorias de consenso; e b) uma de cunho argumentativo, chamada de teorias de conflito. As teorias do consenso possuem os seguintes postulados: 1. Elementos perenes, ou seja, os indivíduos de uma sociedade cumprem seus papéis sociais, de forma praticamente estática, sem muita mutabilidade. 2. Elementos integrados, ou seja, os indivíduos com interesses comuns se unem em grupos sociais com a mesmavontade e os mesmos pensamentos. 3. Elementos funcionais, ou seja, cada um dos indivíduos cumprirá a sua “função social”. Por exemplo, os grupos criminosos praticarão, inevitavelmente, crimes. 4. Elementos estáveis, característica que se assemelha muito à perenidade social. Todos os indivíduos cumprirão sua função de forma estável. 5. Consenso entre os seus integrantes, com a união de interesses, esforços e ideais. No que tange às referidas características, imagine o seguinte exemplo: • Em uma sociedade, determinado grupo social, nunca integrado ao núcleo central (dominante), se uniu para, de forma organizada, praticar crimes, em especial o tráfico de drogas. Este grupo desempenha o referido papel há mais de cinquenta anos, tendo se organizado de tal forma que todos os indivíduos do grupo passaram a partilhar dos mesmos ideais. Se analisássemos o citado exemplo a partir das teorias do conflito, seria possível conceber que há um evidente conflito social, com a estigmatização e rotulação de determinado grupo social, o que ocasiona uma desigualdade social patente e, consequentemente, culmina na prática criminal por parte dos grupos marginalizados. Contudo, estudando o caso sob a ótica das teorias do consenso, é possível reconhecer todos os elementos supracitados. 1. Elementos perenes: como o grupo foi marginalizado, os seus integrantes se congregam de forma quase estática; a referida organização social, da mesma forma que os grupos excludentes, cumpre os seus papéis de forma permanente. 2. Elementos integrados: os indivíduos da organização social paralela passaram a se sentir pertencentes a um sistema próprio, com interesses comuns. 3. Elementos funcionais: os grupos sociais, em especial a organização social paralela, cumprem as suas funções dentro das sociedades. 4. Elementos estáveis: a organização social paralela cumpre o papel da prática criminal há mais de cinquenta anos. 5. Consenso entre os seus integrantes: os indivíduos passaram a atuar de forma conjunta e com interesses convergentes. Videoaula: Origem das teorias do consenso Nesta videoaula, abordaremos mais sobre a origem das teorias do consenso, especificamente sobre a escola de Chicago, que inaugurou esta forma de pensar e estudar o crime. Do mesmo modo, entenderemos mais sobre as características das teorias do consenso, com ênfase nos papéis da vítima, do criminoso, do Estado e da sociedade. Saiba mais Para a melhor compreensão sobre o tema, torna-se necessário o acesso a outras fontes de conhecimento. Os materiais sugeridos a seguir auxiliarão o aprofundamento do seu estudo: • O artigo Criminologia: Teorias do Consenso e Conflito possibilita o aprofundamento nas diferenças entre as teorias do conflito e as do consenso. • O artigo Teorias Macrossociológicas da Criminalidade possibilita o aprofundamento nas teorias macrossociológicas da sociologia criminal moderna. • O artigo Escola de Chicago - Contexto histórico - Pesquisas centradas no meio urbano possibilita o aprofundamento no tema escola de Chicago. • • Introdução • https://danalbuquerq.jusbrasil.com.br/artigos/601059200/criminologia-teorias-do-consenso-e-conflito https://periodicos.uff.br/confluencias/article/download/34572/19976 https://educacao.uol.com.br/disciplinas/sociologia/escola-de-chicago---contexto-historico-pesquisas-centradas-no-meio-urbano.htm https://educacao.uol.com.br/disciplinas/sociologia/escola-de-chicago---contexto-historico-pesquisas-centradas-no-meio-urbano.htm • Diferentemente das teorias do consenso, as teorias do conflito pregam, se as considerarmos como corrente de pensamento uno, que os conflitos existentes em uma sociedade são definidores do aumento ou diminuição da criminalidade. Assim, o crime é examinado sob a ótica dos conflitos sociais, tais como, lutas de classes e conflitos ideológicos. • Por esta razão, investigaremos nesta aula a origem das teorias do conflito, seus principais aspectos, bem como os papéis da vítima, dos criminosos, do Estado e da sociedade nas concepções destas teorias. • Este exame é indispensável para compreender, identificar e diferenciar os modelos sociológicos de consenso e os modelos sociológicos de conflito. • Vamos lá? • • Noções gerais • • • Nos moldes do que já foi mencionado, a sociologia criminal, em sua origem, possuía base antropológica muito forte, característica desconstruída ao longo do tempo. Na moderna sociologia criminal, os estudiosos tentam explicar o crime, majoritariamente, sob a ótica das relações sociais. • Afastando-se da forte influência dos critérios antropológicos citados, especialmente os biológicos, a moderna sociologia criminal passou a adotar uma divisão bipartida da investigação do crime, analisando as chamadas teorias macrossociológicas, sob enfoques de consenso ou de conflito (PENTEADO FILHO, 2020, p. 78). • Levando em conta esta perspectiva macrossociológica, as teorias criminológicas contemporâneas não se limitam à análise do delito segundo uma visão do indivíduo ou de pequenos grupos, mas sim da sociedade como um todo (PENTEADO FILHO, 2020, p. 78). • Ora, se existe a análise do conflito ou do consenso existente entre os diferentes grupos sociais, seria impossível investigar a prática criminal sem considerar a sociedade como um todo, ao passo que o delito é uma construção social. • Ainda considerando esta característica macrossociológica, conclui-se que o pensamento criminológico moderno é influenciado por duas visões: a) uma de cunho funcionalista, denominada teoria de integração ou teoria de consenso; e b) uma de cunho argumentativo, chamada de teoria de conflito (PENTEADO FILHO, 2020, p. 78). • Destaque-se que as teorias de conflito surgem no campo da sociologia criminal depois do advento da escola positiva, ao passo em que este “conflito” existente precisa ser examinado por meio de métodos científicos bem estruturados, em especial os métodos empíricos. • Contudo, a existência de conflitos sociais e a relação destes com a maior ou menor prática delitiva é anterior à escola positiva, na medida em que já era possível perceber na escola clássica a existência de doutrinadores que estudavam o crime sob a perspectiva do conflito. • É possível imputar a Karl Marx o marco inicial do estudo dos impactos dos conflitos sociais na prática criminosa. O autor se delimita a explicar a ocorrência do crime na sociedade capitalista, defendendo que haverá redução sistemática do crime ou, mesmo, seu desaparecimento depois de instaurado o socialismo com a subsequente redução ou eliminação da desigualdade na distribuição da riqueza e consolidação da estabilidade econômica (MACHADO, 2008, p. 99). • A partir da análise de Marx, que já apresentava um teor sociológico, mas não empírico, para explicar a ocorrência do crime, outros doutrinadores passaram a defender conceitos semelhantes para investigar as circunstâncias do crime. • Apesar de não ser possível colocar nele a carga da criação das teorias do conflito sob a ótica da macrossociologia da moderna sociologia criminal, os estudos de Marx foram desenvolvidos e se transformaram em uma das teorias do conflito: a teoria crítica ou radical. • A origem histórica dessa teoria de conflito se encontra no início do século XX, com o trabalho do holandês Bonger, que, inspirado pelo marxismo, entende ser o capitalismo a base da criminalidade, ao passo que este sistema promove o egoísmo, característica que, por sua vez, leva os homens a delinquir (PENTEADO FILHO, 2020, p. 92 e 93). • • Interpretação e aprofundamento • • Nos moldes do que já foi discutido, o pensamento criminológico moderno é influenciado por duas visões: a) uma de cunho funcionalista, mais conhecida por teoria de consenso; e b) uma de cunho argumentativo, chamada de teoria de conflito. Todo o pensamento criminológico moderno é influenciado por estes dois grandes gruposde exame. • Diferentemente das teorias do consenso, que pregam a existência de relações sociais “naturais”, nas quais todos os grupos (e indivíduos) cumprem os seus papéis sociais, as teorias do conflito defendem que a paz e a harmonia social decorrerão sempre da força e da coerção, por meio de uma relação entre dominantes e dominados (GONZAGA, 2018, p. 149). • Não existe, dessa forma, a vontade natural dos diferentes grupos sociais para o alcance da pacificação social, mas esta poderá existir pela imposição ou coerção de uns atores sobre os outros (GONZAGA, 2018, p. 149). • Em consonância com o que foi discutido, já é possível reconhecer a existência de teorias do conflito (não na perspectiva sociológica da moderna sociologia criminal) nos estudos de Karl Marx, nos quais há a defesa de que a luta de classes é o móvel da sociedade moderna, de forma que os personagens se enfrentam, tentando sempre alcançar a imposição do seu modo de pensar (GONZAGA, 2018, p. 149). • Exatamente por isso que se fala em “conflito”, haja vista que existirá nas sociedades, em especial nas capitalistas, a constante batalha entre classes e entre diferentes grupos sociais, em uma ampla tentativa de dominância de ideias. • Os grupos sociais, de modo geral, traçam diferentes argumentações para explicar a possibilidade de alcançar a pacificação social, sendo inconcebível concluir pela existência de qualquer consenso acerca daquilo que seria mais adequado (GONZAGA, 2018, p. 149). • São exemplos de teorias de conflito a labelling approach e a teoria crítica ou radical, que foi originada por meio dos ensinamentos de Karl Marx (PENTEADO FILHO, 2020, p. 79). • De modo geral, são postulados das teorias de conflito: as sociedades são sujeitas a mudanças contínuas, presentes em todos os locais de um Estado, de modo que todo elemento coopera para sua dissolução (PENTEADO FILHO, 2020, p. 79 e 80). • Assim, sempre haveria uma luta de classes ou de ideologias a informar a sociedade moderna, nos mesmos moldes do que foi defendido por Karl Marx, ainda na fase da escola clássica (PENTEADO FILHO, 2020, p. 79 e 80). • Os investigadores da sociologia criminal contemporâneos afastam a ideia de que os conflitos seriam gerados pela luta de classes, defendendo, por sua vez, que a violação da ordem deriva mais da ação de indivíduos, do que de um substrato ideológico e político (PENTEADO FILHO, 2020, p. 79 e 80). • Destaque-se, por fim, que os papéis da vítima, do criminoso, do Estado e da sociedade nas teorias do conflito se inserem dentro do contexto dos conflitos. Muitas vezes, as “vítimas” são antes os grupos que etiquetam os criminosos, tentando dominar um grupo excluído e subjugado. Aplicação prática Em consonância com o que já foi tratado, quando investigamos a perspectiva macrossociológica da moderna sociologia criminal, o pensamento criminológico pode ser concebido por duas visões: a) uma de cunho funcionalista, denominada teoria de integração, mais conhecida por teoria de consenso; e b) uma de cunho argumentativo, chamada de teoria de conflito. São postulados destas teorias de conflito, quando analisadas em conjunto: a. As sociedades são sujeitas a mudança contínua, ao passo que, se existem conflitos entre os diferentes grupos sociais, haverá uma reorganização constante nas relações sociais. b. As mudanças constantes podem ser sentidas em toda a sociedade, não ficando restritas a uma única zona. c. Todo o elemento da sociedade colabora para a dissolução. d. Existência de constantes lutas de classe ou de ideais (políticos, sociais, dentre outros). É importante citar que as lutas de classe foram pensadas inicialmente por Marx, mas os atuais estudiosos da sociologia criminal, mais especificamente das teorias de conflito, se afastam um pouco da ideia de constantes e necessárias lutas de classe. No que tange às referidas características, imagine o seguinte exemplo: • Em uma sociedade, determinado grupo social, nunca integrado ao núcleo central (dominante), se uniu para, de forma organizada, praticar crimes, em especial o tráfico de drogas. Ocorre que este grupo sempre foi marginalizado pelo dominante, na esfera política, social, etc. Ele desempenha o referido papel há mais de cinquenta anos, tendo se organizado de tal forma que todos os indivíduos dele passaram a partilhar dos mesmos ideais. Frise-se que as principais vítimas dos crimes praticados pela organização social paralela são os indivíduos dos grupos dominantes, que possuem mais oportunidades e mais recursos. Se fôssemos analisar este caso tomando como base as teorias do consenso, a exclusão social e a formação da organização criminosa poderiam surgir por meio de um processo natural no qual cada um dos referidos grupos cumprem o seu papel social. Contudo, as teorias de conflito deixam mais claras as complexidades sociais existentes no caso. Existe um evidente conflito vigente entre grupos, ao passo que o grupo central, que impõe os seus ideais perante o grupo subjugado, faz com que os indivíduos deste se unam e passem a cometer crime. Como há um conflito atual, o grupo subjugado escolhe um padrão de vítima em potencial: o indivíduo que é parte do grupo dominante. Assim, os conflitos se intensificam, fazendo que, mesmo anos depois, haja uma alteração na organização social central. O exemplo se assemelha muito ao conceito original de luta de classes de Karl Marx, contudo, a imposição que ocorre no caso não necessariamente é um conflito entre classes. Nas teorias do conflito, o grupo subjugado pode ser dominado por diversos fatores, tais como influência política, dentre outros. Videoaula: Origem das teorias do conflito Nesta videoaula, abordaremos mais sobre a origem das teorias do conflito, adentrando no estudo de Karl Marx, que analisou a luta de classes e sua influência na prática criminosa. Ademais, estudaremos os principais aspectos das teorias do conflito, bem como quais são os papéis da vítima, do criminoso, do Estado e da sociedade nas referidas teorias. Saiba mais Para a melhor compreensão sobre o tema, torna-se necessário o acesso a outras fontes de conhecimento. Os materiais sugeridos a seguir auxiliarão no aprofundamento do seu estudo: • O artigo Criminologia e a influência das teorias do conflito no ordenamento jurídico brasileiro possibilita o aprofundamento no tema das influências das teorias do conflito no Brasil. • O artigo Confira o conceito de “conflito”, de acordo com Giddens e Sutton possibilita o aprofundamento no tema “conflito” nestes dois teóricos. • • Modelos sociológicos de consenso e conflito • • Na atualidade, é possível conceber que o crime é, ao mesmo tempo, consequência das organizações sociais vigentes, e causa do aumento da exclusão social. Isto ocorre porque a marginalização social de determinados grupos resulta no aumento da criminalidade. O delito, https://aberto.univem.edu.br/bitstream/handle/11077/1975/Artigo-%20Isabela%20de%20Oliveira%20%20Nunes.pdf?sequence=1&isAllowed=y https://aberto.univem.edu.br/bitstream/handle/11077/1975/Artigo-%20Isabela%20de%20Oliveira%20%20Nunes.pdf?sequence=1&isAllowed=y http://editoraunesp.com.br/blog/confira-o-conceito-de-conflito-de-acordo-com-giddens-e-sutton por sua vez, leva o indivíduo ao segundo processo de exclusão, causado pela aplicação da pena, em especial a privativa de liberdade. • Nesse contexto, surgem verdadeiras organizações sociais paralelas, também denominadas de organizações criminosas, que se originam pela união dos grupos excluídos, os quais praticarão crimes de forma habitual e constante. • O processo de marginalização pode ser explicado pela chamada teoria da rotulação; segundo ela, a criminalidade não é uma qualidade da conduta humana, não é inerente ao ser humano, mas sim a consequência de um processo em que se atribui tal “qualidade”, ou seja, ocorre uma estigmatizaçãosocial (PENTEADO FILHO, 2020, p. 90). • Considerando o processo de rotulação e, muitas vezes, estigmatização de determinados grupos, com viés extremamente punitivo e sem observância das garantias processuais, o direito penal do inimigo almeja punir aquele que viola as expectativas sociais e põe em risco toda a coletividade (GONZAGA, 2018, p. 121 e 122). • Contudo, este processo de estereotipação de um inimigo do Estado pode ser uma causa de maior exclusão social e, consequentemente, de aumento da criminalidade. Nesse diapasão, a mídia surge como uma ferramenta relevante para a estereotipação do criminoso. • Como consequência da exclusão, é relevante frisar que os indivíduos excluídos formam grupos organizados