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CAPÍTULO 1 A PSICOLOGIA SOCIO-HISTORICA: uma perspectiva crítica em psicologia Ana Mercês Bahia Bock A Psicologia tem muitos anos de existência, pois o marco que temos considerado para sua instituição enquanto área específica na ciência é o ano de 1875. As condições para a construção da Psicologia encontram-se, pois, no século XIX. N esse período a burguesia moderna ascende enquanto classe social. A partir dessas concepções, em 1875, Wundt (1832-1920) distinguiu a Psicologia como uma ciência. Um objeto próprio caracterizava a nova ciência: a experiência consciente. Wundt reconhecia o caráter básico dos elementos da consciência (atomismo), mas se diferenciava do associacionism o por pensar a consciência como processo ativo na organização de seu conteúdo pela força da vontade. Via o pensamento humano, ao mesmo tempo, como produto da natureza e como criação da vida mental. Concebia o indivíduo ao mesmo tempo como criatura e como criador. Wundt, por não ter instrumentos metodológicos para solucionar essas contradições, que só seriam solucionadas pelo método dialético, sugeriu duas psicologias: um a Psicologia Experimental e uma Psicologia Social, de modo a resolver as dicotomias natural e social; autonomia e determinação; interno e externo. Seus seguidores enfrentarão esses pêndulos, escolhendo um dos pólos da dicotomia. Titchener (1867-1927) concebeu o homem como dotado de uma estrutura que permite que a experiência se torne consciente; James (1842-1910), ao contrário, pensou o homem como um organismo que funciona em um ambiente e a ele se adapta. O Comportamentalismo pensou o homem como produto de condicionamentos, a Gestalt valorizou as experiências vividas e a Psicanálise enfatizou as forças que o homem não domina e não conhece, mas que o constituem. Todas as abordagens se constituíram como esforços para que a ciência p sicológica pudesse dar conta de compreender o homem e seu contalo com o mundo real. As difrenças entre as várias perspectivas teóricas que vão aos poucos sendo construídas, portanto, não se dão nesse plano. Apenas ocorrem no balanço do pêndulo: interno/externo; psíquico/orgânico; com por tam ento/vivências subjetivas; natural/social; autonomia/determi nação. A Psicologia Sócio-Histórica, que toma como base a Psicolo gia Histórico-Cultural de Vigotski (1896-1934), apresenta-se des de seus primórdios como uma possibilidade de superação dessas visões dicotômicas. O discurso de Vigotski, no II Congresso Pan- Russo de Psiconeurologia, em 1924, sobre o método de investiga ção reflexológica e psicológica, demonslra-o com clareza, ao fazer a crítica a posições que foram consideradas reducionistas e ao in centivar a produção de uma Psicologia dialética. A Psicologia Sócio-Histórica carrega consigo a possibilidade de crítica. N ão apenas por um a intencionalidade de quem a pro duz, mas por seus fundamentos epislemológicos e teóricos. Fundamenta-se no marxismo e adota o materialismo históri co. A Psicologia Sócio-Histórica não trabalha com essa concepção. Acredita que o fenômeno psicológico se desenvolve ao longo do tempo. Assim , o fenômeno psicológico: • não pertence à Natureza Humana; • não é preexistente ao homem; • reflete a condição social, econômica e cultural em que vivem os homens. Portanto, para a Sócio-Histórica, falar do fenômeno psicológico é obrigatoriamente falar da sociedade. Falar da subjetividade hum ana é falar da objetividade em que vivem os homens. E por que a Psicologia Sócio-Histórica é crítica a essas perspectivas? Porque tais perspectivas fazem uma Psicologia descolada da realidade social e cultural, que é constitutiva do fenômeno psicológico. A Psicologia Sócio-Histórica pretende assim ser crítica porque posicionada. Exige a definição de uma ética e uma visão política sobre a realidade na qual se insere o nosso “objeto de estudo e trabalho”. Rompendo com as tradições Um segundo elemento faz da Psicologia Sócio-Histórica uma abordagem crítica. Ela permite romper com uma tradição classificatória e estigmatizadora da ciência e da profissão. A Psicologia tem sua história “colada” aos interesses dos grupos dominantes. A Psicologia, no decorrer de sua história, observou e registrou cuidadosam ente o desenvolvimento das crianças e jovens. Esse conhecimento era necessário ao desenvolvimento das novas concepções de educação (referimo-nos aqui às concepções da Escola Novista) que, em oposição à concepção tradicional, tomavam as crianças como naturalmente boas e com seu trabalho educacional procuravam manter essas características. A Psicologia sistem atizou o desenvolvimento observado nas crianças e tomou-o como natural. A posição crítica da Psicologia Sócio-Histórica, que entende o desenvolvimento do homem e de seu mundo psicológico como uma conquista da sociedade humana, permite denunciar esse trabalho de “ocultamento” das condições de vida nos discursos da Psicologia. Superando a neutralidade na Psicologia Um terceiro aspecto que nos permite afirmar a perspectiva crítica da Psicologia Sócio-Histórica está diretamente ligado a este último. É preciso compreender que estamos contribuindo para a construção de projetos de vida, direcionados para finalidades que