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L IBERAL ISMO E DEMOCRAC IA A semente da democracia política foi plantada no campo da filosofia do século XVII e, sobretudo, do XVIII, conhecido como Século das Luzes. O Iluminismo foi um desdobramento do humanismo do Renascimento europeu, em especial pela va- lorização da razão humana em contraposição à razão divina – em outras pala- vras, defendia explicações científicas e racionais para o mundo natural e social. No campo da política, já no século XVII alguns filósofos contestaram a ideia do direito divino dos reis, o que veio a repercutir no modelo de sociedade estamental, que dava suporte ao absolutismo. O pensamento iluminista criou as bases do liberalismo político porque: 1) voltou a considerar o indivíduo como agente político; 2) buscou soluções institucionais e jurídicas para o exercício do governo, em vez de soluções pes- soais; 3) separou o Estado da religião. DO PACTO POLÍTICO AO ESTADO REPRESENTATIVO Dois pensadores ingleses do século XVII foram fundamentais para analisar a política: Thomas Hobbes (1588-1679) e John Locke (1632-1704). Ambos con- vergiam na convicção de que o Estado exprimia um pacto entre os homens, que renunciavam a sua liberdade total, como indivíduos, e um governo que regula- mentava os direitos e os deveres de cada um para o bem da sociedade. Se to- dos fossem completamente livres, os mais fortes esmagariam os mais fracos, e venceriam pela violência e pela injustiça. O Estado, portanto, seria responsável por regular essa liberdade por meio de leis aplicáveis a todos os indivíduos – in- clusive os governantes. Em sua obra Leviatã (1651), Hobbes defendia que o homem era naturalmente egoísta e possessivo, de modo que seria preciso criar uma instituição para pôr freio nesses apetites destrutivos. O Estado seria, portanto, não um desígnio di- vino, mas o fruto de um contrato no qual os homens transfeririam ao soberano o direito do governo em prol da paz e da segurança gerais. Esse contrato estava acima de todos, inclusive do governante, contra o qual a rebelião seria válida caso decidisse separar o bem do soberano e o bem do povo. sociedade estamental sociedade dividida em estamentos ou ordens, grupos sociais rígidos com poderes desiguais. O principal exemplo era a sociedade francesa. O clero, a nobreza e o povo, este último composto de grupos socioeconômicos muito diferentes, de servos camponeses a ricos comerciantes, eram os estamentos desta sociedade. R e p ro d u ç ã o /B ib li o te c a N a c io n a l d o R e in o U n id o , L o n d re s , In g la te rr a Detalhe do frontispício da primeira edição de Leviat‹, de Thomas Hobbes. O soberano é representado como a união dos diversos indivíduos, uma síntese visual de sua teoria. 27 P4_V5_CIE_HUM_Vainfas_g21Sa_Cap1_018a039_LA.indd 27P4_V5_CIE_HUM_Vainfas_g21Sa_Cap1_018a039_LA.indd 27 8/31/20 9:58 AM8/31/20 9:58 AM O grande avanço de Locke em relação a Hobbes reside no conceito de representação política. Locke privilegiou o que considerava os direitos na- turais do ser humano: o direito à vida, à liberdade e à propriedade, tudo de acordo com leis aprovadas pela sociedade e executadas pelo governo. Mas como os indivíduos, reunidos em dada sociedade, poderiam atuar na criação das leis e na vigilância dos governos? Por meio da representação po- lítica. Os indivíduos delegariam a alguns, por mérito individual ou qualidades de atuação política, o direito de agir em seu nome. Locke falava em repre- sentação dos cidadãos como indivíduos, independentemente de sua origem social. Ele considerava que o governo legítimo devia ser exercido pelo Poder Legislativo, a instituição representativa da sociedade civil. No entanto, Locke não considerava os homens iguais na sociedade, exceto como seres humanos em abstrato, pois sublinhava diferenças de riqueza, de inteligência e de vocação para a política. Na prática, seu liberalismo limita- va a representação política com base em desigualdades sociais: nem todos poderiam escolher seus representantes; nem todos, sobretudo, podiam ser representantes. Portanto, o liberalismo avançou em relação à democracia antiga ao reconhecer alguns direitos básicos a todos (em especial, à vida), mas recusou a igualdade de direitos políticos. John Locke testemunhou o fim definitivo do absolutismo na Grã-Bretanha e a adoção do regime constitucional parlamentarista, em 1689. Isso significa que o rei continuou representando o país como chefe de Estado, mas jurou se submeter à Constituição formulada pelo Poder Legislativo e abriu mão do governo. No lugar dele, quem passou a chefiar a administração foi o primeiro-ministro, líder do partido vencedor nas eleições periódicas para o Parlamento. É o regime vigente até hoje no Reino Unido. OBSERVE QUE . . . A N A L I S A N D O M E N S A G E N S Locke costuma ser classificado como um filósofo contratualista, por defender que os indivíduos criaram o Estado por meio de um pacto. Esse pacto visava assegurar os direitos naturais do ser humano: o direito à vida, à liberdade e à propriedade de bens. Leia um trecho do capítulo “Dos fins da sociedade política e do governo” de seu Segundo tratado sobre o governo civil. Se o homem é tão livre no estado de natureza como se tem dito, se ele é o senhor absoluto de sua própria pessoa e de seus bens, igual aos maiores e súdito de ninguém, por que renun- ciaria a sua liberdade, a este império, para su- jeitar-se à dominação e ao controle de qualquer outro poder? A resposta é evidente: ainda que no estado de natureza ele tenha tantos direi- tos, o gozo deles é muito precário e constan- temente exposto às invasões de outros. Todos são tão reis quanto ele, todos são iguais, mas a maior parte não respeita estritamente nem a igualdade nem a justiça, o que torna o gozo da propriedade que ele possui neste estado muito perigoso e muito inseguro. Isso faz com que ele deseje abandonar esta condição, que, embora livre, está repleta de medos e perigos contínuos; e não é sem razão que ele solicita e deseja se unir em sociedade com outros, que já estão reu- nidos ou que planejam se unir, visando a salva- guarda mútua de suas vidas, liberdades e bens, o que designo pelo nome geral de propriedade. LOCKE, John. Segundo tratado sobre o governo civil. Petrópolis: Vozes, 1994. p. 156. 1 Com base no texto acima, discuta as seguintes questões com um colega: a) Entre a vida, a liberdade e a propriedade, qual é o direito humano mais prezado pelo filósofo inglês? Justifiquem sua resposta. b) Identifiquem no trecho uma ideia de Locke que se aproxima da concepção de Hobbes a respeito do homem em estado de natureza. c) O que prevalece, do ponto de vista sociológico, nos conceitos de Locke: indivíduos agregados em sociedade ou grupos sociais específicos? Por quê? 2 Pesquise, com seu colega, a história da Inglaterra no século XVII e, em seguida, discuta com ele, justifi- cando: as ideias de Locke a respeito de liberdade e propriedade atendem melhor a que tipo de indivíduo? 28 P4_V5_CIE_HUM_Vainfas_g21Sa_Cap1_018a039_LA.indd 28P4_V5_CIE_HUM_Vainfas_g21Sa_Cap1_018a039_LA.indd 28 8/31/20 9:58 AM8/31/20 9:58 AM