criminosos; estes possuem normas de conduta próprias, se afastando completamente do sistema jurídico vigente. • A moderna sociologia, afastando-se da forte influência dos critérios antropológicos (especialmente os biológicos), passou a adotar uma divisão bipartida da investigação do crime, analisando as chamadas teorias macrossociológicas, sob enfoques de consenso ou de conflito (PENTEADO FILHO, 2020, p. 78). • No que tange à origem das teorias de consenso, merece realce que esta forma de pensar a sociologia criminal foi concebida na chamada escola de Chicago. Já quando consideramos as teorias do conflito, já era possível reconhecer estudos sobre o conflito social e o crime em Karl Marx. • As teorias de consenso concebem que os objetivos da sociedade são atingidos quando há o funcionamento perfeito de suas instituições, com os indivíduos convivendo e compartilhando as metas sociais comuns, concordando com as regras de convívio (PENTEADO FILHO, 2020, p. 79). • As teorias de conflito, por sua vez, possuem, de modo geral, os seguintes postulados: as sociedades são sujeitas a mudanças contínuas, sendo presentes em todos os locais de um Estado, de modo que todo elemento coopera para sua dissolução (PENTEADO FILHO, 2020, p. 79 e 80). • Nas teorias do consenso, a vítima, o criminoso, o Estado e a sociedade desempenham papéis/funções naturais, inerentes a cada grupo. Já nas teorias do conflito, a investigação do papel daqueles sujeitos dependerá do conflito vigente. Em geral, o criminoso será o integrante do grupo subjugado, enquanto a vítima será o indivíduo do grupo dominante. • • • Videoaula: Revisão da unidade • • Nesta videoaula, revisaremos a investigação da violência e do crime sob a ótica da pesquisa social. Além disso, trataremos mais do conceito de direito penal do inimigo e dos impactos do pluralismo jurídico. Por fim, abordaremos, com maior detalhamento, as teorias de consenso e teorias de conflito, situando-as na moderna sociologia criminal. • • • Estudo de caso • • Imagine que você é professor universitário e ministra a disciplina de criminologia na universidade em que trabalha. Um dos alunos da sua turma o procurou para sanar algumas dúvidas. • Segundo ele, durante os seus estudos, conseguiu perceber uma relação íntima entre a estereotipação do indivíduo no Brasil e a mídia. Ao pesquisar sobre o tema, ele encontrou textos sobre a teoria do labelling approach, mas não entendeu muito bem o assunto. • Por isso, ele lhe procurou para saber no que consiste a referida teoria, bem como para confirmar se existe relação entre a teoria do labelling approach, a mídia e a estereotipação do criminoso. • ______ • Reflita • Frente ao exposto, você, enquanto professor universitário, precisa responder: no que consiste a teoria do labelling approach? Existe relação entre a mídia e a estereotipação do criminoso? A teoria do labelling approach tem relação com esse tema? • • Videoaula: Resolução do estudo de caso • • Na situação em tela, você é professor universitário e ministra a disciplina de criminologia na universidade em que trabalha. Um dos alunos da sua turma o procurou para sanar algumas dúvidas. • Em primeiro plano, a teoria do labelling approach, também conhecida como teoria do etiquetamento, uma das mais importantes teorias de conflito, surgiu nos anos 1960, nos Estados Unidos, tendo como principais expoentes Erving Goffman e Howard Becker. • De acordo com essa teoria, o crime não surge como qualidade da conduta humana, ou seja, não é inerente ao ser humano, mas sim a consequência de um processo em que se atribui tal “qualidade”, ou seja, ocorre uma estigmatização social. • Assim, o “criminoso” etiquetado se diferencia do homem comum em razão do estigma que sofre e do rótulo que recebe, isto é, o indivíduo excluído e marginalizado vai, com maior facilidade, participar da prática criminal. • Na sociedade brasileira, existe uma visão padronizada das características de um delinquente, mesmo sem consciência ou sem que a maioria da população possua um completo conhecimento sobre a criminalidade do Brasil. • As características do transgressor, para a sociedade brasileira dominante, se resumem a uma determinada classe, uma determinada etnia, uma determinada localidade e, principalmente, um determinado gênero, sendo, em geral, o criminoso brasileiro estereotipado como homem, negro, morador de favela e pobre. • A mídia, ao mesmo tempo que é forte influenciadora de pensamentos, contribui para uma construção social, razão pela qual os valores dominantes, em geral, podem ser divulgados e incorporados por ela. • Assim, se existe uma padronização da estereotipação (rotulação) do criminoso, a mídia incorpora esse padrão em seus canais de divulgação, o que aumenta ainda mais a concepção da existência de um grupo rotulado como criminoso e, consequentemente, o aumento da criminalidade. • • Resumo visual • • Entender as diferenças existentes entre as teorias do consenso e as teorias do conflito é indispensável para a total compreensão da sociologia criminal. Isto decorre do fato de que a sociologia criminal moderna se pauta nas mencionadas teorias para estudar o crime. A figura a seguir visa a resumir os principais aspectos da história da sociologia criminal vistos nesta Unidade. • • Exclusão social. Fonte: elaborada pelo autor. • A exclusão social de determinados grupos de uma comunidade resulta em um processo de organização social paralela, ou seja, a formação de organizações criminosas. • • Rotulação. Fonte: elaborada pelo autor. • A teoria da rotulação consiste no estudo do crime sob a ótica do processo de etiquetamento de determinados indivíduos como “criminosos”. • • Penas. Fonte: elaborada pelo autor. • O direito penal do inimigo prega a aplicação de penas mais duras para os reconhecidos como “inimigos” do Estado. • • Mídia. Fonte: elaborada pelo autor. • A mídia é importante, e perigosa, ferramenta de estereotipação do criminoso. • • Organizações criminosas. Fonte: elaborada pelo autor. • A exclusão de determinados grupos etiquetados gera como consequência a origem de organizações sociais paralelas, ou seja, organizações criminosas. • • Organização social natural. Fonte: elaborada pelo autor. • As teorias de consenso pregam que existe uma organização social natural, na qual todos desempenham os seus papéis, inclusive o criminoso. • • Crime. Fonte: elaborada pelo autor. • As teorias de conflito explicam o crime sob a ótica dos conflitos que existem em uma sociedade. • Unidade 3 • Introdução As teorias do consenso visam a explicar a origem do crime a partir de estudos sobre a organização social natural e consensual entre os diferentes atores da sociedade. São exemplos das teorias de consenso: a escola de Chicago, a teoria de associação diferencial, a teoria da anomia e a teoria da subcultura delinquente. É possível identificar que a escola de Chicago deu origem às teorias do consenso, ao passo que todas elas se apresentam como desdobramentos dos estudos desenvolvidos por aquela escola. Por isso, urge fazer uma análiseda escola de Chicago, identificando a sua origem, caracterização como teoria do consenso, seus principais aspectos e seu objeto de investigação. Vamos lá? Escola de Chicago: noções gerais Antes de adentrar no tema escola de Chicago, importa relembrar que a moderna sociologia, que surgiu após o ápice da escola positiva, passou a adotar uma divisão bipartida da investigação do crime, analisando as chamadas teorias macrossociológicas, sob enfoques de consenso ou de conflito. A denominação “consenso” foi escolhida porque denota a uma convergência de vontades no mesmo sentido, como um pensamento sistematizado, de forma que todas as pessoas, ou pelo menos a maior parte, pregam o mesmo pensamento, razão pela qual há uma interação social entre todos os componentes, mas sem o poder estatal para usar a força e impor o seu modo de pensar (GONZAGA, 2018, p. 148 e 149). Dessa interação “natural” e não imposta surgem modelos próprios de pensamento, todos eles baseados no consenso entre os seus integrantes (GONZAGA, 2018, p. 148 e 149). São exemplos das teorias de consenso a Escola de Chicago, a teoria de associação diferencial, a teoria da anomia e a teoria da subcultura delinquente. Com os avanços dos estudos sociológicos, ocorreu uma aproximação crescente entre as elites e a “classe baixa”, sobretudo no contexto de desenvolvimento de uma matriz de pensamento que se denominou “ecologia” criminal ou desorganização social, formada na Universidade de Chicago (PENTEADO FILHO, 2020, p. 80). Surge, nesse contexto, a escola de Chicago. Ela encara o fenômeno do crime com base na “ecologia”, isto é, analisa a arquitetura da cidade como formadora do comportamento delinquente (GONZAGA, 2018, p. 91 e 92). A referida escola estuda o crime a partir de uma interação “natural” e não imposta, consensual, examinando o fator criminológico sob a ótica da organização harmônica da cidade. Por essa razão, é possível facilmente conceber que a escola de Chicago é uma das teorias do consenso, que estudou a estruturação natural da cidade de Chicago, em particular. A obra doutrinária fundamental para que se compreenda a distribuição “ecológica” do crime na cidade de Chicago é Delinquency areas, de Clifford Shaw, datada de 1929 (GONZAGA, 2018, p. 92 e 93). Shaw é, por essa razão, um dos mais relevantes nomes da escola de Chicago. Ele sistematizou, nos seus estudos, os dados oficiais concernentes à delinquência juvenil em Chicago por décadas, na medida em que o seu objetivo inicial era observar os locais urbanos onde nascia a criminalidade ao longo dos anos, com o fito de verificar se existiriam as denominadas áreas criminais, conhecidos vulgarmente como “guetos” (GONZAGA, 2018, p. 92 e 93). Com base nos seus estudos das áreas criminais, formadas com o crescimento desordenado da cidade de Chicago (que se expandiu do centro para a periferia, no movimento denominado de “circular centrífugo”), foi possível observar que inúmeros e graves problemas sociais, econômicos e culturais criaram ambiente favorável à instalação da criminalidade, principalmente considerando a ausência de mecanismos de controle social (GONZAGA, 2018, p. 92 e 93). A escola de Chicago foi um grande marco para explicar como a organização dos “meios ambientes” urbanos (cidades) pode afetar o aumento ou diminuição da criminalidade, ao passo que, por meio dessa teoria, é possível investigar a prática criminal por zonas. Escola de Chicago: interpretação e aprofundamento A escola de Chicago foi indispensável para que se iniciassem os estudos da relação entre as áreas da cidade, desde o centro cívico conceber que a criminologia “ambiental” surge da concepção da escola de Chicago, ao passo que o estudo ambiental se tornou imprescindível para a análise criminológica. Considerando os conceitos da escola de Chicago no aspecto ambiental, percebe-se que o aspecto urbano está intimamente atrelado ao modo como a criminalidade surge nesse espaço. O criminoso escolhe praticar alguns delitos levando em consideração às áreas marginalizadas, para o surgimento da criminalidade. Assim, é possível as condições ambientais, a oportunidade, as condições físicas e financeiras da vítima, o horário e os espaços favoráveis à prática criminal (GONZAGA, 2018, 96 e 97). Para a melhor compreensão da teoria da escola de Chicago, podemos considerar a cidade dividida em três círculos concêntricos, representação baseada na teoria das zonas concêntricas (GONZAGA, 2018, p. 92 e 93). O primeiro desses círculos representa o centro cívico, local onde se situam as construções principais das instituições da cidade, como a prefeitura, a central de polícia, a sede do poder judiciário, dentre outros; razão pela qual há alta taxa de proteção estatal e uma criminalidade “zero” (GONZAGA, 2018, p. 92 e 93). Evidentemente, quando investigamos cidades com altos índices de criminalidade e de desigualdade social, é praticamente impossível identificar uma zona com a inexistência da prática criminal. No Brasil, por exemplo, reconhecemos a existência de crimes nas três zonas teorizadas. O segundo círculo, por sua vez, representa os subúrbios, que, na visão norte-americana, são os locais onde as pessoas que trabalham no centro cívico residem (GONZAGA, 2018, p. 92 e 93). Alguns pequenos crimes são praticados neste segundo círculo, ou seja, temos crimes de menor potencial ofensivo. Os índices de criminalidade nessa zona circular são diferentes de zero; contudo, ainda são ínfimos se considerarmos os números do terceiro círculo (GONZAGA, 2018, p. 92 e 93). Por fim, o último círculo da teoria proposta pela escola de Chicago é constituído pelos chamados “guetos”, conhecidos no Brasil como “periferia” ou “favelas”, região onde é praticamente inexistente a presença do Estado (GONZAGA, 2018, p. 92 e 93). Em razão da ausência de repressão policial, há a proliferação de crimes de diferentes potenciais ofensivos. Da ideia de existência das periferias (guetos) e da falta de preocupação estatal no controle destas regiões, surge a expressão “marginais”, que se refere ao local onde residem as pessoas que estão às margens da “sociedade”, a qual passa ser compreendida como a união entre o centro cívico e os subúrbios (GONZAGA, 2018, p. 94). Em decorrência dessa exclusão social, as pessoas que residem nas periferias passam a agrupar- se entre si, formando um grupo de integrantes que pensam de forma semelhante, mas diferente da cultura dominante existente no centro cívico e nos subúrbios (GONZAGA, 2018, p. 94). Esta forma de pensar é bem explicada pela teoria da associação diferencial, que consiste em outra das teorias do consenso. Por esse motivo, alguns teóricos imputam à escola de Chicago o marco inicial das teorias do consenso, ao passo que os seus desdobramentos geraram outras diferentes teorias. Escola de Chicago: aplicação prática Conforme já destacado, são exemplos das teorias de consenso: a escola de Chicago, a teoria de associação diferencial, a teoria da anomia e a teoria da subcultura delinquente. Dentre estas diferentes teorias, é possível conceber que o marco inicial dos estudos do consenso se deu com o surgimento da escola de Chicago. A escola de Chicago desenvolveu os seus estudos subdividindo a cidade de Chicago em três círculos concêntricos, representação baseada na teoria das zonas concêntricas, uma das suas mais importantes contribuições para a criminologia. A Figura 1 ajuda a melhor visualizar os três círculos mencionados: Figura 1 | Círculos concêntricos. Fonte: Gonzaga, 2018, p. 94. Considerando a principal teoria da escola de Chicago, devemos analisar os exemplos que seguem: • Pedro, morador da comunidade do Passo do Patriota, começou a perceber que praticamente não existia a presença estatal na região onde reside. Ele, por sua vez, trabalha na região central da cidade, na sede da prefeitura, regiãoonde percebe um grande corpo policial e fiscalizatório. A cidade de Pedro é, inclusive, turística, razão pela qual o centro sempre está muito movimentado, mas sem muita ocorrência de crimes. A sua comunidade, por sua vez, está inundada de prática criminosas com diferentes potenciais ofensivos. A observação de Pedro pode ser explicada pela teoria das zonas concêntricas estudada pela escola de Chicago. Isto porque, no caso, são observadas duas dessas zonas: o chamado primeiro círculo ou centro cívico, no qual os índices criminais podem ser considerados zero; bem como o denominado terceiro círculo, correspondente ao conjunto das regiões periféricas. Nesta última região, a presença estatal é praticamente inexistente e, por essa razão e pelos altos índices de desigualdade social, existe intensa prática criminosa. • José, morador da favela Arco Verde, da cidade de Recife/PE, resolveu passar a publicar o dia a dia da sua comunidade. A ideia de José era retirar da região onde mora o estigma de ser um ambiente perigoso, ao passo que, na sua visão, os índices criminais são baixos. José tenta mostrar todo o potencial cultural da favela onde mora, ressaltando o trabalho intelectual de produtores da região e as obras “da rua”. Contudo, José sempre ressalta que inexiste a presença estatal, mas que a comunidade é extremamente organizada pelos próprios moradores. Também em Recife, a prefeitura começou a identificar um aumento exponencial dos índices criminais da região central, mesmo com o aumento do policiamento da região. No caso de José, é possível depreender que a “regra” criada pela escola de Chicago não é absoluta. Apesar de ser um exemplo fictício, os acontecimentos narrados são extremamente comuns. Na prática, é possível perceber cidades nas quais os centros cívicos (primeiros círculos) estão com altos índices criminais, enquanto em algumas regiões periféricas a criminalidade