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Invasões e migrações germânicas A chegada dos hunos trouxe desespero entre os povos germânicos, que passaram a exercer pressão cada vez mais forte sobre as fronteiras do Império Romano. Os hunos causaram a migração de Ostrogodos, Visigodos, Alanos, Burgúndios, Suevos, Vândalos e muitos outros para as terras do Império Romano. Durante muito tempo, a historiografia tratou o fim do Império Romano do Ocidente com uma ideia de "declínio" ou "queda", e atribuiu a responsabilidade aos "bárbaros", como eram chamados os povos germânicos. Contudo, novos estudos têm questionado o emprego desses termos, que, além de estereotipados e preconceituosos, trazem consigo uma visão de história linear e evolutiva. É inegável que a crise do século III da Era Cristã representou uma exacerbação de problemas estruturais do Império, e que as relações entre romanos e não romanos, que eram em grande parte pacíficas, tornaram-se mais tensas. Mas somente as migrações e as invasões não são suficientes para explicar o fim do Império Romano. As inovações historiográficas do século XX não significaram apenas a introdução de novas abordagens e novos temas na escrita da história: houve uma significativa revisão de conceitos que, segundo os historiadores, representavam preconceitos e projetos políticos dos momentos de sua elaboração mais do que possibilidades de análises de determinados períodos históricos. O Império Romano vivenciou uma crise estrutural no século III da Era Cristã, o que ocasionou a sua desagregação e a formação dos reinos germânicos. Contudo, antes da vivência dessa crise, romanos e povos não romanos estabeleceram relações comerciais e diplomáticas, além de travarem guerras. Assim, os contatos entre romanos e outros povos eram constantes, e as migrações ocorridas se deram em diferentes contextos ao longo do tempo. O trabalho do historiador pressupõe uma análise minuciosa das fontes de pesquisa, e um dos cuidados que o pesquisador deve ter ao realizar suas pesquisas é atentar para os produtores de tais documentos. Os germanos, por exemplo, não legaram muitos documentos sobre si próprios, exigindo que nós recorramos aos relatos que outros povos fizeram sobre eles. É o caso da crônica "Germânia", de Tácito, um político romano, que relata as suas impressões sobre esses povos. TÓPICOS IMPORTANTES: >O fim do Império Romano do Ocidente, em 476, foi consagrado pela historiografia como um marco para o término da História Antiga e início da Idade Média. Sabemos os problemas que as cronologias e as periodizações podem gerar para os historiadores, principalmente por sua artificialidade. Considerando a temática do fim do Império Romano, são feitas as seguintes afirmações: I – A adoção de 476 como marco da passagem da Antiguidade para o Medievo pode reforçar interpretações de “decadência”, “declínio” e “queda”, mais do que a desagregação de um Império e formação de outras estruturas econômicas e políticas a partir de práticas já existentes. II – É importante estabelecer um marco rígido para o fim da História Antiga, pois os reinos surgidos com a desagregação do Império Romano em nada conservaram a cultura romana. III – A data de 476 é importante para ser considerada como o início da Idade Média, pois foi nesse momento que a Igreja Católica passou a ser a instituição mais importante na Europa Ocidental e Oriental. A ideia de uma mudança drástica entre um período e outro reforçaria uma interpretação de que havia uma transformação em curso no Império Romano, que gerou a sua desintegração e a adoção de práticas há muito instituídas entre os romanos e os não romanos. Nesse sentido, os reinos surgidos com essa desintegração conservaram aspectos da cultura romana, que foram assimilados pelos povos que viviam próximos. A Igreja Católica, sem dúvida, foi uma das instituições mais importantes durante o medievo, mas o seu poder foi dividido com o islamismo em outras regiões da Europa, em certos períodos. >A crise do século III levou o Império Romano a modificar uma série de práticas e procedimentos em relação às suas fronteiras e ao ingresso no Exército como forma de proteção