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DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE Professora Marina Schmidlin Sponholz CONTEÚDO DA DISCIPLINA • FUNDAMENTOS DO DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE • DIREITOS FUNDAMENTAIS • FAMÍLIA E PODER FAMILIAR • GUARDA: modalidades e efeitos • TUTELA: requisitos e exercício • AUTORIZAÇÃO PARA VIAJAR • ADOÇÃO • SISTEMA DE GARANTIAS • PARTE INFRACIONAL E PENAL DO ECA • ECA DIGITAL COMPOSIÇÃO NOTA: 16/03/2026 Seminários 1º BIMESTRE – Tema: direitos fundamentais e proteção integral 2,0 Entrega até 12/04/2026 ADS 1º BIMESTRE: Questionário de 05 questões manuscrito e digitalizado (0,5) + mapa mental ou resumo (manuscrito e digitalizado) de até 2 páginas dos principais temas do 1º bimestre (0,5) 1,0 13/04/2026 Prova Bimestral - 1º BIMESTRE 7,0 25/05/2026 Seminários 2º BIMESTRE – Tema: ECA DIGITAL 2,0 Entrega até 14/06/2026 ADS 2º BIMESTRE: Questionário de 05 questões manuscrito e digitalizado (0,5) + mapa mental ou resumo (manuscrito e digitalizado) de até 2 páginas dos principais temas do 2º bimestre (0,5) 1,0 15/06/2026 Prova Bimestral - 2º BIMESTRE 7,0 SEMINÁRIOS 1º BIMESTRE Cada grupo deve apresentar em até 15 minutos o tema sob três óticas: • O Texto da Lei (O que diz a Constituição e o ECA). • Dados oficiais. • Projeto de Lei, Projeto Social ou Política Pública que existem ou estejam em discussão, que visem contribuir com a realização destes direitos. • Justificar “porque” contribui. 4 1. Direito à Vida e à Saúde 2. Direito à Liberdade, Respeito e Dignidade 3. Direito à Educação 4. Direito à Cultura, Esporte e Lazer 5. Direito à Profissionalização e Proteção no Trabalho 5 TEMAS DA AULA FUNDAMENTOS DO DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE • Histórico nacional e internacional da proteção da infância. • Doutrina da proteção integral e prioridade absoluta. • Natureza jurídica do Direito da Criança e do Adolescente. • Conceito de criança e adolescente no ECA. • Princípios estruturantes. HISTÓRICO NACIONAL E INTERNACIONAL DA PROTEÇÃO DA INFÂNCIA IDADE ANTIGA • Laços familiares estabelecidos pelo culto à religião e não pelas relações afetivas ou consanguíneas • Filhos eram objeto de relações jurídicas • Propriedade dos pais • O tratamento entre os filhos não era isonômico IDADE MÉDIA • Crescimento do cristianismo = defendeu o direito à dignidade para todos, inclusive para os menores • Atenuou a severidade de tratamento na relação pai e filho. • Penas para os pais que abandonavam ou expunham os filhos. • Filhos nascidos fora do matrimônio eram discriminados e permaneciam à margem do Direito. HISTÓRICO BRASILEIRO BRASIL COLÔNIA: dificuldade de catequizar os indígenas adultos e educavam as crianças e utilizaram-nas como forma de educar e adequar os pais à nova ordem moral. Autoridade parental castigar o filho. BRASIL IMPÉRIO: Ordenações Filipinas (imputabilidade 7 anos de idade). Código Penal do Império de 1830 (14 anos e exame da capacidade). 1º Código Penal dos Estados Unidos do Brasil (9 anos e exame da capacidade) INÍCIO DO PERÍODO REPUBLICANO: sistema jurídico restrito aos “menores” em abandono ou estado de delinquência - 1926: Primeiro Código de Menores do Brasil (expostos e abandonados) - 1927: Código Mello Mattos. Família tem dever de suprir adequadamente as necessidades básicas dos menores. Previa medidas assistenciais e preventivas para minimizar a infância de rua. - Preocupação era correcional e não afetiva: tutela tinha o objetivo de adequar o menor ao comportamento ditado pelo Estado, mesmo que o afastasse da família. DÉCADAS 1940-1970: - 1943: Comissão Revisora do Código Mello Mattos. Diagnosticado que o problema era principalmente social, buscaram elaborar um código misto, com aspectos social e