é baixa. A desigualdade social de uma cidade pode modificar completamente a estrutura consensual que explica a criminalidade, razão pela qual estas teorias precisam servir como norte, não como regra absoluta. • • Videoaula: Teorias do consenso • • Nesta videoaula, trataremos mais das chamadas teorias do consenso, que visam a explicar o crime por meio da teoria da organização social consensual. Veremos uma das mencionadas teorias, a escola de Chicago. Identificaremos sua origem, sua caracterização como teoria do consenso e seu objeto de investigação. • Saiba mais Para aprofundarmos os conhecimentos obtidos nesta aula, é fundamental recorrermos a materiais complementares, que nos permitam ter uma visão mais aguçada sobre os temas. Para saber mais, acesse os links a seguir. • O artigo científico O Espaço Urbano: a Abordagem da Escola de Chicago e da Escola Marxista trata da abordagem da cidade escola de Chicago. • O artigo científico A escola de Chicago trata da história e das principais características da escola de Chicago: • O artigo científico O retorno da cidade como objeto de estudo da sociologia do crime trata sobre a cidade como foco de estudo da sociologia criminal. • • Introdução • • A teoria de associação diferencial tem como precursor Edwin Sutherland, que se debruçou sobre os white colar crimes (“crimes de colarinho branco”, como denominados por ele em https://periodicos.ufsm.br/cienciaenatura/article/viewFile/26613/pdf https://periodicos.ufsm.br/cienciaenatura/article/viewFile/26613/pdf https://www.scielo.br/j/mana/a/6FvBPkkRffvcrrkJb77SZBv/?lang=pt https://www.scielo.br/j/soc/a/CyMkW7dsv77w9CTwbCJ6ckm/ https://www.scielo.br/j/soc/a/CyMkW7dsv77w9CTwbCJ6ckm/ inglês). A teoria de associação diferencial estuda como a interação natural e não forçada entre os indivíduos pode gerar a prática criminosa. • Os indivíduos, se deparando com as condições favoráveis à prática delituosa, passam a incorporar os métodos criminosos. A teoria de associação diferencial é uma das mais importantes teorias do consenso. • Por essa razão, estudaremos a origem da teoria de associação diferencial, sua caracterização como teoria do consenso e seu objeto de investigação. Ademais, vamos nos aprofundar nos seus principais aspectos. Esta análise é indispensável para compreender e reconhecer as características das teorias de consenso. • Vamos lá? • Teoria de associação diferencial: noções gerais • • É indispensável frisar, como prólogo da teoria de associação diferencial, que a moderna sociologia se organizou para analisar as chamadas teorias macrossociológicas do crime, com uma divisão bipartida da investigação criminal, originando as chamadas teorias do consenso e as teorias do conflito. • As teorias do consenso estudam o crime sob a ótica da interação “natural” e não imposta entre os indivíduos (GONZAGA, 2018, p. 148 e 149). São exemplos das teorias de consenso a escola de Chicago, a teoria de associação diferencial, a teoria da anomia e a teoria da subcultura delinquente. • A escola de Chicago foi o grande marco dos estudos criminais sob a ótica do consenso, tendo em vista que, a partir do teorizado por ela, foi possível estudar a cidade em uma análise das relações e interações naturais entre indivíduos. As outras teorias do consenso podem ser consideradas espécies de desdobramento dos estudos da referida escola. • Conforme mencionado, uma das teorias do consenso é a chamada teoria de associação diferencial. Ela foi desenvolvida pelo norte-americano Edwin H. Sutherland, e propõe que o comportamento criminoso de indivíduos tem sua gênese pela aprendizagem, com o acesso aos padrões de comportamento favoráveis à violação da lei em sobreposição aos contatos contrários a ela (GONZAGA, 2018, p. 125). • Os criminosos tendem a copiar o comportamento do seu grupo, daqueles com quem convivem ou com os quais estão associados (GONZAGA, 2018, p. 125). Exatamente por isso, em decorrência desta interação natural entre os diferentes grupos sociais, inclusive os criminosos, é possível incluir o mencionado estudo como parte das teorias do consenso. • Essa teoria se baseia no aspecto social como o principal motivador do surgimento do crime, levando a segundo plano os aspectos (fatores) puramente biológicos ou psíquicos (GONZAGA, 2018, p. 125), em especial as doenças da mente. • O que ocorre é que a pura interrelação entre os grupos sociais gera uma associação entre os indivíduos, fazendo com que determinados grupos cometam apenas certos tipos criminais, que terão diferentes potenciais ofensivos com base na prática usual da própria coletividade. Os associados tendem a ter comportamentos coligados e violadores da lei, em contraposição ao cidadão médio, isto é, aquele que cumpre as regras impostas pela sociedade. • A associação diferencial pode ser analisada levando em conta as leis da imitação de Gabriel Tarde, na medida em que este postulava, ao contrário de Cesare Lombroso, que ninguém nasce • criminoso. Isto é, para Tarde, não existe um criminoso nato: a criminalização é uma consequência da socialização incorreta entre indivíduos (GONZAGA, 2018, p. 125). • É relevante destacar que os estudos de Edwin Sutherland, considerado o grande nome da teoria de associação diferencial, tratam de uma análise sociológica da criminalidade, ganhando notoriedade e respeito da comunidade científica por ser bem embasada, o que permitiu, ainda na metade do século XX, a aceleração das pesquisas sobre o crime organizado, especificamente no que dizia respeito ao âmbito empresarial (PENTEADO FILHO, 2020, p. 123). • Foi a partir do estudo de Sutherland que o termo white colar crimes, ou seja, os “crimes de colarinho branco”, começou a ser abordado pela doutrina, ao passo que, por estudar os crimes no contexto empresarial, foi necessário analisar as condutas criminais de pessoas que possuem condições financeiras maiores do que a média populacional. Teoriade associação diferencial: interpretação e aprofundamento Como já discutido, a teoria de associação diferencial pode ser bem explicada pelas três leis da imitação de Gabriel Tarde. São elas (GONZAGA, 2018, p. 125 e 126): • Primeira lei: o indivíduo, em contato com outros, imita-os na proporção direta do contato que mantém com eles. O autor defendia que existem os contatos diferentes e rápidos, que ele chamava de “moda”, que são extremamente comuns nas grandes cidades; e os contatos mais lentos e menores, que ele denomina de costumes, que são comuns no campo. Para Tarde, a imprensa (mídia) exerce papel central nos meios de comunicação e na interação entre as pessoas, potencializando as imitações. • Segunda lei: o inferior imita o superior — os jovens imitam os mais velhos, os pobres imitam os ricos, os camponeses imitam a realeza, etc. Isso gera um modelo de imitação do maior status, com o fito de alcançar, por meio das suas condutas, uma categoria social superior. • Terceira lei: a da inserção — se duas modas divergentes entre si se superpõem, a moda nova sempre substituirá a mais antiga. Analisando as referidas leis sob a ótica criminosa, é importante tecer alguns comentários. No que tange à primeira lei, o contato direto entre os indivíduos de um mesmo grupo social gera a imitação. Isto quer dizer que, se uma parte deste grupo comete crimes, os demais, por moda ou costume, passarão a imitar as ações dos criminosos, passando a cometer os mesmos crimes. Quando levamos em conta a segundo lei, por exemplo, em um grupo criminoso, se os indivíduos hierarquicamente superiores passarem a cometer determinados tipos de crime, os demais, querendo ascender, passarão a fazer o mesmo. Por fim, nos grupos criminosos, se houver um aumento dos crimes de maior potencial ofensivo, os demais passarão a seguir essa nova moda, que substituirá as regras anteriormente impostas. De acordo com a teoria de associação diferencial, o comportamento do criminoso é aprendido, nunca herdado, criado ou desenvolvido diretamente pelo sujeito ativo. Sutherland não propõe a associação entre criminosos e não criminosos, mas sim entre definições favoráveis ou desfavoráveis ao delito (PENTEADO FILHO, 2020, p. 84). Se uma determinada classe social passar a cometer determinados crimes, os demais membros, por moda ou costume, passarão a estar submetidos às condições mais favoráveis à prática criminosa. A associação diferencial é um processo de aprendizagem de comportamentos desviantes, que dependem do conhecimento e da habilidade para a prática criminosa, transmitidos pela interação (PENTEADO FILHO, 2020, p. 84). Os meios para o crime são aprendidos e promovidos por gangues urbanas, grupos empresariais, grupos de associação para o tráfico de drogas, todos com delitos particulares que são passados pela simples interação entre pessoas (PENTEADO FILHO, 2020, p. 84). A prática criminal, dessa forma, surge da interação natural e consensual entre indivíduos, que passam a incorporar as condições favoráveis para o cometimento do crime com base no contato social. Teoria de associação diferencial: aplicação prática Nos moldes do que foi exposto, a teoria de associação diferencial é uma das teorias do consenso que estuda como o contato entre pessoas dos diferentes grupos pode resultar no cometimento de crimes específicos. Destaque-se que esta interação gera condições favoráveis para a prática de delitos. Diante do que foi dito, devemos analisar os exemplos que seguem: • Mário começou a trabalhar em uma grande corretora que atua com a bolsa de valores. Ocorre que, após progredir ao máximo na empresa em que laborava, Mário decidiu montar a sua própria corretora, trabalhando apenas com pessoas jurídicas (empresas) como clientes. Mário percebeu que as outras empresas do ramo utilizavam os investimentos na bolsa de valores para a prática do crime de lavagem de dinheiro, tendo aprendido todas as formas de tornar legítimo os valores oriundos de outros grupos criminosos. Por ter interagido com as referidas empresas, Mário viu condições favoráveis para fornecer esse tipo de “serviço” ilegal para os seus clientes. A procura para o cometimento da lavagem de dinheiro aumentou significativamente e Mário acumulou um patrimônio invejável. Contudo, por meio de uma investigação da Polícia Federal, Mário foi preso e perdeu todos os valores guardados. O exemplo nos mostra que a associação direta entre grupos sociais, em especial se considerarmos as relações que geram condições favoráveis para a prática criminosa, pode gerar o aumento da conduta delitiva. Mário, que integrava uma classe social abastada, apenas por conhecer as formas de lavar dinheiro, passou a praticar crimes. Se analisarmos as teorias de Gabriel Tarde, Mário passou a praticar o mesmo crime incorporado por moda ou costume. Mário passou a cometer crimes de colarinho branco, os quais foram especialmente estudados por Sutherland, precursor da teoria de associação diferencial. Os crimes de colarinho branco têm, na sociedade, lugar diverso dos crimes violentos, porque os crimes praticados com emprego de violência têm alto poder de comoção social, diferente dos crimes de colarinho branco, os quais, muitas vezes, acabam na posição intitulada como “cifra dourada de criminalidade”, justamente por, muitas vezes, sequer alcançar o conhecimento das autoridades competentes para investigar e coibir esse tipo de prática (PENTEADO FILHO, 2020, p. 124). • Um grupo fora da lei denominado Sindicato Criminoso, até o ano de 2013, apenas cometia crimes de menor potencial ofensivo, ao passo que seguia a doutrina da prática de crimes sem violência. O grupo era gerido por Pedro Manso, que dominou a organização por mais de dez anos. Contudo, a partir daquele ano, João Violento chegou ao comando do Sindicato Criminoso, levando os seus companheiros junto para o poder. João e o grupo dominante passaram a praticar crimes com o emprego de violência, sem ordenar que os outros membros passassem a fazer o mesmo. Contudo, com base nas leis da imitação de Gabriel Tarde, a interação com o grupo dominante passou a gerar um aumento de crimes com maior potencial ofensivo. • • Videoaula: Origem da teoria de associação diferencial • • Nesta videoaula, entenderemos como se deu a origem da teoria de associação diferencial, compreendendo a sua caracterização como teoria do consenso e o seu objeto de investigação. Ademais, aprenderemos os principais aspectos da teoria de associação diferencial, com o aprofundamento na teoria de Sutherland para explicar a prática de crimes de colarinho branco. Saiba mais Para aprofundarmos os conhecimentos obtidos nesta aula, é fundamental recorrermos a materiais complementares, que nos permitam ter uma visão mais aguçada sobre os temas. Para saber mais, acesse os links a seguir. • O artigo científico Revisitando Sutherland e a teoria da associação diferencial a partir dos programas de integridade (compliance): criminologia corporativa trata da teoria de Sutherland. http://www.cpjm.uerj.br/wp-content/uploads/2020/12/Revisitando-Sutheland-e-a-teoria-da-associacao-diferencial.pdf http://www.cpjm.uerj.br/wp-content/uploads/2020/12/Revisitando-Sutheland-e-a-teoria-da-associacao-diferencial.pdf • O artigo científico Uma introdução à teoria da associação diferencial: origens, atualidades, críticas e repercussões no direito penal econômico trata da teoria . • O artigo científico Antes Tarde do que nunca. Gabriel Tarde e a emergência das ciências sociais trata da teoria da imitação de Gabriel Tarde. • • Introdução • • Émile Durkheim se destacou ao estudar, antes da construção da sociologia criminal, aspectos sociológicos que afetam a prática criminosa. Para investigar o crime sob a ótica sociológica, Durkheim se pautava na concepção da anomia. • Apesar disso, foi apenasem 1938, com a publicação de um artigo curto por Robert Merton, sociólogo norte-americano, que se concebeu a teoria da anomia no contexto das teorias sociológicas do consenso. • Debruçar-se sobre a teoria da anomia é de suma relevância para a compreensão e reconhecimento das características das teorias de consenso. • Diante da importância do tema para a compreensão da sociologia criminal, analisaremos a origem da teoria da anomia, seu objeto de investigação e seus principais aspectos. • Vamos lá? • • Teoria da anomia: noções gerais https://dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/5847410.pdf https://dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/5847410.pdf https://www.scielo.br/j/ra/a/jgD3whfDQHgpQpyqWsDmKFF/?lang=pt https://www.scielo.br/j/ra/a/jgD3whfDQHgpQpyqWsDmKFF/?lang=pt • • Atualmente é possível subdividir a sociologia criminal moderna em dois grandes grupos de teorias macrossociológicas, as teorias do consenso e as teorias do conflito. São teorias do consenso: a teoria da escola de Chicago, a teoria da associação diferencial, a teoria da subcultura delinquente e a teoria da anomia. • No ano de 1938, o sociólogo norte-americano Robert K. Merton escreveu um artigo curto, de apenas dez páginas, mas que se popularizou por estabelecer os fundamentos de uma teoria geral da anomia e serviu como base para sua atual forma (GONZAGA, 2018, p. 121 e 122). • Por essa razão, é possível conceber que a atual teoria da anomia, que consiste em uma das teorias do consenso, possui como marco originário o texto do estudioso norte-americano. Contudo, o estudo da anomia e a sua relação com a formação do fato criminoso é anterior ao surgimento das teorias do consenso. • Émile Durkheim, ao estudar o fato criminoso sob a ótica sociológica, se fundamentava no conceito de anomia (MACHADO, 2008, p. 104). Se considerarmos apenas a origem etimológica do termo anomia, temos como significado a “ausência de normas” e a inexistência de referência a regras práticas de vida em sociedade (MACHADO, 2008, p. 104). • A teoria da anomia de Émile Durkheim aponta para as tensões estruturadas na sociedade, que induzem a ocorrência do crime e a consequente adoção de soluções desviantes. Ele procurava, assim, descobrir como o sistema social produz o crime e o faz como resultado normal do seu próprio funcionamento (MACHADO, 2008, p. 104). • Destaque-se que a teoria de Durkheim serviu de inspiração para as teorias sociológicas funcionalistas, mais especificamente para o trabalho de Robert Merton, que deu origem à teoria da anomia no contexto das teorias do consenso, e para o de Talcott Parsons (MACHADO, 2008, p. 104). • Apesar de servir de inspiração, não é possível depreender que Émile Durkheim foi o precursor da teoria do consenso da anomia, ao passo que sua concepção serve apenas como influência. • O artigo de Robert Merton, após a publicação, foi revisto e transformado pelo próprio autor em sua obra clássica Teoria e estruturas sociais (GONZAGA, 2018, p. 121 e 122). Merton defendeu que existem nas sociedades