interessem ao sujeito. O sujeito com quem se trabalha é um ser ativo e transformador do mundo; é um ser posicionado que intervém em seu meio social. O encontro desses sujeitos (cliente e profissional) se dará como diálogo no qual o cliente possui a matéria-prima a ser trabalh ada, e o profissional, os instrumentos e a tecnologia do trabalho. Superando o positivismo e o idealismo na Psicologia A Psicologia Sócio-Histórica é, enfim, uma perspectiva crítii a porque supera a postura positivista e idealista que tem caracterizado a Psicologia como ciência, tomando como método o materialismo histórico e dialético. Como proposição teórico-metodológica, o positivismo pode ser apresentado, de um modo simplificado, a partir de três idéias principais: • os fenômenos humanos e sociais são regulados por leis naturais que independem da ação do homem; • se esses fenômenos são regulados por leis naturais, devemos então utilizar métodos e procedimentos das ciências naturais para desvendar essas leis; • também segundo o modelo das ciências naturais, as ciências hum anas e sociais devem orientar-se pelo modelo da objetividade científica. Para o positivismo, a realidade é governada por leis racionais passíveis de ser desvendadas pela observação sistem ática e rigorosa dos fatos. O positivism o contribuiu para construir uma Psicologia que entendeu o fenômeno psicológico como algo desligado das tramas sociais, semelhante a qualquer outro fenômeno natural e, como tal, subm etido a leis que não podem ser alteradas pela vontade humana, m as apenas conhecidas. Sabem os que a Psicologia precisou aderir a esses princípios positivistas para se firmar como ciência. Mas, a partir do método marxista, já podem os fazer a crítica dessa visão e superá-la. O positivism o ocultou o jogo de interesses e os valores que sempre estiveram no campo da produção dos conhecimentos. O pensamento positivista foi incrementado pela postura idealista, que afirmou a existência apenas da razão subjetiva. Concebeu-se a realidade externa como algo que só pode ser conhecido a partir do modo como é formulado e organizado pelas idéias, e não tal como é em si mesma. Em síntese, o método materialista histórico e dialético caracteriza-se por: • u m a concepção m aterialista, segun do a qual a realidade m aterial tem existência independente em relação à idéia, ao pensam ento, à razão; existem leis na realidade, num a visão determ inista; e é possível conhecer toda a realidade e suas leis; • uma concepção dialética, segundo a qual a contradição é característica fundam ental de tudo o que existe, de todas as coisas; a contradição e sua superação são a base do m ovimento de transformação constante da realidade; o movimento da realidade está expresso nas leis da dialética (lei do movimento e relação universais; lei da unidade e luta de contrários; lei da transformação daquantidade em qualidade; lei da negação da negação) e em suas categorias; • uma concepção histórica, segundo a qual só é possível compreender a sociedade e a história por meio de uma concepção materialista e dialética; ou seja, segundo a qual a história deve ser analisada a partir da realidade concreta e não a partir das idéias, buscando-se as leis que a governam (visão materialista); por sua vez, as leis da história são as leis do movimento de transformação constante, que tem por base a contradição; portanto, não são leis perenes e universais, m as são leis que se transformam; não expressam regularidade, mas contradição (visão dialética); nesse sentido, as leis que regem a sociedade e os homens não são naturais, mas históricas; não são alheias aos homens, porque são resultado de sua ação sobre a realidade (trabalho e relações sociais); mas são leis objetivas, porque estão na realidade material do trabalho e das relações sociais; entretanto, essa objetividade inclui a subjetividade porque é produzida por sujeitos concretos, que são, ao mesmo tempo, constituídos social e historicamente. Desta forma, a partir desses pressupostos metodológicos e das categorias decorrentes, passam os a: • examinar os objetos, buscando entendê-los na sua totalidade concreta na qual as partes estão em interação, permitindo que o fenômeno se constitua como tal; • acom panhar o movimento e a transformação contínua dos fenômenos; • entender que a m udança dos fenômenos é qualitativa e se dá por acúm ulo de elementos quantitativos que se convertem em qualidade, alterando o fenômeno; • entender que o movimento e a transformação das coisas se dão porque no próprio interior delas coexistem forças opostas. A contradição existente em todos os objetos é a força de seu movimento de transformação. E na relação desse objeto com o mundo que o cerca que os elementos contraditórios se constituem. Assim , a Psicologia Sócio-Histórica produzirá conhecimenlos com outros pressupostos, abandonando a pretensa neutralidade do positivismo, a enganosa objetividade do cientista, a positividade dos fenôm enos e o idealism o, colando su a produção à materialidade do mundo e criando a possibilidade de uma ciência i rílica à ideologia até então produzida e uma profissão posicionada a lavor das melhores condições de vida, necessárias à saúde p sicológica dos homens de nossa sociedade.