jurídico. - Regime Militar: comissão desfeita e os trabalhos interrompidos. - Final dos anos 1960 e começo da década de 1970: iniciam- se debates para reforma ou criação de uma legislação menorista. - 1979 foi publicada a Lei n. 6.697 (novo Código de Menores que consolidou a doutrina da Situação Irregular. - Doutrina da Situação Irregular: fundada no binômio carência/delinquência. Tratava crianças/adolescentes pobres ou infratores como objetos de intervenção estatal e tutela. Código de Menores tratava apenas daqueles que se enquadravam no modelo predefinido de situação irregular. Daqueles que não se enquadravam dentro do protótipo familiar concebido pelas elites intelectuais e jurídicas. Foco na segregação. PÓS-CONSTITUIÇÃO 1988: - Sociedade mais justa e fraterna, menos patrimonialista e liberal. - Resguardo da dignidade da pessoa humana. - Influência de documentos internacionais como: Declaração de Genebra (1924); Declaração Universal dos Direitos Humanos ONU(1948); Declaração dos Direitos da Criança (1959); Convenção Americana Sobre os Direitos Humanos (1969) Regras Mínimas das Nações Unidas para a Administração da Justiça da Infância e da Juventude (Res. 40/33 da Assembleia-Geral, de 29 de novembro de 1985). - Abandono da expressão “menor” - Revolução constitucional que colocou o Brasil no seleto rol das nações mais avançadas na defesa dos interesses infantojuvenis. - Sistema garantista da doutrina da proteção integral: Crianças e jovens são sujeitos de direito, titulares de direitos fundamentais. - Assegurar direitos fundamentais: dever concorrente do Estado, família e sociedade. - Promulgada Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente) para regulamentar e implementar o novo sistema. RESUMINDO: • Código de Menores: mero objeto de proteção • CRFB/88: dignidade da pessoa humana = TODO ser humano como centro autônomo de direitos e valores essenciais à sua realização plena como pessoa. • A partir de 1988 = CRIANÇAS E ADOLESCENTES COMO TITULARES DE DIREITO e PRIORIDADE. • Mudança de paradigma = mudança de legislação infraconstitucional. • Surgimento do ECA (13/07/1990) DOUTRINA DA PROTEÇÃO INTEGRAL VS. DOUTRINA DA PROTEÇÃO IRREGULAR • Absorve valores da Declaração dos Direitos da Criança (1959) da ONU. “a doutrina da proteção integral é formada por um conjunto de enunciados lógicos, que exprimem um valor ético maior, organizada por meio de normas interdependentes que reconhecem criança e adolescente como sujeitos de direito. A doutrina da proteção integral encontra-se insculpida no art. 227 da Carta Constitucional de 1988, em uma perfeita integração com o princípio fundamental da dignidade da pessoa humana.” (AMIN, Andréa Rodrigues. Doutrina de proteção integral. Curso de direito da criança e do adolescente: aspectos teóricos e práticos. Kátia Regina Ferreira Lobo Andrade Maciel (coord.). 12. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2019. p. 62) Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. [...] (Redação dada Pela Emenda Constitucional nº 65, de 2010) https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/Emendas/Emc/emc65.htm#art2 • Doutrina da situação irregular: não universal, restrita a um limitado público infantojuvenil, não enunciava direitos, mas apenas predefinia situações e determinava uma atuação de resultados. • Doutrina da proteção integral: rompe o padrão, muda o paradigma. Cria um Direito amplo, abrangente, universal e principalmente, exigível. • Crianças e adolescentes passaram a ser DEVER e PRIORIDADE de todos. ECA: CONSTRUÇÃO SISTÊMICA DA DOUTRINA DA PROTEÇÃO INTEGRAL Microssistema aberto de regras e princípios, fundado em três pilares básicos: 1) Criança e adolescente são sujeitos de direito. 2) Condição peculiar de pessoa em desenvolvimentosujeita a uma legislação especial. 