os chamados valores socioculturais, que são metas culturais a serem alcançadas (GONZAGA, 2018, p. 121 e 122). • Para atingir essas metas, existem os meios, que são os recursos institucionalizados pela sociedade, prescrevendo normas de comportamento (GONZAGA, 2018, p. 121 e 122). Assim, se de um lado temos as metas socioculturais, de outro temos os meios socialmente prescritos para atingir as referidas metas. • Apesar do simples esquema desenvolvido por Merton, isto é, o binômio metas e meios para alcançá-las, nem sempre os meios disponíveis são suficientes ou estão ao alcance de todos, resultando em um desequilíbrio entre as ferramentas acessíveis e os objetivos sociais pretendidos pelas coletividades (GONZAGA, 2018, p. 121 e 122). • Enquanto todos são insistentemente estimulados a alcançar as metas sociais, na realidade apenas alguns poucos o conseguem, por ter ao seu dispor os meios institucionalizados (GONZAGA, 2018, p. 121 e 122). Por isso, para alcançar essas metas, alguns grupos sociais passam à prática criminosa, que é resultado da disfunção social existente, isto é, da falta dos meios necessários para atingir as metas sociais. • Teoria da anomia: interpretação e aprofundamento Existe comumente o desequilíbrio social entre as ferramentas acessíveis e os objetivos sociais pretendidos pelas coletividades. Este descompasso, conforme já exposto, pode gerar o aumento da criminalidade. É possível conceber, dessa forma, que há um desajustamento entre os fins sugeridos a todos e insistentemente estimulados (metas) e os recursos oferecidos pela sociedade para atingir esses objetivos (GONZAGA, 2018, p. 121 e 122). Tal desequilíbrio entre meios e metas ocasionaria, nos moldes da teoria de Merton, o comportamento do desvio individual ou de um grupo, pois os sujeitos, querendo alcançar as metas praticamente impostas (a teoria trata de metas sugeridas, na verdade), mas não dispondo dos meios institucionalizados necessários para isso, buscariam outros meios ilícitos ou contrários aos interesses sociais, podendo até cometer crimes (GONZAGA, 2018, p. 121 e 122). Dessa forma, a anomia em Robert Merton seria o desequilíbrio entre os meios disponíveis para poucos e as metas estabelecidas para todos, o que resulta na ausência de oportunidades para o atingimento dos fins essenciais (GONZAGA, 2018, p. 121 e 122). Como forma de sistematizar a abordagem de Merton, pode ser destacado o que ele chamou de modos de adaptação, que se traduzem em cinco formas: conformidade, inovação, ritualismo, evasão/retraimento e rebelião; elas são as posturas dos cidadãos perante o binômio citado de metas impostas para todos e meios disponíveis para poucos (GONZAGA, 2018, p. 121 e 122). Abaixo trataremos melhor sobre as cinco formas citadas: • Conformidade ou comportamento modal: em um ambiente social estável, é o tipo mais comum de postura, pois as pessoas aceitam os meios institucionalizados para alcançar as metas, havendo adesão total e a inexistência do comportamento desviante (PENTEADO FILHO, 2020, p. 87 e 88). • Inovação: os indivíduos acatam as metas culturais, mas não aceitam os meios institucionalizados disponíveis, que são escassos. Quando concluem que nem todos os meios estão disponíveis, os indivíduos rompem com o sistema e, pela conduta desviante, tentam alcançar as metas. O delinquente “corta caminho” para alcançar as metas (PENTEADO FILHO, 2020, p. 87 e 88). • Ritualismo: os indivíduos fogem das metas culturais, que, por uma razão ou outra, creem que nunca conseguirão alcançar. Renunciam, dessa forma, às metas culturais por entenderem que são incapazes de alcançá-las. (PENTEADO FILHO, 2020, p. 87 e 88). • Evasão ou retraimento: os cidadãos renunciam tanto às metas culturais, quanto aos meios institucionalizados. Podem-se citar aqui os bêbados, drogados, mendigos e párias, que são derrotistas sociais (PENTEADO FILHO, 2020, p. 87 e 88). • Rebelião: o inconformismo e a revolta são características desta postura, ao passo que os indivíduos rejeitam as metas e meios, travando batalhas pelo estabelecimento de novos paradigmas, de uma nova ordem social. A anomia, como uma espécie de confusão de normas ou um encontro de normas conflitantes, pela existência do descompasso existente entre as metas alcançáveis e os meios disponíveis, é o primeiro passo para análise das subculturas, isto é, o estudo da teoria da subcultura delinquente (PENTEADO FILHO, 2020, p. 87 e 88). Teoria da anomia: aplicação prática A teoria de Robert Merton pode ser mais bem explicada, nos moldes do que já foi discutido, pelas cinco diferentes posturas dos cidadãos, pensadas pelo mesmo autor, diante da existência do grande descompasso entre as metas impostas pela sociedade e todos os meios disponíveis para atingi-las. Considerando o trecho acima, devemos analisar o seguinteexemplo e os seus cinco desdobramentos possíveis: • Na cidade de São Paulo/SP, assim como nas outras cidades do Brasil, os programas de TV frisam com certa constância a “necessidade” de que todas as pessoas, independentemente da classe social, tenham a sua casa própria e, no mínimo, um veículo automotor, além de ser indispensável a constituição de uma poupança para eventuais imprevistos. No mesmo sentido, a prefeitura de São Paulo está fazendo uma forte campanha para mostrar a importância da construção de um patrimônio por todas as pessoas. • Contudo, no sentido inverso, percebe-se que a inflação brasileira está crescendo exponencialmente a cada ano, sendo praticamente impossível que as pessoas das classes mais baixas consigam ao menos se alimentar. Da mesma forma, o desemprego da cidade de São Paulo/SP bateu recorde nos últimos dois anos. Em uma análise prévia, já é possível, a partir da teoria da anomia de Robert Merton, explicar e demonstrar a discrepância existente entre as metas sociais alcançáveis e os meios disponíveis. Praticamente como uma imposição social, as pessoas estão tendo como principal meta social a construção de patrimônio próprio, com a aquisição de, no mínimo, um veículo automotor e uma casa própria, além da formação de uma poupança para eventualidades. Em contrapartida, os meios disponíveis para o alcance das metas são insuficientes para todos, ao passo que muitos estão desempregados e as pessoas estão literalmente passando fome. Como desdobramentos do caso proposto, devemos analisar as cinco posturas possíveis considerando a teoria de Robert Merton: • Conformidade ou comportamento modal: não existe, no caso, um ambiente social instável, em razão da insuficiência dos meios disponíveis para o alcance das metas. Assim, para que houvesse a adesão total aos meios e metas e a inexistência do comportamento criminoso, os meios deveriam ser suficientes para o alcance das metas. • Inovação: os indivíduos vão acatar e aceitar a meta social principal imposta, ou seja, a construção do patrimônio individual, contudo, por não existirem meios disponíveis para o alcance das metas, em razão da disfunção social já apontada, passarão a cometer crimes para alcançá-las. • Ritualismo: parte da população poderá simplesmente fugir das metas culturais impostas, ou seja, desistir de construir patrimônio próprio em razão da carência dos meios para que isso ocorra, na medida em que os indivíduos não se acreditarão capazes de alcançá-las. • Evasão ou retraimento: parte da população pode simplesmente renunciar a todas as metas e meios para alcançá-las. • Rebelião: pela irresignação com a disfunção social citada, pessoas ou grupos sociais começarão a travar batalhas, por movimentos organizados e, em geral, não criminosos, pelo estabelecimento de novos paradigmas, de uma nova ordem social. • • Videoaula: Teoria da anomia • • Nesta videoaula, entenderemos melhor a teoria da anomia, em comparação com o pensamento de Émile Durkheim, que já analisava essa concepção no contexto criminoso. Saberemos, assim, a origem da teoria da anomia no contexto das teorias do consenso, estudando o seu objeto de investigação e entendendo os principais aspectos daquela teoria. • Saiba mais Para aprofundarmos os conhecimentos obtidos nesta aula, é importante recorrermos a materiais complementares, que nos permitam ter uma visão mais apurada sobre os temas. Para saber mais, acesse os links a seguir. • O artigo científico Sociologia de Émile Durkheim: moderação e solidariedade para vencer a anomia moderna e alcançar a felicidade trata da teoria desse importante estudioso da sociologia. • O artigo científico A teoria da anomia social no estudo criminal: uma abordagem a partir das sociologias de Durkheim e Merton trata das comparações entre Durkheim e Merton. • O artigo científico Anomia e Direito: Robert Merton e a teoria da anomia trata das ideias desse teórico da sociologia criminal. Introdução https://www.professores.uff.br/seleneherculano/wp-content/uploads/sites/149/2017/09/A_SOCIOLOGIA_DE_%C3%89MILE_DURKHEIM_MODERA%C3%87%C3%83O_E_SOLIDARIEDADE.pdf https://www.professores.uff.br/seleneherculano/wp-content/uploads/sites/149/2017/09/A_SOCIOLOGIA_DE_%C3%89MILE_DURKHEIM_MODERA%C3%87%C3%83O_E_SOLIDARIEDADE.pdf https://periodicos.ufrn.br/transgressoes/article/download/18807/12510/ https://periodicos.ufrn.br/transgressoes/article/download/18807/12510/ https://www.unaerp.br/revista-cientifica-integrada/edicao-atual/4443-anomia-e-direito-robert-merton-e-a-teoria-da-anomia/file A teoria das subculturas delinquentes, ou da subcultura delinquente, pode ser considerada um desdobramento da teoria da anomia, pois se relaciona com o processo de marginalização dos indivíduos, em especial quando consideramos as metas sociais impostas e a falta dos meios legítimos e ilegítimos para alcançá-las. Nesta aula, aprenderemos mais sobre a relação entre essas duas teorias. Além disso, estudaremos a origem da teoria da subcultura delinquente, seu objeto de investigação e seus principais aspectos. Esse estudo é indispensável para compreender e reconhecer as características das teorias de consenso. Vamos lá? Teoria da subcultura delinquente: noções gerais São teorias do consenso: a teoria da escola de Chicago, a teoria da associação diferencial, a teoria da subcultura delinquente e a teoria da anomia. A teoria da subcultura delinquente possui relação íntima com a teoria da anomia, que fazem parte das chamadas teorias do consenso. Como visto, na teoria da anomia, os meios legítimos disponíveis ao corpo social para o atingimento das “metas sociais” e aspirações individuais não se traduzem em oportunidades reais, igualitárias (PENTEADO FILHO, 2020, p. 88). A partilha irregular destas oportunidades produz subalternos, e as oportunidades ilegítimas, igualmente postas em disponibilidade para os atores sociais, também se tornam escassas e distribuídas de maneira desigual (PENTEADO FILHO, 2020, p. 88). Dessa forma, os indivíduos que buscam as metas sociais, mas que não dispõem de meios legítimos suficientes, passam a buscar meios ilegítimos, que também não são suficientes. Por esse motivo, é possível falar no surgimento de subculturas, grupos que se unem pela “mesma” postura diante da falta de oportunidades. Pode-se falar, nesse contexto, em três subculturas diferentes: • Subcultura criminal: aprendizagem dos valores e técnicas para o desempenho de papéis desviantes. Por esse motivo, os indivíduos passam a ter a possibilidade de cometer delitos. Outra característica importante é a ausência de medo ou culpa em relação ao uso dos meios ilícitos (PENTEADO FILHO, 2020, p. 88). • Subcultura de conflitos: utilização da violência pelos que não têm oportunidades legítimas e ilegítimas (PENTEADO FILHO, 2020, p. 88). • Subcultura de evasão: ocorre o abandono ou renúncia de tudo, como resultado de fracasso. A característica mais marcante é a apatia dos seus membros (PENTEADO FILHO, 2020, p. 88). Como se vê, a teoria da anomia serve para embasar parte da teoria da subcultura delinquente, em especial se analisarmos a ideia da subcultura criminal. Por esse motivo, os doutrinadores citam a subcultura delinquente como um desdobramento da teoria da anomia. A teoria da subcultura delinquente precisa ser estudada a partir das complexidades das relações humanas. Quando consideramos o chamado establishment ou cultura dominante, percebemos que nem todos os indivíduos fazem parte dele. Os “excluídos” dessa cultura comum também são impossibilitados de acessar a maior parte dos meios legítimos para o alcance das metas sociais. O establishment é, pelo motivo citado, combatido pelos integrantes de um grupo contrário a esses valores. Eles se utilizam de violência e de um código interno de condutas e punições (GONZAGA, 2018, p. 117) Nesse contexto, surgem as gangues,que consistem em grupos organizados por normas internas, e que se aproveitam dos meios ilegítimos de alcance das metas sociais; eles são contrários ao establishment. As gangues ou as organizações criminosas criam costumes próprios e contrários ao que é considerado política ou moralmente correto, o que ocorre devido à exclusão social dos indivíduos que compõem essa subcultura delinquente (GONZAGA, 2018, p. 117). Com a marginalização de determinadas pessoas, forma-se um grupo com pensamentos contrários aos do já citado establishment (GONZAGA, 2018, p. 117). Teoria da subcultura delinquente: interpretação e aprofundamento Conforme já destacado, a teoria da subcultura delinquente é considerada uma das teorias do consenso. A primeira vez que o termo “subcultura delinquente” foi usado data de 1955, com a publicação do livro Delinquent boys, pelo teórico Albert Cohen (GONZAGA, 2018, p. 117). Alguns jovens da época eram contra o sistema e suas regras, e criaram posturas e formas de pensar próprias, negando o que era imposto pela sociedade dominante (GONZAGA, 2018, p. 117). A subcultura delinquente pode ser conceituada a partir de três ideias básicas: a) o caráter pluralista e atomizado da ordem social; b) a cobertura normativa da conduta desviada; e c) as semelhanças estruturais, na gênese, dos comportamentos regulares e irregulares (PENTEADO FILHO, 2020, p. 89 e 90). Essa teoria se contrapõe à ideia vigente de ordem social, que é comumente pregada pela criminologia tradicional (PENTEADO FILHO, 2020, p. 89 e 90). De acordo com as correntes clássicas da sociologia criminal, existe uma única ordem social, sendo o criminoso a pessoa que não consegue se encaixar nesta ordem. A teoria da subcultura delinquente vem para romper com estas amarras doutrinárias. Um bom exemplo da existência da subcultura delinquente são, como dito, as gangues de jovens delinquentes: os jovens passam a aceitar valores daqueles grupos, incorporando-os e tornando-os mais relevantes dos que os valores sociais dominantes (PENTEADO FILHO, 2020, p. 89 e 90). Segundo Cohen, o criador da teoria da subcultura delinquente, ela se caracteriza por três fatores: não utilitarismo da ação, malícia da conduta e negativismo. Explicaremos melhor esses fatores a seguir: • Não utilitarismo da ação: se revela no fato de que grande parte dos delitos não possuem motivação racional (PENTEADO FILHO, 2020, p. 89 e 90). • Malícia da conduta: o prazer em desconcertar, prejudicar os outros que não fazem parte da subcultura a que pertencem (PENTEADO FILHO, 2020, p. 89 e 90). • Negativismo da conduta: um polo oposto aos padrões da sociedade dominante, ou seja, do establishment (PENTEADO FILHO, 2020, p. 89 e 90). A existência das subculturas criminais é resultado da reação necessária de algumas minorias muito desfavorecidas diante das exigências sociais de sobrevivência (PENTEADO FILHO, 2020, p. 89 e 90). A teoria funcionalista da anomia e a teoria das subculturas delinquentes contribuíram, cada um do seu modo, para a relativização do sistema de valores e regras sancionadas pelo direito penal, agora em oposição à ideologia jurídica tradicional, que tende a ver no direito penal uma espécie de mínimo ético, ligado às exigências fundamentais da vida da sociedade e, frequentemente, aos princípios de toda convivência humana (PENTEADO FILHO, 2020, p. 89 e 90). Diante do exposto, percebe-se que a teoria da subcultura delinquente é a corrente das teorias do consenso que estuda o surgimento do crime a partir do aparecimento de subculturas criminais, as quais se originam da marginalização de certos indivíduos na sociedade dominante. Teoria da subcultura delinquente: aplicação prática Nos moldes do que foi tratado, Cohen, o criador da teoria da subcultura delinquente, caracterizou o surgimento do crime na sua teoria a partir de três fatores: não utilitarismo da ação, malícia da conduta e negativismo. A partir do exposto, veremos os exemplos que seguem: • Não utilitarismo da ação: um determinado grupo “criminoso” se formou a partir da união de jovens que se viam como “desajustados”. O que ocorreu, de fato, foi a marginalização