aos ataques realizados por alguns povos germanos. Os não romanos foram incorporados no Exército e certos povos foram incorporados ao território romano como federados para neutralizar o ataque de inimigos, cultivar terras e estabelecer relações comerciais. A incorporação de não romanos ao Império se deu por meio da doação de terras e da possibilidade de pertencerem ao Exército, possibilitando, dessa forma, uma ocupação física, o desenvolvimento de atividades comerciais e a proteção das fronteiras do Império Romano. >As “invasões bárbaras” foram consideradas, durante muito tempo, como um dos elementos determinantes para o fim do Império Romano. Entretanto, novas abordagens historiográficas vêm questionando a responsabilidade dos contatos e conflitos entre romanos e não romanos na desagregação do Império Romano. ( V ) Os povos não romanos, chamados de “bárbaros”, trouxeram novas culturas e padrões de comportamento em seus contatos com os romanos. ( V ) O termo “invasões” tem muito mais um sentido valorativo do que de explicação histórica, o que tem levado muitos historiadores a abandoná-lo em detrimento da ideia de “migrações”. ( F ) Os contatos estabelecidos entre os romanos e os demais povos que viviam em torno do Império foram sempre belicosos, porque os povos não romanos não aceitavam a conversão ao catolicismo. ( F ) As migrações de povos não romanos podem não ter contribuído diretamente para o fim do Império Romano, mas foram por meio desses movimentos que ocorreu uma disseminação de ideais selvagens e primitivas. V – V – F – F. >A demografia e a etnografia são áreas que têm possibilitado um incremento nos estudos sobre a passagem da Antiguidade para a Idade Média, principalmente no que diz respeito ao fim do Império Romano e à formação dos reinos germânicos. A demografia tem demonstrado que os germanos não eram um contingente populacional muito volumoso. Quanto à etnografia, leia o trecho a seguir: “Assim sendo, não havia uma etnia romana, por mais que houvesse características que os tornassem semelhantes. Os bárbaros, de outra forma, eram uma categoria inventada, frutos de uma longa tradição etnográfica e discursiva do mundo clássico [...].” Procurou-se forjar uma homogeneidade étnica a partir dos termos “romanos” e “bárbaros” como forma de reforço de identidades, contudo, os dois grupos são marcados por uma quantidade muito variável de etnias. O Império Romano, por sua extensão e duração, abarcava inúmeras etnias que, por consequência, davam aos romanos diferentes fenótipos. A etnografia tem possibilitado desconstruir a ideia da existência de uma homogeneidade em torno do termo "romano", assim como foi feito em relação aos "germanos". >Após o século V, o Império Romano do Ocidente desintegrou-se e em seu lugar novos reinos começaram a se formar. Esses reinos tinham diferenças significativas entre si, principalmente em questões culturais, em função de características próprias dos povos que os conformaram e do contato estabelecido com os romanos. Sobre a cultura dos povos germanos, são feitas as seguintes afirmações: I – Os germanos, que habitavam não somente as fronteiras do Império, mas também vários de seus territórios, transferiram para essas terras algumas práticas econômicas, como o sistema de trocas e a exploração coletiva da terra. II – A guerra tinha uma importância muito grande para esses povos, que se organizavam de forma patriarcal e em grupos familiares, e por relações de confiança, lealdade e reciprocidade. III – Os germanos abandonaram os cultos pagãos e se converteram ao cristianismo, fator que facilitou as trocas estabelecidas com os romanos. I e II. As práticas de comércio e de cultivo utilizadas pelos germanos foram levadas para os territórios ocupados do Império Romano, e foram essas práticas que constituíram as principais formas agrícolas e comerciais da Idade Média, assim como as relações de confiança, lealdade e reciprocidadeestabelecidas entre os grupos germanos fomentaram as relações de suserania e vassalagem. Contudo, nem todos os povos germanos se converteram ao cristianismo: muitos mantiveram os seus cultos pagãos, com cosmogonia e mitologias próprias.