3) Prioridade absoluta na garantia de seus direitos fundamentais. • Revogou Código de Menores • 1º marco legal do mundo em sintonia com a Convenção sobre os Direitos da Criança das Nações Unidas. • Garante a concretização dos direitos trazidos pela CRFB/88. • Alcance a todas as crianças e adolescentes, indistintamente. • Força cogente por ser lei (obriga e subordina), com grande eficácia devido à aceitação social. • Começou o processo de transformação do tratamento infantojuvenil, mas tem sido constantemente atualizado com novos e importantes direitos. • Reconhecimento de direitos especiais e específicos de todas as crianças e Adolescentes (art. 3º). • Prevê um conjunto de medidas governamentais aos três entes federativos (todas as esferas de poder envolvidas). • Centralidade local e competência executória de políticas de atendimento é MUNICIPAL (art. 88, I, do ECA) • Princípio da descentralização político-administrativa: própria sociedade por meio do Conselho Municipal de Direitos e Conselho Tutelar, atua diretamente na proteção de suas crianças e jovens. SÍNTESE DO CONTEÚDO JURÍDICO DO ECA a) proclamou os direitos fundamentais; b) definiu as diretrizes e linhas de ação da política de atendimento; c) prescreveu mecanismos coletivos e populares de eficácia aos direitos declarados, criando os Conselhos de Direitos e os Conselhos Tutelares; d) criou novos mecanismos judiciais de validação dos direitos irrealizados; e) adotou o direito infracional (sistema de garantias e direitos processuais) f) promoveu uma revisão no sistema de justiça; g) adotou a estratégia de serviços em rede; e h) estabeleceu normas de responsabilização dos obrigados (penas criminais e administrativas). DE AULA, Paulo Afonso Garrido. ECA e suas mudanças em 30 anos de vigência. Cap. 1. In: FÁVERO, Eunice T.; PINI, Francisca Rodrigues O.; SILVA, Maria Liduína de Oliveira E. ECA e a proteção integral de crianças e adolescentes. São Paulo: Cortez Editora, 2020. NATUREZA JURÍDICA DO DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE Conjunto de leis e princípios que se regem sob o prisma da proteção integral e do melhor interesse. Ou seja, que trata de interesses públicos peculiares, quais sejam os direitos das crianças e adolescentes. Assim, o Direito da Criança e do Adolescente pertence ao Direito Público, porque: Interesse Social: O bem jurídico protegido (a infância e a juventude) transcende o interesse individual. Normas Cogentes: As regras do ECA são, em sua maioria, de ordem pública (irrenunciabilidade). CONCEITO DE CRIANÇA E ADOLESCENTE SEGUNDO O ECA – ART.2º A CRIANÇA A pessoa até 12 (doze) anos de idade incompletos = até 1 dia antes de completar 12. O ADOLESCENTE Pessoa entre 12 (doze) anos completos e 18 (dezoito) anos de idade (12 até 1 dia antes de fazer 18). ATENÇÃO Entre 18 e 21 anos de idade = aplicação excepcional do ECA nos casos expressos em lei. 29 RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA PAIS, ESTADO E SOCIEDADE É uma obrigação e não uma faculdade de todos. Dever concorrente = de todos ao mesmo tempo PRINCÍPIOS ESTRUTURANTES 1. PRINCÍPIO DA PRIORIDADE ABSOLUTA (art. 227, CRFB/88 + arts. 4º e 100, parágrafo único, II, do ECA): Primazia das crianças e dos adolescentes em todas as esferas de interesse (judicial, extrajudicial, administrativo, social ou familiar). Prioridade constitucional (não comporta indagações ou ponderações). 2. PRINCÍPIO DO SUPERIOR INTERESSE (do melhor interesse): Necessidades da criança e do adolescente como critério de interpretação da lei, deslinde de conflitos, ou mesmo para elaboração de futuras regras. Prioridade ao que objetivamente atende a dignidade das CA como pessoa em desenvolvimento e aos seus direitos fundamentais em maior grau possível.