de alguns indivíduos pela chamada cultura dominante, razão pela qual houve a criação de uma subcultura delinquente. Este grupo se autodenominou de Gangue do Nilsinho, em razão do seu principal líder. Ocorre que este grupo passou a cometer pequenos furtos, mesmo sem utilizar ou comercializar os produtos furtados. Em uma semana, por exemplo, os jovens se juntaram para roubar roupas de uma grande rede da sua cidade, contudo, não tinham a menor intenção de vender ou de usar as referidas peças. O não utilitarismo da ação se revela no fato de que grande parte dos delitos do grupo criado não possuem motivação racional. Contudo, como os jovens passam a ter os mesmos ideais, eles se organizam para utilizar os meios ilícitos. • Malícia da conduta: um grupo de jovens delinquentes se formou em uma escola pública da cidade de São Paulo/SP. Os integrantes do grupo se autodenominaram de Gangue Violenta, pois os únicos crimes cometidos eram de violência contra outros indivíduos. O principal valor do grupo é colocar medo nos demais jovens das escolas públicas da região, com o cometimento de pequenos delitos e crimes violentos. Quando consideramos a “malícia da conduta”, devemos ter em mente que a subcultura delinquente analisada possui o prazer em desconcertar, prejudicar os outros que não fazem parte da subcultura que integram. Assim, como uma postura reativa perante à própria marginalização, os componentes da gangue passam a atacar outros grupos sociais apenas como intuito de gerar medo. • Negativismo da conduta: na cidade de São Paulo/SP, o grupo social e político dominante, composto, em sua grande maioria, pelas pessoas das classes mais abastadas da cidade, passou a pregar padrões cada vez mais distantes e inalcançáveis pelas classes menos favorecidas. Por essa razão, os indivíduos marginalizados passaram a, cada vez mais, se aglutinar em subculturas delinquentes, até que, em razão do tempo duradouro da marginalização, criaram o maior grupo criminoso de São Paulo/SP. Os integrantes desta subcultura delinquente passaram a negar e se contrapor a todos os padrões da sociedade dominante, passando a lançar mão de todos os meios ilegítimos possíveis para alcançar as suas próprias metas sociais. No “negativismo da conduta”, os integrantes dos grupos criminosos passam a estar em polo oposto aos padrões da sociedade dominante, ou seja, do establishment. • • Videoaula: Teoria da subcultura delinquente • Nesta videoaula, estudaremos de forma aprofundada a teoria da subcultura delinquente, apontando a sua origem e relacionando-a com a teoria da anomia (também uma teoria do consenso). Ademais, veremos o objeto da investigação da teoria da subcultura delinquente e os seus principais aspectos, como forma de finalizar a investigação das teorias do consenso. Saiba mais Para aprofundarmos os conhecimentos obtidos nesta aula, é fundamental recorrermos a materiais complementares, que nos permitam ter uma visão mais aguçada sobre os temas. Para saber mais, acesse os links a seguir. • O artigo científico Uma análise da teoria criminológica da subcultura delinquente no contexto de adolescentes autores de atos infracionais trata da relação das subculturas delinquentes e o cometimento de atos infracionais. • O artigo científico Graffiti e subcultura delinquente: similaridades e diferenças trata da relação das subculturas delinquentes e o graffiti. • O artigo científico Teoria da subcultura delinquente e a criminalização seletiva trata da relação das subculturas delinquentes e a punibilidade seletiva. • • Teorias de consenso • https://cidh2017.files.wordpress.com/2018/01/bn_gt9-10.pdf https://cidh2017.files.wordpress.com/2018/01/bn_gt9-10.pdf http://www.scielo.org.co/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1692-25302020000200331http://revista.fametro.com.br/index.php/RDA/article/view/293 • A moderna sociologia passou a adotar uma divisão bipartida da investigação do crime, analisando as chamadas teorias macrossociológicas, sob enfoques de consenso ou de conflito. • A denominação “consenso” foi escolhida porque denota a uma convergência de vontades no mesmo sentido, como um pensamento sistematizado, de forma que todas as pessoas, ou pelo menos a maior parte, pregam o mesmo pensamento. Nesse sentido, há uma interação social entre todos os componentes de um grupo, mas sem o poder estatal para usar a força e impor o seu modo de pensar (GONZAGA, 2018, p. 148 e 149). • Dessa interação “natural” e não imposta surgem modelos próprios de pensamento, todos eles baseados no consenso entre os seus integrantes (GONZAGA, 2018, p. 148 e 149). São exemplos das teorias de consenso a escola de Chicago, a teoria de associação diferencial, a teoria da anomia e a teoria da subcultura delinquente. • A escola de Chicago encara o fenômeno do crime com base na “ecologia”, isto é, analisa a arquitetura da cidade como formadora do comportamento delinquente (GONZAGA, 2018, p. 91 e 92). A referida escola estuda o crime a partir de uma interação “natural” e não imposta, consensual, examinando o fator criminológico sob a ótica da organização harmônica da cidade. A obra doutrinária fundamental para que se compreenda a distribuição “ecológica” do crime na cidade de Chicago, foco dos estudos dessa escola, é Delinquency areas, de Clifford Shaw, datada de 1929 (GONZAGA, 2018, p. 92 e 93). • A teoria de associação diferencial, por sua vez, foi desenvolvida pelo norte-americano Edwin H. Sutherland e propõe que o comportamento criminoso de indivíduos tem sua gênese pela aprendizagem, com o acesso aos padrões de comportamento favoráveis à violação da lei em sobreposição aos contatos contrários à violação da lei (GONZAGA, 2018, p. 125). • Os criminosos tendem a copiar o comportamento do seu grupo, daqueles com quem convivem ou com os quais estão associados (GONZAGA, 2018, p. 125). Exatamente por isso, em decorrência desta interação natural entre os diferentes grupos sociais, inclusive os criminosos, é possível incluir o mencionado estudo como parte das teorias do consenso. • No ano de 1938, o sociólogo norte-americano Robert K. Merton escreveu um artigo curto, de apenas dez páginas, mas que se popularizou por estabelecer os fundamentos de uma teoria geral da anomia, servindo de base para sua forma atual (GONZAGA, 2018, p. 121 e 122). Merton defendeu que existem, nas sociedades, os chamados valores socioculturais, que são metas culturais a serem alcançadas (GONZAGA, 2018, p. 121 e 122). • Para atingir essas metas, existem os meios, que são os recursos institucionalizados pela sociedade sob normas de comportamento (GONZAGA, 2018, p. 121 e 122). Como uma disfunção social, há o fato de que os meios não são suficientes ou estão disponíveis para todos, razão pela qual o crime surge. Os doutrinadores citam a subcultura delinquente como um desdobramento da teoria da anomia. • Quando consideramos o chamado establishment ou cultura dominante, percebemos que nem todos os indivíduos fazem parte dele. Os “excluídos” dessa cultura comum também são impossibilitados de acessar a maior parte dos meios legítimos para o alcance das metas sociais. • O establishment é, pelo motivo citado, combatido pelos integrantes de um grupo contrário a esses valores; eles utilizam a violência e um código interno de condutas e punições (GONZAGA, 2018, p. 117). • • Videoaula: Revisão da unidade • Nesta videoaula, revisaremos o conteúdo visto sobre as teorias do consenso, aprofundando os conhecimentos sobre as quatro teorias já estudadas. Dessa forma, veremos a escola de Chicago como a origem das teorias do consenso; a teoria da associação diferencial; bem como as teorias da anomia e o seu principal desdobramento, a teoria das subculturas delinquentes. • • Estudo de Caso • • Imagine que você é professor universitário e ministra a disciplina de criminologia na universidade em que trabalha. Um dos alunos da sua turma o procurou para sanar algumas dúvidas. • Ele estava estudando uma das teorias do consenso, a da anomia. Segundo ele, não existe um embasamento que justifique a teoria, pois os meios de alcance das metas sociais são sim suficientes para todos. • Ele, inclusive, não entendeu os modos de adaptação citados por Merton, na medida em que não conseguiu relacionar os citados modos com a teoria da anomia em si. • Por esse motivo, ele veio o procurar para sanar essas questões. • ______ • Reflita • Frente ao exposto, você, enquanto professor, precisa responder aos seguintes questionamentos: os meios de alcance das metas sociais estão disponíveis para todos? Quais são os métodos de adaptação para Merton? Quando os métodos de adaptação de Merton se concretizam? • • Videoaula: Resolução do Estudo de Caso • • Na situação em tela, você é professor universitário e ministra a disciplina de criminologia na universidade em que trabalha. Um dos alunos da sua turma o procurou para sanar algumas dúvidas. • No que se refere ao primeiro ponto, isto é, da escassez de meios disponíveis para alcançar as metas sociais, importa destacar que, em sociedades desiguais, como praticamente todas as sociedades do mundo são, há naturalmente uma desigualdade de condições e, por consequência, uma insuficiência dos meios legítimos do atingimento dos anseios sociais. • Existe comumente o desequilíbrio social entre as ferramentas acessíveis e os objetivos sociais pretendidos pelas coletividades. Este descompasso pode gerar o aumento da criminalidade. É possível conceber, dessa forma, que há um desajustamento entre os fins sugeridos a todos e insistentemente estimulados (metas) e os recursos oferecidos pela sociedade para atingir esses objetivos. • O citado desequilíbrio entre meios e metas ocasionaria, nos moldes da teoria de Merton, o comportamento do desvio individual ou de um grupo, pois os sujeitos, querendo alcançar as metas praticamente impostas (a teoria fala em metas sugeridas, na verdade), mas não dispondo dos meios necessários para isso, buscariam outros meios ilícitos ou contrários aos interesses sociais, podendo até cometer crimes. • Como forma de sistematizar a abordagem de Merton, pode ser destacado o que ele chamou de modos de adaptação, que se traduzem em cinco formas: conformidade, inovação, ritualismo, evasão/retraimento e rebelião. Estas são as posturas dos cidadãos perante o binômio citado de metas impostas para todos e meios disponíveis para poucos. • A conformidade ou comportamento modal, em um ambiente social estável, é o tipo mais comum de postura, pois as pessoas aceitam os meios institucionalizados para alcançar os meios sociais, havendo adesão total e a inexistência do comportamento desviante. • Na inovação, os indivíduos acatam as metas culturais, mas não aceitam os meios institucionalizados disponíveis, mas escassos. Quando concluem que nem todos os meios estão disponíveis, eles rompem com o sistema e, pela conduta desviante, tentam alcançar as metas. O delinquente “corta caminho” para alcançar as metas. • No ritualismo, os indivíduos fogem das metas culturais, que, por uma razão ou outra, creem que nunca conseguirão alcançar. Renunciam, dessa forma, às metas culturais por entenderem que são incapazes de alcançá-las. • Na evasão ou retraimento, os cidadãos renunciam tanto às metas culturais, quanto aos meios institucionalizados. Podem-se citar aqui os bêbados, drogados, mendigos e párias, que são derrotistas sociais. • Por fim, na rebelião, o inconformismo e a revolta são característicos, ao passo que os indivíduos rejeitam as metas e meios, travando batalhas pelo estabelecimento de novos paradigmas, de uma nova ordem social. • • Resumo visual • • As teorias doconsenso são de extrema relevância para a construção da sociologia criminal. Estas teorias se baseiam na existência de relações sociais naturais e não impostas, que justificariam a prática dos crimes. A figura a seguir visa a resumir as quatro teorias do consenso. • • São teorias do consenso: a escola de Chicago, a teoria da associação diferencial, a teoria da anomia e a teoria da subcultura delinquente. • • A escola de Chicago encara o fenômeno do crime com base na “ecologia”, isto é, analisa a arquitetura da cidade como formadora do comportamento delinquente. A referida escola dividiu a cidade em três círculos concêntricos: o centro cívico, onde se localizam os principais prédios do Estado; os subúrbios, locais onde os trabalhadores do centro cívico residem; e periferias, locais das pessoas “marginalizadas” pela cultura dominante. • • A teoria da associação diferencial prega que o contato social com pessoas que cometem crimes propicia a cópia dos valores criminosos por outros indivíduos, fazendo com que estes passem a cometer crimes também. • • A teoria da anomia estuda a disfunção social que consiste na discrepância entre as metas almejáveis e os meios para o atingimento dessas metas não disponíveis para todos. • • Resumo visual do conteúdo estudado na Unidade 3. Fonte: elaborada pelo autor. • A teoria das subculturas delinquentes prega que, com a exclusão social oriunda do domínio da sociedade dominante, os indivíduos marginalizados se organizam em grupos, passando a seguir regras próprias que se opõem às normas sociais vigentes. • Unidade 4 Introdução A sociologia criminal contemporânea se subdivide nas chamadas teorias macrossociológicas: as de conflito e as de consenso. As teorias de consenso abordam o surgimento do crime a partir do estudo da organização social natural e não imposta entre indivíduos. As teorias de conflito, por sua vez, se diferenciam das teorias de consenso por analisarem o crime a partir da perspectiva da existência de conflitos entre os atores sociais de uma comunidade. Existe, nas teorias de conflito, a previsão de opressão que alguns grupos seletos exercem contra os demais. Nesse contexto, aprofundaremos os nossos conhecimentos sobre uma das mais importantes teorias do conflito, a labelling approach (em inglês, “abordagem do etiquetamento”), entendendo a sua origem e principais características. Vamos lá? Labelling approach: noções gerais O pensamento criminológico moderno é influenciado, principalmente, por duas correntes de funcionamento: a) uma de cunho funcionalista, chamada de teoria da de integração ou de teoria do consenso; e b) uma de cunho argumentativo, denominada de teoria de conflito (PENTEADO FILHO, 2020, p. 78). As teorias de conflito, como indica o nome, se contrapõem às ideias das teorias de consenso, na medida em que passam a estudar o crime a partir da existência de conflitos sociais comuns à organização humana. São exemplos dessas teorias de conflito o labelling approach e a teoria crítica ou radical. As teorias de conflito defendem que a harmonia social sempre é resultado da força e da coerção, existindo uma relação entre dominantes e dominados. Não há, segundo elas, voluntariedade entre os personagens para a pacificação social, ao passo que ela ocorre por meio da imposição ou coerção (PENTEADO FILHO, 2020, p. 79 e 80). As teorias de conflito pregam, como postulados, que as sociedades são sujeitas a mudanças contínuas e ubíquas, de modo que todos os elementos sociais cooperam para a sua dissolução (PENTEADO FILHO, 2020, p. 79 e 80). Um dos principais teóricos dessa corrente é Karl Marx, que postulava a luta de classes. Porém, os sociólogos contemporâneos afastam essa ideia, argumentando que a violação da ordem (prática do crime) deriva mais da ação de indivíduos, grupos ou bandos do que de um substrato ideológico e político (PENTEADO FILHO, 2020, p. 79 e 80). A teoria da labelling approach, também denominada de teoria do interacionismo simbólico, etiquetamento, rotulação ou reação social, é uma das mais importantes teorias de conflito (PENTEADO FILHO, 2020, p. 90 e 91). A referida teoria surgiu nos Estados Unidos da América, nos anos de 1960, tendo como principais expoentes doutrinários Erving Goffman e Howard Becker (PENTEADO FILHO, 2020, p. 90 e 91), considerados seus pais. A partir do estudo da labelling approach, o crime passou a ser visto não como qualidade da conduta humana, mas uma consequência de um processo em que se atribui a “qualidade de criminoso” por meio de um processo de estigmatização (PENTEADO FILHO, 2020, p. 90 e 91). O criminoso, na teoria do etiquetamento, passa a se diferenciar do homem comum em razão do estigma que sofre (processo de marginalização) e do rótulo que recebe (PENTEADO FILHO, 2020, p. 90 e 91). Facilmente se concebe que existe conflito no estudo apontado, na medida em que o grupo que domina a cultura ordinária passa a coagir e marginalizar outros grupos, etiquetando os seus integrantes como criminosos (até como inimigos do Estado). Por essa razão, é possível enquadrar a labelling approach como uma das teorias de conflito. A sociedade define o que entende como crime ou “conduta