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Segundo Ilse Scherer-Warren, os novos movimentos sociais (NMS) surgem enquanto contraposição ao autoritarismo presente na cultura política brasileira – resultante das elites brasileiras e também na reprodução do autoritarismo no interior das classes dominadas. Diante disso, aqueles se organizam com a pretensão de romper com as práticas autoritárias, tanto no âmbito da sociedade civil, quanto do Estado propriamente dito. Nesse sentido, os NMS buscam equilibrar as forças entre o Estado – política institucional (governo, partidos e estruturas burocráticas de cominação) – e sociedade civil (classes sociais e toda espécie de agrupamento social fora do Estado como estrutura institucional) e, da mesma forma, equilibrar as relações de força entre dominantes e dominados, subordinante e subordinados constantes na própria sociedade civil. O cenário em que surgem os NMV denota a cultura política do Brasil, onde predomina uma formação histórica que reproduz relações sociais autoritárias e conservadoras – no contexto da política institucional e sociedade civil. Surgem com características distintas, após significativa imobilidade da sociedade civil – opressão estatal presente no período ditatorial, regime que oprimiu a atuação das camadas populares nos planos econômico, político e cultural/ideológico. Para então enfrentar o autoritarismo, que antigos grupos de pressão se organizaram em novos moldes, emergindo novos grupos como forças políticas no âmbito da sociedade civil – movimentos feministas, ecológicos, étnicos, dentre outros. Tais movimentos passam a ser percebidos como produtores da História, questionando o Estado autoritário e capitalista, nesse sentido compartilhando a ideologia do antiautoritarismo e descentralização do poder, apesar de apresentarem especificidades conforme as situações estruturais e conjunturais onde se organizam. Feitas essas considerações em relação aos NMS, Ilse Scherer-Warren destaca uma questão relacionada a contribuição desses movimentos “para a corrosão do autoritarismo (expresso no Estado, nos partidos e nas relações da sociedade civil) e para a democratização da sociedade, em termos de democracia política e democracia social” (2014, p.51). Diante da referida questão, a autora parte do pressuposto que ‘transformar’ deve ir além da modificação da sociedade por meio do aparelho estatal, implicando também na transformação decorrente de ações concretas da sociedade civil. E é nesse sentido que se busca compreender o projeto e a prática do NMS, revelando o seu potencial transformador, tornando possível o fortalecimento entre sociedade civil e Estado ao encontro do reconhecimento do pluralismo cultural e à diversidade. Por meio desse agir, os NMS revelam seu ideal básico na prática enquanto novo sujeito social: redefinem o espaço da cidadania. Assim, organizam-se pautados no: [...] sentimento de um tripla exclusão relativa – econômica, política e cultural/ideológica – sempre presente na história brasileira, mas que se acentua consideravelmente durante os anos mais duros do regime militar [...]. Assim, defende-se o direito de participar do consumo de bens e equipamentos coletivos, através dos Movimentos Sociais Urbanos; o direito de permanecer na moradia e na terra ocupada, pelo Movimento dos Favelados; o direito à terra para o trabalho pelo Movimento dos Sem-Terra ou de preservar as terras produtivas, pelo Movimento das Barragens; o direito a uma vida mais sadia, pelo Movimento Ecológico; o direito a não serem discriminados culturalmente, pelos Movimentos Étnicos e assim por diante. Mas o relevante é que nestes movimentos defende-se também o direito de participar de decisões que afetam o destino de seus membros e o respeito por suas formas culturais (Scherer-Warren, 2014, p. 54). Na luta pela redefinição da cidadania, que os NMS então “negam o modelo político existente e apontam para novas formas de relações societárias”, no sentido de deslegitimar as decisões autoritariamente definidas pelo Estado ou apenas em conformidade com os interesses das classes dominantes (Scherer- Warren, 2014, p. 54). Essa prática política de luta é reforçada por educadores populares que se encontram junto aos movimentos, por meio dos princípios da legalidade e legitimidade e na crença do poder da força comunitária, que para além de forma de vida, agora é percebida como forma de luta. Luta que se baseia na resistência ativa não violenta, como agir político de um novo modelo cultural que visa a democratização das práticas cotidianas internas ao grupo, de modo a ampliar a participação, principalmente com a crescente presença de mulheres e jovens nos movimentos. Logo, rejeitam modelos de organização baseados na hierarquia e burocratização excessiva, levando a tomada de decisões a partir das bases do movimento, utilizando a representação e delegação apenas quando necessário. Nesse sentido, reforçam sua autonomia frente aos partidos políticos, que historicamente foram se constituindo a partir das classes dominantes, de maneira que seguem reproduzindo práticas centralizadoras e autoritárias. Expostas essas compreensões, Ilse Scherer-Warren (2014, p. 60) então sintetiza: Considero, em síntese, que as lutas pela redefinição da cidadania (num sentido mais pleno: econômico, político e social), a deslegitimação de decisões tomadas autoritariamente pelo Estado, o fortalecimento das relações comunitárias em seu sentido político, a forma de agir pela resistência ativa não violenta, a tentativa de democratização das praticas cotidianas e a busca de autonomias relativas são espaços que os NMS estão abrindo para a construção de uma sociedade mais democrática. Porém, além dos avanços, os NMS enfrentam dificuldades e limitações ao lutar por novas formas de se fazer política e de se conceber e viver em sociedade. Dentre as apontadas pela referida autoria estão: a defasagem entre discurso ideológico e prática efetiva, além do alcance fragmentado e localizado de ação Não há uma homogeneização entre os referidos movimentos, inclusive pelo fato de alguns se caracterizarem justamente pelo respeito à diversidade, o que pode obstar o fortalecimento de valores comuns. Para tanto, necessária uma aproximação entre os movimentos, que se mostra difícil quando os NMS se revelam marcados pela conotação de classe – movimentos de base mais popular de um lado, e, movimentos típicos de classe média, de outro lado. Os primeiros, ressaltam a contradição de uma sociedade baseada no novo modelo cultural que em geral os NMS reivindicam, caso os segundos não explicitem em seus discursos a realidade de que se convive com significativo contingente populacional que “não tem seus direitos mínimos de cidadania (no sentido mais pleno, econômico e político) assegurados”. Somado a isso, enfatizam como princípios básicos a construção da democracia política e social, a liberdade política e igualdade social (Scherer-Warren 2014, p. 60). Outra dificuldade apontada pela referida autora envolve o necessário repensar dos valores tradicionais, que deveria ser impulsionado pelos NMS enquanto movimentos culturais, porém demanda um envolvimento desses movimentos com a sociedade civil como um todo. Referência: SCHERER-WARREN, Ilse. Redes de Movimentos Sociais. 6 ed. São Paulo: Loyola, 2014.