desviante”, classificando o que é comportamento considerado perigoso e constrangedor, e fixando sanções contra aqueles que se comportarem da forma apontada (PENTEADO FILHO, 2020, p. 90 e 91). Labelling approach: interpretação e aprofundamento Por meio da teoria da labelling approach, o criminoso apenas se diferencia do homem comum em razão do estigma que sofre e do rótulo que recebe. O tema central da referida teoria é o processo de interação em que o indivíduo é classificado como criminoso (GONZAGA, 2018, p. 66 e 67). Urge explicar que, na teoria do etiquetamento, as condutas desviantes são aquelas que as pessoas de uma sociedade rotulam nas outras que as praticam (PENTEADO FILHO, 2020, p. 90 e 91). A teoria da rotulação dos criminosos teoriza um processo de estigmatização dos condenados, sendo a pena um vetor gerador de desigualdades (PENTEADO FILHO, 2020, p. 90 e 91). O sujeito que já era rotulado sofre, após ser penalizado, com a reação da família, dos amigos, dos conhecidos, dos colegas, o que acarreta um segundo processo de marginalização individual. Por meio dos controles sociais informais, a sociedade define o que se entende como comportamento perigoso, passando a impor sanções para “coibir” estas condutas (GONZAGA, 2018, p. 66 e 67). Todavia, a pena, que deveria funcionar como um vetor para reinserir o criminoso na sociedade, atua criando um segundo processo de marginalização. A etiqueta ou rótulo, que pode ser materializado em jornais sensacionalistas, fichas criminais, dentre outros, impregna o indivíduo, causando a expectativa social de que a conduta venha a ser repetida, o que amplia a prática delinquente e aproxima os indivíduos rotulados uns dos outros (PENTEADO FILHO, 2020, p. 90 e 91). Se o indivíduo rotulado for condenado, ele ingressará em uma instituição (presídio), que gerará um processo institucionalizador, com o seu maior afastamento da sociedade, criação de rotinas próprias e submissão à grupos criminosos particulares (PENTEADO FILHO, 2020, p. 90 e 91). Em sua uma versão mais radical, a teoria do etiquetamento prega que a criminalidade é apenas um rótulo aplicado por policiais, promotores, juízes criminais, isto é, pelas instâncias formais de controle social (PENTEADO FILHO, 2020, p. 90 e 91). Outros, menos radicais, entendem que o etiquetamento não se acha apenas na instância formal de controle, mas também no controle informal, no interacionismo simbólico na família e escola, dentre outros espaços (PENTEADO FILHO, 2020, p. 90 e 91). As consequências políticas da teoria do etiquetamento são resumidas no que se convencionou chamar de “política dos quatro Ds” (descriminalização,diversão, devido processo legal e desinstitucionalização) (PENTEADO FILHO, 2020, p. 90 e 91). Labelling approach: aplicação prática A teoria do labelling approach é um marco da sociologia criminal, ao passo que, a partir dela, foi possível entender o crime como decorrente de conflitos existentes dentro de uma sociedade, que podem ser explícitos ou implícitos. No plano jurídico-penal, os efeitos criminológicos da teoria do etiquetamento se deram no desenvolvimento da prudente não intervenção ou do direito penal mínimo, com uma tendência garantista, de não prisionização, de progressão dos regimes de pena, de abolitio criminis, etc. (PENTEADO FILHO, 2020, p. 91 e 92). Considerando o que já foi tratado, vejamos os exemplos que seguem: • Itachi Uchiha, um dos mais importantes militares da Vila da Folha, foi colocado como suspeito da prática de crimes sequenciais graves, isto é, a morte de toda uma família, que dominava a polícia local. Por essa razão, Itachi foi hostilizado e etiquetado como criminoso, passando por um processo de estigmatização social forte em razão do suposto crime. Ocorre que Itachi nunca havia praticado nenhuma ilegalidade, uma vez que foi o Hokage (líder da aldeia) quem ordenou as mortes. Ele, então, agiu no estrito cumprimento do dever legal; contudo, a ordem do Hokage nunca foi divulgada para os integrantes da vila. Em razão do etiquetamento, Itachi foi banido da Vila da Folha, passando a ter que sobreviver sozinho e sem ter um lar. Foi então que ele passou a integrar um grupo criminoso denominado Akatsuki, passando a praticar crimes com frequência a mando dos líderes do grupo. Percebe-se que o suposto crime de Itachi fez com que ele fosse etiquetado como criminoso e passasse a efetivamente cometer crimes. Não se pode, contudo, falar em reincidência, na medida em que não houve o cometimento de um crime inicial para gerar o etiquetamento. Mesmo assim, é possível perceber como a rotulação gerou a prática criminal. • Mário foi preso após cometer um pequeno furto em uma loja de conveniência. A intenção de Mário era alimentar os seus três filhos que estavam em casa, por isso, furtou um pequeno pacote de pães. Mário foi preso com base na pena máxima do Código Penal, isto é, quatro anos para o crime de furto. Mário, que deveria ser reinserido na sociedade, passou por um processo de afastamento ainda maior. Isto aconteceu por três motivos: a) os jornais sensacionalistas da região trataram Mário como criminoso recorrente; b) Ele foi totalmente excluído do seu núcleo familiar e de amigos, que passaram a etiquetá- lo como criminoso; e c) Mário passou a cumprir pena no presídio local, passando a ter rotina específica que divergia completamente da rotina da cultura dominante. Além disso, Mário passou a ter que se submeter às regras do maior grupo criminoso do presídio, o que ampliou o potencial de reincidência. Após sair da prisão, completamente etiquetado como criminoso, Mário passou a sobreviver da prática de crimes, abandonando, inclusive, os seus três filhos após a prisão. • • Videoaula: Teorias de conflito • • Nesta videoaula, estudaremos mais sobre as teorias de conflito, entendendo quais são as principais diferenças entre elas e as teorias de consenso. Entenderemos a origem e as principais características da teoria do labelling approach, a mais importante teoria de conflito. Além disso, analisaremos a caracterização do labelling approach como teoria do conflito. Saiba mais Para aprofundarmos os conhecimentos obtidos nesta aula, é fundamental recorrermos a materiais complementares, que nos permitam ter uma visão mais aguçada sobre os temas. Para saber mais, acesse os links abaixo. • A dissertação de mestrado Teoria do etiquetamento social, criminalização e estigmatização de jovens periféricos trata da relação entre a labelling approach e a exclusão de jovens periféricos. • O artigo científico Criminalização, Teoria do Etiquetamento e Racismo Institucional na Polícia: Autorrealização de uma amarga profecia trata da teoria do etiquetamento e do racismo. • O artigo científico Criminologia Crítica: teoria do etiquetamento criminal trata da teoria do etiquetamento. • • Introdução https://www.posgraduacao.unimontes.br/uploads/sites/20/2021/12/DISSERTA%C3%87%C3%83O-DEFESA-MESTRADO-Guilherme-Nobre-Aguiar-com-cataloga%C3%A7%C3%A3o.pdf https://www.posgraduacao.unimontes.br/uploads/sites/20/2021/12/DISSERTA%C3%87%C3%83O-DEFESA-MESTRADO-Guilherme-Nobre-Aguiar-com-cataloga%C3%A7%C3%A3o.pdf https://es.mpsp.mp.br/revista_esmp/index.php/RJESMPSP/article/view/221 https://es.mpsp.mp.br/revista_esmp/index.php/RJESMPSP/article/view/221 https://dspace.mj.gov.br/handle/1/4162 • • A criminologia crítica estuda o crime a partir da existência da luta de classes e da opressão entre os diferentes grupos sociais, com a imposição cultural e econômica de uma classe dominante sobre as classes trabalhadoras. Um aspecto consideravelmente problemático da teoria crítica é investigar o delito apenas nas sociedades capitalistas. • Nesta aula, estudaremos a origem da teoria crítica, também denominada de criminologia crítica ou teoria radical, traçando um paralelo com a teoria marxista. Além disso, entenderemos como a teoria crítica pode ser incluída dentre as teorias de conflito, compreendendo o seu objeto de investigação. Por fim, também analisaremos os principais aspectos dessa teoria. • Vamos lá? Teoria crítica ou radical: noções gerais A sociologia criminal contemporânea, que influencia todo o pensamento criminológico, pode ser dividida em duas correntes de funcionamento: a) as teorias do consenso, também chamadas de teorias de integração, que possuem teor funcionalista; e b) as teorias de conflito, que possuem cunho argumentativo (PENTEADO FILHO, 2020, p. 78). As teorias de conflito, como indica o nome, analisam o crime a partir dos conflitos existentes e inerentes à vida em sociedade. São exemplos dessas teorias de conflito a labelling approach e a teoria crítica ou radical. Esta teve o marco inicial no início do século XX, com a pesquisa do holandês Bonger, que, inspirado pelos estudos marxistas, entendeu ser o capitalismo a base da criminalidade, ao passo que promove o egoísmo, característica que leva os indivíduos a praticar crimes (PENTEADO FILHO, 2020, p. 92 e 93). De acordo com a teoria crítica, as condutas delitivas dos menos favorecidos são as únicas que são efetivamente perseguidas, ao contrário do que acontece com a criminalidade dos poderosos (PENTEADO FILHO, 2020, p. 92 e 93), comumente chamada de “crimes de colarinho branco”. Dessa forma, a teoria radical, que tem origem nas ideias marxistas, concebe que a realidade não é neutra, de modo que se vê todo o processo de estigmatização da população marginalizada (a classe trabalhadora, alvo preferencial do sistema punitivo) utilizado para criar um temor e manter a estabilidade da produção e da ordem social (PENTEADO FILHO, 2020, p. 92 e 93). As cinco principais características da teoria crítica são: 1. A concepção conflitual da sociedade e do direito, ao passo que o direito penal se ocupa em proteger os interesses do grupo social dominante (PENTEADO FILHO, 2020, p. 92 e 93). 2. Entende que deve existir compreensão e até apreço pelo criminoso (PENTEADO FILHO, 2020, p. 92 e 93), na medida em que este é uma vítima do sistema social dominante. 3. Combate à criminologia tradicional (PENTEADO FILHO, 2020, p. 92 e 93), por não compreender a prática do crime pelos indivíduos do grupo oprimido. 4. Afirma que o capitalismo é a base da criminalidade, em razão da promoção do egoísmo (PENTEADO FILHO, 2020, p. 92 e 93). 5. Defende reformas estruturais na sociedade para redução das desigualdades e, consequentemente, da criminalidade (PENTEADO FILHO, 2020, p. 92 e 93). A teoria crítica é refutada por identificar os problemas nos Estadoscapitalistas, não se ocupando de analisar o crime nos países socialistas (PENTEADO FILHO, 2020, p. 92 e 93), mesmo que, evidentemente, existam delitos nestes países. No contexto da teoria crítica, destacam-se as correntes do neorrealismo de esquerda; do direito penal mínimo; e do abolicionismo penal, que, no fundo, defendem a reestruturação da sociedade, com a extinção do sistema de exploração econômica (PENTEADO FILHO, 2020, p. 92 e 93). Teoria crítica ou radical: interpretação e aprofundamento Conforme destacado, a teoria crítica surge diante da análise do crime a partir dos conflitos sociais existentes. Levando em consideração o conceito de etiquetamento da escola interacionista, a teoria crítica (também reconhecida como criminologia crítica) buscou os seus fundamentos nos estudos de Karl Marx, segundo o qual o crime e o criminoso surgem diante da relação conflitual entre dois grupos antagônicos, os pobres (trabalhadores) e os ricos (GONZAGA, 2018, p. 144 a 146). A criminologia crítica, dessa forma, é embasada pela ideia da luta de classes, na medida em que a classe dominante tenta impor o seu modo de pensar e produzir o capital em detrimento da classe subalterna (GONZAGA, 2018, p. 144 a 146). A teoria crítica é, por essa razão, uma das teorias de conflito, haja vista que estuda a opressão (conflito) exercida, no contexto das sociedades capitalistas, pelo grupo dominante em detrimento da classe trabalhadora, que passa, dessa forma, a delinquir. Por essa razão, a teoria crítica prega que a realidade não é neutra, de modo que existe um processo de estigmatização da população marginalizada, principalmente da classe trabalhadora, que se torna alvo preferencial do sistema punitivo. Este cria o temor da criminalização do “colarinho azul” e a consequente punição de tais sujeitos para manter a estabilidade da produção e da ordem social (GONZAGA, 2018, p. 144 a 146). Percebe-se, assim, que a teoria crítica encontra forte amparo na teoria da labelling approach, outra teoria de conflito, que analisa o crime a partir do etiquetamento de alguns grupos sociais como “criminosos”. A ideia de luta de classes (ricos e pobres) da criminologia crítica demonstra claramente que há uma busca de subjugação (opressão) de uma classe por outra, fato que resulta em intensos conflitos sociais, e enseja a colocação desta escola nas hipóteses de teorias do conflito (GONZAGA, 2018, p. 144 a 146). Diante do conflito (situação de opressão) estabelecido em uma sociedade (entre ricos e pobres), o direito penal é usado como instrumento de dominação social da classe rica diante dos grupos dominados (GONZAGA, 2018, p. 144 a 146). Nos moldes do que estuda a teoria crítica, os crimes de colarinho azul são prontamente reprimidos e punidos quando ocorrem, enquanto os crimes de colarinho branco, como são praticados por quem se encontra no ápice da pirâmide, sequer chegam ao conhecimento das autoridades do sistema penal (GONZAGA, 2018, p. 144 a 146). O direito penal e todo o sistema punitivo e carcerário reprimem eficazmente os crimes que apresentam um perigo maior imediato (colarinho azul), como os crimes contra a vida, integridade física e crimes patrimoniais (GONZAGA, 2018, p. 144 a 146). Dessa forma, o sistema penal funciona como um fomentador das desigualdades sociais, não existindo outro ramo do direito capaz de impor uma desproporcionalidade Teoria crítica ou radical: aplicação prática De acordo com a teoria crítica, os crimes de colarinho azul são fortemente reprimidos e punidos pelo sistema, que representa a cultura dominante, enquanto os crimes de colarinho branco são desconsiderados ou até desconhecidos. Os crimes de colarinho branco são os crimes de grandes proporções e praticados geralmente por quem possui privilégios, ao passo que apenas essas pessoas conseguem ter acesso aos meios de cometimento dos referidos delitos. Os crimes de colarinho azul são os delitos “comuns”, que atingem a vida, o patrimônio ou a integridade física dos indivíduos de uma sociedade. A expressão “colarinho azul”, no contexto da teoria do consenso da associação diferencial, faz referência aos uniformes dos trabalhadores das fábricas, que comumente utilizavam macacões azuis. Considerando todas as concepções apresentadas, analisaremos os seguintes exemplos: • João e José, antigos vizinhos e amigos de infância, se afastaram após a morte dos pais de João. Quando isto ocorreu, João foi morar com os seus tios, que enfrentavam baixas condições sociais. José, por sua vez, por ser de família abastada, gozou de todos os privilégios de compor a classe dominante, que está no topo econômico da sociedade. João, sem condições para se manter, passou a compor um grupo criminoso da região, em razão da forte opressão que sofria da classe rica, pois, simplesmente por morar em uma região marginalizada, foi taxado a sua vida toda como criminoso. José, após se formar na maior universidade da região onde mora, também passou a integrar um grupo criminoso organizado para a prática de crimes de colarinho branco, mesmo com todos os privilégios possíveis que possuía. João viu todos os outros componentes do seu grupo criminoso serem presos ou mortos, na medida em que, praticamente todas as vezes que cometiam crimes, um dos transgressores era capturado pelo sistema. João, depois de menos de cinco anos cometendo crimes, foi morto após uma troca de tiros com a polícia local. José, por sua vez, passou longos anos praticando crimes, nunca viu um dos membros do seu grupo criminoso ser preso, e conseguiu deixar o crime (se aposentar) com uma gama de patrimônios ilícitos. O exemplo se explica pela teoria crítica, que reconhece uma maior repressão aos crimes de colarinho azul, praticados por João e seu grupo, enquanto José, que cometia crimes de colarinho branco, nunca foi preso. • Um criminólogo fez um estudo comparado dos índices criminais em dez países do globo, sendo quatro deles socialistas e seis capitalistas. O resultado foi surpreendente, ao passo que foram encontrados praticamente os mesmos números em todos os países, sendo possível traçar uma média que se aproximava dos índices reais de cada Estado. A principal crítica que pode ser feita aos estudos da criminologia crítica é a análise restrita às sociedades capitalistas, ao passo que a referida teoria entende que o crime surge apenas no contexto do capitalismo; contudo, a prática criminal é global e não se limita às sociedades com sistemas capitalistas. • • Videoaula: Origem da teoria crítica ou radical • Nesta videoaula, estudaremos a origem da teoria crítica ou radical, relacionando-a com os estudos de Karl Marx. Além disso, traçaremos a caracterização da criminologia crítica como teoria do conflito e identificaremos o seu objeto de investigação. Por fim, entenderemos os principais aspectos da teoria radical, compreendendo como a luta de classes entre ricos e pobres afeta a criminalidade. Saiba mais Para aprofundarmos os conhecimentos obtidos nesta aula, é fundamental recorrermos a materiais complementares, que nos permitam ter uma visão mais aguçada sobre os temas. Para saber mais, acesse os links a seguir. • O trabalho científico A estigmatização do criminoso sob a perspectiva da criminologia crítica: a seletividade do sistema na abordagem do Labelling Approach e a da inibição reintegradora trata da relação entre a labelling approach e a criminologia crítica. • O trabalho científico Criminologia Crítica no Brasil e os estudos críticos sobre branquidade trata da relação entre a criminologia crítica e a branquidade: . Acesso https://periodicos.unicesumar.edu.br/index.php/revjuridica/article/view/7063 https://periodicos.unicesumar.edu.br/index.php/revjuridica/article/view/7063 https://periodicos.unicesumar.edu.br/index.php/revjuridica/article/view/7063 https://www.scielo.br/j/rdp/a/Gvb9R7bmhKJyqtD54RmwPvF/abstract/?lang=pthttps://www.scielo.br/j/rdp/a/Gvb9R7bmhKJyqtD54RmwPvF/abstract/?lang=pt • O trabalho científico Criminologia Feminista com Criminologia Crítica: Perspectivas teóricas e teses convergentes trata da relação entre a criminologia crítica e a criminologia feminista. • Introdução • • A sociologia criminal mais atualizada tenta identificar a origem do crime a partir de duas principais teorias macrossociológicas, as de consenso e as de conflito. As teorias de consenso são: escola de Chicago, teoria da associação diferencial, teoria da anomia e teoria da subcultura delinquente. As teorias de conflito são: a labelling approach e a criminologia crítica. • Não é possível, todavia, restringir o pensamento criminológico atual apenas às teorias de conflito e teorias de consenso, ao passo que alguns outros estudos, derivados das supramencionadas teorias, explicam a origem do crime a partir do consenso e do conflito. • Dessa forma, em razão da análise mista, não é possível incluir algumas teorias como exclusivamente de conflito ou de consenso. Dentre as citadas teorias, podemos destacar o neorretribucionismo, também denominado de lei, ordem e tolerância zero, que se embasa na teoria das janelas quebradas. • Vamos lá? • Neorretribucionismo: noções gerais https://www.scielo.br/j/rdp/a/J38D6fZ7QztDVmjDhsR3N8c/abstract/?lang=pt https://www.scielo.br/j/rdp/a/J38D6fZ7QztDVmjDhsR3N8c/abstract/?lang=pt • • A moderna criminologia, principalmente se analisada sob a ótica da sociologia criminal, tenta explicar o crime por meio das teorias de consenso e teorias de conflito. São teorias do consenso: escola de Chicago, teoria da associação diferencial, teoria da anomia e teoria da subcultura delinquente. Por sua vez, são exemplos de teorias do conflito: a labelling approach e a criminologia crítica. • Contudo, existem algumas outras teorias ainda mais atuais que utilizam referências das duas formas de pensar o crime, usando bases de organização consensual e organização conflituosa. Como exemplo, temos a teoria lei e ordem ou tolerância zero (zero tolerance), derivada da famosa teoria das “janelas quebradas” (broken windows theory). A teoria lei e ordem é também denominada de realismo de direita ou neorretribucionismo, sendo uma derivação da escola de Chicago, uma das mais importantes das teorias do consenso (PENTEADO FILHO, 2020, p. 94 e 95). • O neorretribucionismo parte da premissa de que os pequenos delitos devem ser completamente rechaçados, o que faria com que os mais graves fossem inibidos, fulminando o mal a partir do seu nascedouro. Seria uma forma de prevenção geral (PENTEADO FILHO, 2020, p. 94 e 95). A partir desta ideia, haveria uma preservação e tutela dos espaços públicos e privados (PENTEADO FILHO, 2020, p. 94 e 95). • Parte da doutrina discorda dessa perspectiva, ao passo que a prevenção geral produz um elevado número de encarceramentos (PENTEADO FILHO, 2020, p. 94 e 95), pelas duras penas impostas à prática de pequenos delitos. • Para melhor entender a principal ideia do neorretribucionismo, vale destacar que, em 1982 foi publicada na revista The Atlantic Monthly uma teoria elaborada por dois criminólogos americanos, isto é, James Wilson e George Kelling, que levava ao conhecimento público a denominada teoria das janelas quebradas (broken windows theory) (PENTEADO FILHO, 2020, p. 94 e 95). • Ela parte da ideia de que há uma relação de causalidade entre a desordem e a prática criminal, utilizando, para explicar o liame, um experimento realizado por Philip Zimbardo, psicólogo da Universidade de Stanford (PENTEADO FILHO, 2020, p. 94 e 95). • Zimbardo deixou um automóvel em um bairro de classe alta de Palo Alto (Califórnia) e outro veículo no Bronx (Nova York) (PENTEADO FILHO, 2020, p. 94 e 95). Em trinta minutos, o veículo do Bronx foi despedaçado, mas o de Palo Alto permaneceu intacto por uma semana (PENTEADO FILHO, 2020, p. 94 e 95). • Contudo, o pesquisador resolveu quebrar uma das janelas do carro de Palo Alto e, após isso, o carro foi completamente destroçado e saqueado por grupos de vândalos em poucas horas (PENTEADO FILHO, 2020, p. 94 e 95). • Dessa forma, nos moldes da teoria, caso se quebre uma janela de um prédio e ela não seja imediatamente consertada, os transeuntes pensarão que inexiste autoridade responsável pela conservação da ordem naquela localidade, razão pela qual haverá a decadência daquele espaço urbano em pouco tempo (PENTEADO FILHO, 2020, p. 94 e 95 • Neorretribucionismo: interpretação e aprofundamento Conforme visto, o movimento da lei de ordem, desdobramento da teoria das janelas quebradas, defende a aplicação implacável da lei a qualquer conduta ilícita com o fim de manter a ordem social (GONZAGA, 2018, p. 116 e 117). De acordo com a teoria, os pequenos delitos precisam ser fortemente combatidos, de modo que exista a inibição da criminalidade na sua gênese. A teoria das janelas quebradas, desenvolvida nos Estados Unidos da América, foi aplicada em Nova York, quando Rudolph Giuliani foi prefeito da cidade, por meio da conhecida Operação Tolerância Zero, reduzindo consideravelmente os índices de criminalidade naquela cidade (PENTEADO FILHO, 2020, p. 96). As características principais do movimento lei e ordem, também denominada de neorretribucionismo, são: • A pena criminal é justificada como retribuição e castigo, considerando o sentido clássico da concepção de castigo: “vai ser punido porque errou” (PENTEADO FILHO, 2020, p. 96). • Os crimes hediondos e que ferem os principais bens jurídicos devem ser fortemente punidos, com a imposição de penas de morte e/ou de longo encarceramento (PENTEADO FILHO, 2020, p. 96). • As penas aplicadas para o combate de crimes violentos devem ser cumpridas em estabelecimentos prisionais de segurança máxima, com um regime de pena rígido imposto ao condenado, separando-o do convívio com os demais apenados (PENTEADO FILHO, 2020, p. 96). • Ampliação do encarceramento provisório, para assegurar a resposta rápida ao crime (PENTEADO FILHO, 2020, p. 96). • Diminuição dos poderes e controle da execução penal judicial e aumento dos poderes das autoridades penitenciárias (PENTEADO FILHO, 2020, p. 96). Destaque-se que uma das principais críticas da referida teoria se encontra no fato de que, com a aplicação da política da tolerância zero, houve um encarceramento em massa dos menos favorecidos (PENTEADO FILHO, 2020, p. 96), ou seja, das pessoas que cometem crimes menores (pequenos furtos, vandalismo, etc.). Contudo, para alguns teóricos, a crítica não procede, tendo em vista que, teoricamente, a referida política criminal analisava a conduta do indivíduo, não a sua situação pessoal (PENTEADO FILHO, 2020, p. 96). Entretanto, a partir das concepções mais atuais da sociologia criminal, de que existe uma cultura dominante que impõe os seus pensamentos sobre o sistema penal e carcerário, possivelmente a política de tolerância zero pode gerar consequências negativas, com o encarceramento injusto em massa, ou até, com a imposição de penas mais duras para alguns grupos sociais marginalizados (colocados à margem da cultura dominante). Em 1990, o americano Wesley Skogan desenvolveu, com coleta de dados em várias cidades dos Estados Unidos da América, pesquisa que confirmou os fundamentos da teoria do neorretribucionismo (PENTEADO FILHO, 2020, p. 97). Neorretribucionismo: aplicação prática De acordo com o estudo de Wesley Skogan, que confirmou os fundamentos da teoria do neorretribucionismo, foi identificado que a relação de causalidade existente entre a desordem e a prática criminal é muito maior do que a relação entre criminalidade e pobreza, desemprego, falta de moradia (PENTEADO FILHO, 2020, p. 97). O referido estudo foi de extrema relevância para que fosse efetivamente colocada em prática a política criminal de tolerância zero, implantada pelochefe de polícia de Nova York, Willian Bratton, que combatia fortemente os vândalos no metrô (PENTEADO FILHO, 2020, p. 97). Do metrô, o forte combate aos delitos menores passou para as ruas, implantando-se uma teoria da lei e ordem na qual se agia contra alguns grupos de delinquentes que lavavam os para-brisas de veículos e extorquiam dinheiro dos motoristas (PENTEADO FILHO, 2020, p. 97). Essa prática, antes da implementação da lei e ordem, era punida com serviços comunitários, não levando as pessoas à prisão (PENTEADO FILHO, 2020, p. 97). Contudo, após o encarceramento em massa de quem praticava essa conduta, houve uma intimidação dos demais, o que resultou em uma redução considerável do citado delito, levando os nova-iorquinos a acabar em semanas com um temor de anos (PENTEADO FILHO, 2020, p. 97). Considerando a prática da teoria do neorretribucionismo, devemos considerar os exemplos que seguem: • Em uma cidade dominada pela prática de crimes de grande potencial ofensivo, a polícia passou a se voltar apenas para o combate dos delitos mais violentos. Por essa razão, pequenos furtos, vandalismo e roubos estavam sendo praticados com bastante frequência, em todas as áreas da cidade. O prefeito da cidade criou um pequeno grupo de policiais fortemente treinados, com líder conhecido como “amigo da vizinhança”, que passou a atuar no combate aos pequenos delitos, com o fito de inibir o crime na sua gênese. Surpreendentemente, os índices criminais passaram por uma vertiginosa redução, inclusive se considerados apenas os delitos de maior potencial. Isto porque se descobriu com o tempo que a luta contra crimes menores gerava um temor em todos os delinquentes, porque ficava evidente a presença de algum órgão de combate. O exemplo fictício evidencia como funciona a teoria do neorretribucionismo, isto é, o crime precisa ser combatido desde sua gênese, porque a desordem gera a criminalidade. • Em uma cidade brasileira, passou-se a combater todos os pequenos delitos, tais como os atos de vandalismo, com penas privativas de liberdade, ao passo que o novo prefeito era adepto da teoria do neorretribucionismo. Contudo, em razão do despreparo de alguns policiais, muitas pessoas de grupos etiquetados como criminosos passaram a ser encarceradas injustamente, o que causou um efeito rebote na criminalidade. As pessoas passaram por um processo ainda maior de marginalização, com a participação de grupos criminosos que dominam o sistema carcerário brasileiro. Ao sair das prisões, os indivíduos presos sem motivos passaram a cometer crimes. Apesar da teoria do neorretribucionismo funcionar em cidades dos EUA, a sua aplicação em outros países, que possuem características carcerárias completamente diferentes entre si, deve ser feita com prudência e com a devida adaptação. • • Videoaula: Características do neorretribucionismo • Nesta videoaula, aprenderemos mais sobre as características do neorretribucionismo, entendendo como se deu a sua origem e a implementação das suas políticas. Para tanto, estudaremos com maior detalhamento as políticas da lei, ordem e tolerância zero, mostrando como se deu a sua implementação nos Estados Unidos da América e qual a sua relação com a teoria das janelas quebradas. Saiba mais Para aprofundarmos os conhecimentos obtidos nesta aula, é fundamental recorrermos a materiais complementares, que nos permitam ter uma visão mais aguçada sobre os temas. Para saber mais, acesse os links a seguir. • O trabalho científico Teoria das janelas quebradas: E se a pedra vem de dentro? trata da relação entre a teoria das janelas quebradas e a insuficiência do Estado. • O trabalho científico Uma reflexão crítica aos movimentos de lei e ordem – teoria das janelas quebradas trata da política da lei e ordem. • O trabalho científico A superação da teoria da normatividade constitucional: uma análise da teoria das janelas quebradas e do estado de exceção permanente frente ao medo na sociedade brasileira trata da relação entre o estado de exceção e a teoria das janelas quebradas. • • Introdução • https://www.emporiododireito.com.br/leitura/teoria-das-janelas-quebradas-e-se-a-pedra-vem-de-dentro http://ojs.toledo.br/index.php/direito/article/view/3055 http://ojs.toledo.br/index.php/direito/article/view/3055 http://repositorio.fdv.br:8080/handle/fdv/1043 http://repositorio.fdv.br:8080/handle/fdv/1043 http://repositorio.fdv.br:8080/handle/fdv/1043 • As teorias criminológicas contemporâneas são, em geral, divididas entre teorias de conflito e teorias de consenso. Contudo, alguns dos estudos criminológicos mais atuais, ou até dos desdobramentos das teorias mencionadas, se afastam da dicotomia citada. Nesse contexto, pode-se citar a teoria behaviorista e a teoria das técnicas de neutralização. • Nesta aula apreenderemos sobre a origem destas suas teorias, bem como sobre as principais características delas. Além disso, estudaremos a criminologia queer e a criminologia feminista; ambas se opõem à dominância do sistema penal e carcerário pelo establishment, ou seja, pela cultura dominante. • • Teoria behaviorista, queer, feminista e teoria das técnicas de neutralização: noções gerais • • O pensamento contemporâneo da sociologia criminal se divide, em geral, em teorias de consenso e teorias de conflito. Contudo, alguns outros estudos se afastam da dicotomia citada, o que gera o desenvolvimento de outras formas de analisar o crime. Dentre estas novas teorias, podemos citar a teoria behaviorista, a teoria das técnicas de neutralização, a criminologia queer e a criminologia feminista. • A origem do behaviorismo pode ser imputada ao psicólogo norte-americano John Broadus Watson, tido como o fundador da citada teoria (PENTEADO FILHO, 2020, p. 103). A palavra que dá nome à teoria deriva de behavior, que significa comportamento, na língua inglesa (PENTEADO FILHO, 2020, p. 103). • O behaviorismo parte, dessa forma, da ideia de que o comportamento humano precisa ser observado e, a partir desta análise, as instituições precisam desenvolver mecanismo de estímulos e respostas (PENTEADO FILHO, 2020, p. 103). • Tal teoria é resultado da ideia de que os organismos humanos e os animais se adaptam ao meio ambiente por meio de fatores hereditários e através do hábito, e alguns estímulos conduzem os organismos a apresentar respostas (PENTEADO FILHO, 2020, p. 103). É possível, dessa forma, com a ciência da resposta comportamental dos seres humanos, prever o estímulo, e, com isso, controlar o comportamento (PENTEADO FILHO, 2020, p. 103). • Já a teoria das técnicas de neutralização foi inicialmente postulada por David Matza e Gresham Sykes, no momento em que estes autores analisavam a teoria da associação diferencial de Edwin Sutherland, na década de 1960. • De acordo com essa teoria, os meios de se racionalizar a conduta delitiva utilizados em paralelo com os comportamentos humanos desviantes podem ser denominados de “técnicas de neutralização”, na medida em que procuram neutralizar alguns valores e regras apreendidos pelo criminoso (PENTEADO FILHO, 2020, p. 103 e 104). Percebe-se que esta teoria se aproxima muito da concepção da associação diferencial, sendo uma resposta para a incorporação dos padrões criminosos prevista naquela teoria. • Os criminosos que vivem em uma subcultura delinquencial não perdem um mínimo de contato com a realidade normativa social, procurando justificar o seu comportamento desviante como algo proibido, mas não incriminado (PENTEADO FILHO, 2020, p. 103 e 104). • A criminologia queer é uma resposta à natureza heterossexista e pautada na hegemonia do comportamento tido como o tradicionalmente correto da sociedade dominante, que discrimina aquele que pensa de forma “desviante do comum” e que não aceita os dogmas impostos pela maioria (GONZAGA, 2018, p. 135 e 136). • Por fim, a criminologiafeminista tem por base a proteção das mulheres nas mais variadas formas de violência criminal, sendo abordados dois principais contextos: a) quando ela é autora de um crime; e b) quando é vítima (GONZAGA, 2018, p. 139). • Nas teorias feministas, inclusive na criminologia feminista, a mulher deixa de ser vista como mero objeto a ser manejado pela sociedade dominada pelo gênero masculino (GONZAGA, 2018, p. 139). • • Teoria behaviorista, queer, feminista e teoria das técnicas de neutralização: interpretação e aprofundamento • • Os críticos da teoria behaviorista sustentam que entender o comportamento é uma matéria extremamente difícil, não porque ele é inacessível, mas em razão da sua grande complexidade (PENTEADO FILHO, 2020, p. 103). O comportamento é um processo, não uma coisa, é mutável, fluido e evanescente, e, por esta razão, sua compreensão faz grandes exigências técnicas da engenhosidade e energia do cientista (PENTEADO FILHO, 2020, p. 103). • Mesmo com as citadas críticas, a teoria behaviorista proporcionou um estudo objetivo do comportamento humano, procurando modificar a conduta do criminoso por meio de estímulos positivos (PENTEADO FILHO, 2020, p. 103). • No que tange à teoria das técnicas de neutralização, que se apresenta como uma resposta à teoria da associação diferencial, é importante relembrar que as citadas técnicas procuram neutralizar regras apreendidas pelo criminoso. • Os criminosos se veem como vítimas da sociedade, buscando responsabilizar a vítima pelo crime, criticando os órgãos de controle social e sobrevalorizando o grupo criminoso a que pertence (PENTEADO FILHO, 2020, p. 103 e 104). Por essa razão, é necessário que existam técnicas de neutralização para reinserir os criminosos na “cultura dominante”. • Quando falamos em criminologia queer, os estudos criminológicos se voltam para promover uma oxigenação de novos pensamentos em prol da desconstrução de dogmas entranhados do establishment, de forma a chamar a atenção da sociedade e dos responsáveis pela operação das leis para a existência de pessoas que pensam diferente e também precisam de proteção (GONZAGA, 2018, p. 136). • O pensamento criminológico precisa ser sempre o mais aberto possível e deve se preocupar com todas as diversidades, não podendo se voltar apenas aos estudos estáticos de uma sociedade tida como hegemônica e heterossexista, que resulta em violenta forma de reação homofóbica, seja no combate ao crime produzido ou no tratamento de vítimas da comunidade queer (GONZAGA, 2018, p. 136). • O que se quis (e se quer) demonstrar com a criminologia queer é que novas formas de pensar a proteção da pessoa “diferente” do que prega o establishment devem ser desenvolvidas, seja por meio de leis específicas que pretendam a maior proteção da população queer, ou até um maior combate do sistema penal contra os criminosos que ofendem os bens jurídicos das pessoas queer (GONZAGA, 2018, p. 138 e 139). • Contudo, é necessário falar que o sistema penal e criminal controlado pela cultura dominante é, na maior parte das vezes, heterossexista, homofóbica, racista e machista, gerando reflexos em diversas populações vistas como minoritárias. Também nesse contexto se enquadra a criminologia feminista. • Os movimentos feministas e a criminologia feminista surgem no curso de uma longa jornada de discriminação e fragilização (GONZAGA, 2018, p. 139). Como exemplo do alegado, demonstrando a forma inferior que a mulher era encarada antes do fortalecimento da criminologia feminista, cita-se a atuação do sistema penal nos fatos envolvendo-a como autora ou vítima (GONZAGA, 2018, p. 139), o que será mais bem explanado a seguir. Teoria behaviorista, queer, feminista e teoria das técnicas de neutralização: aplicação prática Quando a mulher é vítima de um crime (ou infração qualquer), o sistema criminal e os órgãos formais de controle não são tão eficazes para protegê-la, gerando, inclusive, uma espécie de vitimização secundária, a ponto de atribuir a responsabilidade do crime à própria mulher, que é culpabilizada ou acusada de ter desejado o “incidente” (GONZAGA, 2018, p. 139 e 140). Por exemplo, ao denunciar um crime de estupro, a mulher passa geralmente por um processo extremamente constrangedor, na medida que é comum que o sistema penal, dominado pelo gênero masculino, impute a culpa do crime à vítima, em razão da sua roupa, postura, dentre outros (GONZAGA, 2018, p. 139 e 140). Fica claro que, nos casos citados, o sistema penal confere à mulher a condição de objeto de direitos, em vez de corretamente ser enaltecida na condição desejada de sujeito de direitos (GONZAGA, 2018, p. 139 e 140). A criminologia feminista entra nesse contexto como forma de modificar o domínio do establishment sobre a criminologia e o direito penal. Da mesma forma, quando a mulher é autora de algumas infrações penais que não deveriam existir, como o caso do tipo penal do aborto, o cenário de vitimização volta a se tornar evidente, ao passo que o sistema criminal e também a sociedade trata a mulher da pior forma possível (GONZAGA, 2018, p. 140). Considerando todo o exposto, devemos analisar os exemplos que seguem: • Maria sofreu uma tentativa de estupro de um grande empresário da sua cidade. Imediatamente após o fato, Maria se dirigiu à delegacia mais próxima, quando foi atendida pelo delegado Pedro. Este escutou toda a narração de Maria, passando a fazer perguntas bem específicas sobre a vestimenta dela e sobre as formas de “sedução” utilizadas por ela. Surpresa com as perguntas, Maria questionou ao delegado a razão das indagações, quando Pedro informou que acreditava que ela havia provocado o crime. Além disso, Pedro, que deveria proteger Maria no momento de extrema fragilidade, passou a tentar flertar com ela, com questionamentos sexuais e investidas bastante invasivas. O exemplo apresentado mostra o processo de vitimização secundária da mulher. Maria, que já havia sido vítima em um crime de grande potencial ofensivo, passou por um outro processo de vitimização, sendo acusada de ter provocado o crime e sofrendo com as investidas invasivas do agente público. • Em uma cidade com altos índices criminais, os órgãos de controle formal (principalmente a polícia) passaram a estudar, por meio da observação, o comportamento das pessoas que mais estavam delinquindo. A partir dessa análise, o sistema penal passou a promover algumas medidas de “estímulo” para evitar o cometimento de crimes. O behaviorismo, como dito, parte da ideia de que o comportamento humano precisa ser observado e, a partir desta análise, as instituições precisam desenvolver mecanismo de estímulos e respostas. Percebe-se, assim, a aplicação prática da teoria behaviorista. • • Videoaula: Teoria behaviorista e teoria das técnicas de neutralização • • Nesta videoaula, entenderemos mais sobre a origem e características da teoria behaviorista e da teoria das técnicas de neutralização. Além disso, analisaremos melhor a criminologia queer, que promove a ideia de maior combate aos crimes contra a população queer, e a criminologia feminista, que investiga os processos de vitimização secundária da mulher como vítima e do processo de vitimização da mulher que comete crimes. Saiba mais Para aprofundarmos os conhecimentos obtidos nesta aula, é fundamental recorrermos a materiais complementares, que nos permitam ter uma visão mais aguçada sobre os temas. Para saber mais, acesse os links a seguir. • O trabalho científico Crime e Castigo em A Laranja Mecânica, de Anthony Burgess trata sobre a teoria behaviorista no livro Laranja Mecânica. 2022. http://aleph.letras.up.pt/index.php/VP/article/viewFile/5377/5054 • O trabalho científico A criminologia ‘queer’ e o abolicionismo penal transviado trata sobre a criminologia queer. • O trabalho científico Mulheres e tráfico de drogas:aprisionamento e criminologia feminista trata sobre a criminologia feminista: • • Teorias de conflito • • O pensamento criminológico moderno é influenciado, principalmente, por duas correntes de funcionamento: a) uma de cunho funcionalista, chamada de teoria de integração ou de teoria do consenso; e b) uma de cunho argumentativo, denominada de teoria de conflito (PENTEADO FILHO, 2020, p. 78). • As teorias de conflito, como indica o nome, se contrapõem às ideias das teorias de consenso, na medida em que passam a estudar o crime a partir da existência de conflitos sociais comuns à organização humana. São exemplos dessas teorias de conflito a labelling approach e a teoria crítica ou radical. • A teoria da labelling approach, também denominada de teoria do interacionismo simbólico, etiquetamento, rotulação ou reação social, é uma das mais importantes teorias de conflito (PENTEADO FILHO, 2020, p. 90 e 91). • A partir do estudo do labelling approach, o crime passou a ser visto não como qualidade da conduta humana, mas uma consequência do processo em que se atribui a “qualidade de criminoso” por meio de um processo de estigmatização (PENTEADO FILHO, 2020, p. 90 e 91). https://www.scielo.br/j/dilemas/a/DkhS4hVqNJcyJ7NpMNV3kxx/abstract/?lang=pt https://www.scielo.br/j/ref/a/PQPcqNq4NR9TCkk3tNmvP5c/abstract/?lang=pt https://www.scielo.br/j/ref/a/PQPcqNq4NR9TCkk3tNmvP5c/abstract/?lang=pt • O criminoso, na teoria do etiquetamento, passa a se diferenciar do homem comum em razão do estigma que sofre (processo de marginalização) e do rótulo que recebe (PENTEADO FILHO, 2020, p. 90 e 91). • A teoria crítica ou teoria radical teve o marco inicial no início do século XX, com a pesquisa do holandês Bonger, que, inspirado pelos estudos marxistas, entendeu ser o capitalismo a base da criminalidade, ao passo que promove o egoísmo, característica que leva os indivíduos a praticar crimes (PENTEADO FILHO, 2020, p. 92 e 93). • De acordo com a teoria crítica, as condutas delitivas dos menos favorecidos são as únicas que são efetivamente perseguidas, ao contrário do que acontece com a criminalidade dos poderosos (PENTEADO FILHO, 2020, p. 92 e 93), os comumente chamados de crimes de colarinho branco. • Todavia, existem algumas outras teorias ainda mais atuais que utilizam referências das duas formas de pensar o crime, utilizando bases de organização consensual e organização conflituosa. • Nesse contexto, temos a teoria lei e ordem, também denominada de realismo de direita ou neorretribucionismo, uma derivação da escola de Chicago (PENTEADO FILHO, 2020, p. 94 e 95). O neorretribucionismo parte da premissa de que os pequenos delitos devem ser completamente rechaçados, o que faria com que os crimes mais graves fossem inibidos, fulminando o mal a partir do seu nascedouro, sendo uma forma de prevenção geral (PENTEADO FILHO, 2020, p. 94 e 95). • Ademais, pode-se citar a teoria behaviorista, a teoria das técnicas de neutralização, a criminologia queer e a criminologia feminista. • A origem do behaviorismo pode ser imputada ao psicólogo norte-americano John Broadus Watson, tido como o fundador da citada teoria (PENTEADO FILHO, 2020, p. 103). O behaviorismo parte, dessa forma, da ideia de que o comportamento humano precisa ser observado e, a partir desta análise, as instituições precisam desenvolver mecanismo de estímulos e respostas (PENTEADO FILHO, 2020, P. 103). • Na teoria das técnicas de neutralização, por sua vez, os meios de se racionalizar a conduta delitiva utilizados em paralelo com os comportamentos humanos desviantes podem ser denominados de “técnicas de neutralização”, na medida em que procuram neutralizar alguns valores e regras apreendidos pelo criminoso (PENTEADO FILHO, 2020, P. 103 e 104). Videoaula: Revisão da unidade Nesta videoaula, revisaremos o conteúdo visto sobre as teorias de conflito, analisando com aprofundamento a teoria da labelling approach e a criminologia crítica ou radical. Ademais, investigaremos novamente as teorias que não se enquadram na dicotomia consenso e conflito, tratando especificamente do neorretribucionismo, da teoria behaviorista, da teoria das técnicas de neutralização, da criminologia feminista e da criminologia queer. Estudo de Caso Imagine que você é professor universitário e ministra a disciplina de criminologia na universidade em que trabalha. Um dos alunos da sua turma o procurou para sanar algumas dúvidas. Ele não encontrou a relação das teorias do consenso e do conflito com as criminologias feminista e queer. Segundo ele, se uma teoria contemporânea não se encaixa nessa dicotomia, não pode ser enquadrada como pensamento criminológico. Além disso, ele não entendeu o objeto principal das citadas escolas, mesmo tendo estudado o conteúdo disponibilizado por você. Por essa razão, ele o procurou para que você responda a todos os questionamentos citados. ______ Reflita Frente ao exposto, você, enquanto professor, precisa responder aos seguintes questionamentos: todo o pensamento criminológico contemporâneo é subdividido em consenso ou conflito? A criminologia feminista é pensamento criminológico? A criminologia queer é pensamento criminológico? Quais as principais características das duas correntes? Videoaula: Resolução do Estudo de Caso Na situação em tela, você é professor universitário e ministra a disciplina de criminologia na universidade em que trabalha. Um dos alunos da sua turma o procurou para sanar algumas dúvidas. O pensamento contemporâneo da sociologia criminal se divide, em geral, em teorias de consenso e teorias de conflito. Contudo, alguns outros estudos se afastam da dicotomia citada, o que gera o desenvolvimento de outras formas de analisar o crime. Dentre estas novas teorias, podemos citar a criminologia queer e a criminologia feminista. Não é porque as citadas correntes não fazem parte das teorias de consenso e de conflito que elas não são consideradas pensamento criminológico. A criminologia queer é uma resposta à natureza heterossexista e pautada na hegemonia do comportamento tido como o tradicionalmente correto da sociedade dominante, que discrimina aquele que pensa de forma “desviante do comum” e que não aceita os dogmas impostos pela maioria. Os estudos criminológicos da criminologia queer se voltam para promover uma oxigenação de novos pensamentos em prol da desconstrução de dogmas entranhados do establishment, de forma a chamar a atenção da sociedade e dos responsáveis pela operação das leis para a existência de pessoas que pensam diferente e também precisam de proteção. Por fim, a criminologia feminista tem por base a proteção das mulheres nas mais variadas formas de violência criminal, sendo abordados dois principais contextos: a) quando ela é autora de um crime; e b) quando é vítima. Nas teorias feministas, inclusive na criminologia feminista, a mulher deixa de ser vista como mero objeto a ser manejado pela sociedade dominada pelo gênero masculino. Resumo Visual As teorias de conflito, como indica o nome, estudam o crime a partir dos conflitos sociais. Além das teorias de conflito e de consenso, existem alguns estudos mais modernos que não se enquadram nem como teorias de conflito, nem como teorias de consenso; apesar disso, eles também precisam ser considerados. As figuras a seguir visam a resumir as teorias de conflito e esses novos estudos. Figura 1| Labelling approach. Fonte: elaborada pelo autor. A labelling approach estuda a formação do crime a partir do etiquetamento de alguns grupos (e indivíduos) como criminosos. Figura 2| Criminologia crítica. Fonte: elaborada pelo autor. A criminologia crítica estuda o crime a partir dos conflitos sociais existentes, que são inerentes às sociedades capitalistas. Nessa teoria, o crime das classes dominadas são mais oprimidos do que crimes de colarinho branco, cometidos tipicamentepela classe dominante. Figura 3| Neorretribucionismo. Fonte: elaborada pelo autor. O neorretribucionismo parte da premissa de que os pequenos delitos devem ser completamente rechaçados, fazendo com que os crimes mais graves sejem inibidos e fulminando o mal a partir do seu nascedouro. Seria uma forma de prevenção geral. Figura 4| Criminologia feminista. Fonte: elaborada pelo autor. A criminologia feminista visa se opor à opressão existente pelo domínio do sistema penal pelo establishment, este que comumente é machista. Figura 5| Criminologia queer. Fonte: elaborada pelo autor. A criminologia queer visa se opor à opressão existente pelo domínio do sistema penal pelo establishment, que comumente é heterossexista e homofóbico.